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Bernardo.nxt · Aug 21, 2026

Você é tão artificial quanto uma inteligência artificial.

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Bernardo.nxt · Bernardo.nxt

“A televisão nos convenceu a acreditar que, um dia, seríamos milionários, deuses do cinema, ou astros do rock. Mas não vamos ser. E estamos pouco a pouco descobrindo isso.”

É engraçado, e de certa forma doloroso perceber o quanto daquilo que pensamos ser nosso foi colocado dentro da nossa cabeça por outras pessoas.

A gente chama de personalidade aquilo que, muitas vezes, é uma coleção de influências.

O jeito que você se veste.

A música que você escuta.

O carro que você quer.

O corpo que você deseja ter.

O emprego que você acha que deveria desejar.

E, se eu parar pra ser sincero comigo mesmo, até os meus sonhos provavelmente não nasceram exclusivamente de mim.

Isso até poderia me aliviar, mas não alivia. Porque a culpa de não alcançá-los pesa como se fosse minha. Acho que essa é a pior parte disso tudo, alguém me vendeu a ideia de que eu era o problema, e eu comprei.

Uma vez que você compra essa ideia, corre atrás de qualquer coisa que prometa te consertar.

É por isso que olhar pra essa obsessão por autoaperfeiçoamento que brota em cada esquina da internet me faz querer ser cego. Parece que ir pra academia e desenhar um corpo milimetricamente sarado vão magicamente anestesiar a nossa neurose ou tampar o buraco no peito que a gente finge não ver.

Precisamos sempre do ideal. Ter o corpo ideal, a vida ideal, o emprego ideal, o corte de cabelo ideal.

Num mundo onde tudo precisa ser performado para caber numa tela ou atender à expectativa de uma plateia anônima, as coisas reais simplesmente deixam de existir.

Afinal, não basta apenas existir e pagar os boletos; a gente foi condenado à obrigação de ostentar uma existência bem-sucedida.

O emprego comum já não serve mais. Você tem que ser o chefe, o “CEO de si mesmo” — aquela narrativa conveniente que romantiza o esgotamento físico e chama o burnout de paixão.

Tudo para justificar o preço daquele café gourmet em copo de papel e, no fim do dia, voltar correndo para uma daquelas caixas brancas, estéreis e minimalistas que a arquitetura moderna clonou aos montes por aí.

Parece que nos empurram a obrigatoriedade de sermos algo grandioso o tempo todo, quando definem a grandiosidade pela quantidade de dinheiro e futilidades que você possa acumular.

É a mesma coisa de se definir inteiramente por um cargo. As pessoas adoram isso;

— Olá, quem é você?

— Ah, eu sou advogado.

— Mas quem é você, de verdade?

— O que você quer dizer? O que eu faço?

— É.

— Ah, eu trabalho revisando contratos, protestos...

— MAS O QUE VOCÊ FAZ DA VIDA?

— Da vida? Eu já disse, sou advog—

— Mas que caralhos, eu queria saber sobre os seus gostos, suas coisas, sobre quem és.

É impressionante como a gente se torna um funcionário tão dedicado da própria persona que esquece de ter uma vida para habitar.

“Os anúncios nos fazem comprar carros e roupas, perseguir empregos que odiamos para comprar porcarias que não precisamos.”

Quando você passa 10 horas por dia num escritório, à base de café, precisa de algum tipo de escape.

Comigo, às vezes, esse escape era gastar dinheiro com qualquer besteira que pudesse dar a sensação de que minha vida tinha ganhado alguma cor.

“Tudo bem. Vou aguentar aqui no trabalho. Quando chegar em casa, pelo menos vou ter uma encomenda pra abrir.”

Aí eu comprava alguma coisa pra decoração, depois um smartphone novo, e depois um relógio. Porque, aparentemente, olhar as horas no celular já não era suficiente. Agora eu precisava que o relógio também registrasse meu trajeto enquanto eu caminhava.

No fundo, eu sabia que não precisava daquilo. Mas precisava da sensação.

Aquela ansiedade esperando uma encomenda chegar. Abrir a caixa, tirar o plástico e sentir que alguma coisa aconteceu. Quem nunca lotou um carrinho da Shopee com coisas que, se parasse pra pensar por cinco minutos, perceberia que mal precisava?

É engraçado porque a gente pensa que está comprando objetos. Mas muitas vezes estamos comprando pequenos momentos de felicidade.

Uma desculpa para aguentar a segunda-feira, uma recompensa depois de um dia merda, ou só uma novidade para quebrar a monotonia.

O grande problema é que você passa a trabalhar para poder comprar coisas que te façam suportar o trabalho.

Trabalhar pra comprar, comprar pra se sentir melhor, e se sentir melhor só por alguns minutos — porque logo precisa trabalhar de novo, agora pra pagar o que comprou. E a roda continua girando.

As coisas que você possui, acabam possuindo você.

“Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos grandes guerras. Nem temos grandes depressões. Nossa grande guerra é a guerra espiritual… nossa grande depressão é nossas vidas.”

Chega um momento em que você percebe o quanto está cansado, o quanto não consegue dormir à noite, e como mesmo quando dorme, nada muda — afinal é a sua alma que está cansada.

A corrida pelos status, pelas encomendas que anestesiam sua segunda-feira, pelos cargos, pelos corpos perfeitos, tudo isso pesa tanto que a única vontade genuína que temos é de se mudar pro meio do mato, sem nada e sem ninguém.

Por isso, destrua-se. Não literalmente você, mas a versão de você que construíram para que fosse vendida.

​“Só depois de perdermos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa.”

Você não percebe? O Clube da Luta nunca foi realmente sobre gostar de violência. A luta era apenas o lugar onde, por alguns segundos, toda a neurose desaparecia.

Quando o sangue escorria pelo rosto e a costela estalava, o aluguel atrasado, a pressão do chefe, o tédio e toda aquela vida cuidadosamente construída simplesmente deixavam de existir. A dor física representa voltar pra realidade. É o único choque elétrico capaz de arrancar o homem moderno do transe do consumo.

A gente passa a vida inteira com medo de perder tudo que conquistou, e gasta o pouco que sobra tentando proteger exatamente aquilo que nos consome.

E tudo isso a que custo? Uma existência inteira reduzida a sustentar posses; uma vida inteira dedicada a acumular correntes douradas que fingimos ser troféus, mas que não passam de prisões que construímos com as próprias mãos.

O ciclo é simples.

Desejos → consumo → prisão → medo → desejos.

A verdade é que dá trabalho demais ser livre. É infinitamente mais fácil continuar vestindo a própria fantasia, pagar os boletos em dia e esperar o próximo feriado para fingir que temos uma vida.

Obviamente, você não vai explodir o próprio apartamento. Afinal, você gastou três meses de salário escolhendo o sofá minimalista e a paleta de cores da sala.

E também não vai simplesmente abandonar a vida que construiu na sua cabeça. É muito mais difícil destruir uma ideia do que um apartamento.

Você vai fechar esta aba, suspirar, abrir o Instagram de novo para ver a vida dos outros e voltar para a sua rotina amanhã cedo. A única diferença é que, agora, você vai saber exatamente o tamanho da sua coleira.

E é por isso que…

Você é tão artificial quanto uma inteligência artificial.

Leia meu livro, Escrevivência — um guia pra quem quer escrever melhor e se entender no processo.

Escrevivência

Read the original on bernardonxt.substack.com

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