Acho que eu nunca fiz isso aqui, mas passeando com o Marquinho, recolhendo o cocô dele e tal, fiquei pensando que pode ser uma coisa interessante.
Imagina se a Yoko tivesse uma coluna em um jornal nos anos 1960 e, bem durante o lançamento do disco branco, ela fizesse um texto contando um pouco sobre cada música.
Eu não sou a Yoko, isso aqui não é um jornal e, convenhamos, a Schlop não é os Beatles. Mas vou tentar um faixa a faixa de “Cachorros e madames no fim do mundo”.
No filme “Alta Fidelidade”, os personagens Rob, Barry e Dick conversam sobre a vontade de namorar uma musicista, completamente apaixonados pela cantora fictícia Marie de Salle, interpretada por Lisa Bonet. “Ela me perguntaria o que eu achei das músicas e talvez até incluiria uma piada interna nossa nos créditos do álbum”, diz Rob. Barry vai além: “Talvez ela pudesse colocar uma foto minha em algum lugar”.
Parece ridículo, mas é realmente uma das partes legais de se namorar um músico, e eu consegui tudo isso que eles queriam. Tudo começou com uma fitinha. Mas chega de conversa, vamos ao faixa a faixa:
1 - Clássicos
A ideia central da música foi criada depois de um rolê em que a Isabella se sentiu deslocada, com pessoas que ela achava que não eram genuínas. Alguns detalhes, entretanto, nem os ouvidos mais atentos vão perceber.
O trecho que diz “quando chegar a minha vez a lápide já vão encher de batom” é uma referência ao túmulo de Oscar Wilde em Paris. As pessoas que iam prestar suas homenagens ao escritor costumavam passar batom e dar um beijo na lápide. O cemitério colocou uma proteção de acrílico, e os fãs passaram a beijar o acrílico.
Na parte em que ela canta “e fazer como a música lá, ajoelhar e rezar”, a música lá é “Won’t Get Fooled Again”, do The Who.
2 - Marquinho Van Halen
Como qualquer pai de pet que se preze, eu fico inventando músicas para cantar pro nosso shih tzu, o Marco Antonio. A mais consagrada é uma versão de “Mandy”, do Barry Manilow, com a letra modificada para “ele é um cachorro bonzinho e o nome dele é Marquinho”. A Isabella apelou e fez uma canção original.
Lembra da parte do “Alta Fidelidade” em que eles falam em colocar uma foto em algum lugar? Pois é, o single de Marquinho nunca ganhou uma versão física, mas a ideia era uma foto minha passeando com ele na contracapa. Saiu no Instagram da banda.
3 - Trilho do trem
Nessa eu tô quase tão no escuro quanto vocês. Um dia eu tava num happy hour da firma e ela me mandou por WhatsApp a música prontinha. Eu só sei que a inspiração é “Trains Across the Sea”, do Silver Jews.
Acho que é uma das minhas preferidas dela e a letra é uma coisa absurda de boa.
4 - São Paulo, te amo, mas tá foda demais
A Isabella tinha feito a música “Quando vão terminar de construir São Paulo?” depois que nós lemos um texto da Gaía. Não lembro qual foi o gancho, mas ela teve a ideia de fazer um cover de “New York, I love you but you’re bringing me down”, do LCD Soundsystem.
Eu dei uns pitacos, mas minha parte preferida é “não penso no mundo cruel nem no valor do aluguel, como um filme do Buñuel, quem está no inferno ou quem está no céu, no prédio feio e no arranha-céu”. Era um trecho que ela tava com dificuldade de adaptar e do nada apareceu com essa genialidade.
5 - Rima triste
A demo era só ela no violão e, na época, lembro de achar uma das músicas pop mais bem feitas dos últimos anos. Ao vivo ela ficou mais pesada e por algum motivo eles nunca conseguiram tocar certinho. A versão do disco ficou ótima, mas na minha cabeça ainda tem aquela demo. Espero que a Isabella tenha guardado.
6 - Canção do fim do mundo
Se não me engano, ela fez essa um pouco depois que eu escrevi a letra de “Lua rosa”, que entrou no primeiro álbum da Schlop. Era uma época tão boa de começo de relacionamento. O mundo pode estar acabando, mas nós estamos aqui mobilizados para ouvir o lançamento da canção de amor. Ela tem uma qualidade cinematográfica, acho que porque a gente tinha visto o filme “Procura-se um amigo para o fim do mundo”.
7 - O rei do velotrol
Eu tava falando pra Isabella que queria escrever uma letra ou uma poesia sobre alguém que lembra da infância com nostalgia, de andar de velotrol e ser muito bom nisso e nada mais importar. No dia seguinte, ela voltou com a música e a letra prontas, minha contribuição ficou só pro nome da música mesmo.
8 - Peixes fora d’água
Essa foi escrita numa época em que o edifício Martinelli tinha festas quase toda semana. Era sempre um valor que não era impeditivo pra gente, mas era caro. Só que quando a gente via a galera que frequentava, dava um desânimo por não ter nada em comum.
Um tempo depois fomos a um aniversário com muita gente fazendo carão e um amigo disse que a dj só tocava música da Zara, isso pra dizer que eram músicas sem carisma, aquele som praticamente de fundo que ninguém se importa. Na tentativa de agradar todo mundo, a dj deixou a pista vazia. Isso entrou em “peixes” quando ela canta “e se eu fizesse parar essa música de loja cara”.
O mapa da música autoral de Fortaleza está no forno
Na próxima semana ou, na pior das hipóteses, na outra, vamos publicar uma pesquisa com bandas e casas de shows da capital cearense. Se você é ou conhece alguma de Fortaleza, o momento de falar é agora.
Veja o que já foi publicado até agora:
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