Minha gata sumiu faz 2 semanas.
Gritei por ela, postei no Facebook, fui caminhar procurando, mas eu já perdi as esperanças de que ela volte, e já cansei de procurá-la.
O motivo mais provável?
Sim, eu deixava ela livre pra sair e entrar de casa quando quisesse.
Provavelmente ela só sumiu, ou acabou morrendo, ou alguém acabou pegando. Ou talvez só tenha ido viver algo que era maior do que ficar.
Fiquei um pouco triste porque a amava, mas, ao mesmo tempo, parecia inevitável.
Ela só sumiu porque eu não a mantive presa dentro de casa, foi só uma consequência da liberdade que eu dei pra ela.
Falei para o meu gato para não ser tão curioso, porque a curiosidade matou o gato, e ele me respondeu:
“O medo não evitará minha morte, só vai impedir minha vontade de viver a vida. Miau, com todo respeito.”
Vi essa frase essa semana, e parando pra pensar, se eu tivesse deixado ela presa comigo, talvez ainda estivesse aqui.
Mas, frustrante… quem não quer ver o que há lá fora? Quem não quer ser livre? Quem quer permanecer preso a algo?
Tentei acreditar que a maior prova de amor é deixá-la livre. Mesmo que isso signifique perdê-la. Afinal, demonstrar amor seria mantê-la presa a uma amarra que eu mesmo fiz?
Minha maneira de dizer que eu amo seria: “você pertence a mim e precisa ficar aqui”? Mesmo quando a vontade dela fosse outra?
Ou então, se eu realmente a amo e quero o bem dela, aceitar a sua liberdade de ser quem se é parece o caminho mais justo.
Independência. O mais puro amor de um gato.
O amor controla você?
Um grande problema dos relacionamentos de hoje é que queremos ter a posse de algo que nunca é nosso.
Tem gente que não quer alguém ao lado, quer alguém sob controle. E o ciúme vira um jeito de isolar a pessoa, fazendo ela sentir que o mundo dela deve se resumir apenas àquele relacionamento.
Chamamos isso de amor, mas no fundo estamos sempre tentando moldar o outro. É como querer que a pessoa fique ao nosso lado, mas só se ela abrir mão de ser quem realmente é.
A gente chama de zelo, mas é egoísmo. Você diz que é “cuidado” com quem ela fala ou como ela se veste, quando na verdade só está tentando manter sob controle cada pequeno detalhe da vida dela.
No momento em que você precisa policiar o outro pra se sentir seguro, o amor já saiu pela janela e o que ficou foi um carcereiro cuidando de um prisioneiro que, por medo ou cansaço, aceitou as grades.
Imagina que você se encante por um rio que corta o seu quintal. Ele é vivo, belo, e a água é sempre nova.
Por medo de que ele seque ou mude o curso para longe de você, você decide construir uma represa, fechando todas as saídas para garantir que aquela água seja só sua.
No começo, você tem um espelho d’água sob controle. Mas, sem o movimento do fluxo, o rio acaba virando um pântano.
A água apodrece, o brilho se apaga e tudo o que era vida vira lodo. No seu esforço de “ter” o rio, você acabou matando o que o fazia ser rio. Agora você tem a posse da água, mas não pode mais se banhar nela.
A gente tem essa mania doentia de querer "represar" o outro. E aí, daqui a dois anos, você olha pra aquela pessoa e reclama que ela "perdeu o brilho", que ela está "apagada" ou "chata".
Claro que está. Você sufocou sistematicamente tudo o que ela tinha de autêntico. Você queria tanto a garantia de que ela nunca teria olhos para o mundo que acabou transformando um parceiro num reflexo vazio das suas próprias inseguranças.
O amor liberta, e onde ele se torna um escravo da posse, o medo toma o lugar do encanto.
Amor de um gato
No fundo, acredito que precisamos entender que ninguém realmente pertence a ninguém.
Prender quem a gente ama é só um jeito egoísta de aliviar o nosso medo da solidão, mas o preço disso é alto demais: é matar o brilho do outro.
A gata não me deixou; ela só seguiu o fluxo dela, assim como o rio. Se eu a forçasse a ficar, ela não seria a gata que eu amei, seria apenas um reflexo da minha insegurança em acabar sem ela.
Acho que a verdadeira entrega não reside no “você é meu”, mas no “eu sou eu, você é você, e ainda assim escolhemos ser nós”.
O amar seria isso: oferecer o quintal, a comida e o carinho, mas deixar o portão aberto. Se ela não voltou, é porque o mundo lá fora era o que ela precisava naquele momento.
A gente só ama de verdade quando desiste de ser dono. O amor não é uma corda que te prende; é o encontro de quem se reconhece livre e, ainda assim, escolhe ficar.
“O amor não se impõe, não se exige, não se prende.”
— Paulo Coelho
✍️ Escrever é o jeito que encontrei de transformar o meu 'não saber' em destino. No meu e-book, Escrevivência, compartilho como a escrita pode ser o seu par de asas quando o chão insiste em sumir.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.