Certa vez eu cismei que a infelicidade sabia sorrir e contar mentiras bem contadas. Percebi isso num lapso de distração, não sei se minha ou dela.
Mas o caso foi que - de súbito - o gole do meu melhor vinho se tornou amargo. Foi uma amargura sutil, mas ela perdurou. E meus dias se tornaram mais longos.
É engraçado como uma coisa tão insignificante, como essa amargurazinha, tem maior importância do que todo o resto.
Você já percebeu que é de miudezas em miudezas que se despedaça um mundo? A desgraça anda de mãos dadas com os detalhes.
Pode notar, é pelo detalhe ínfimo que se perde o chão, que se perde a guerra e que se perde tudo.
As insignificâncias dizem mais sobre a vida do qualquer grandeza pretensiosa gritando em frente aos holofotes. Elas contam uma verdade tão cristalina que quase somos incapazes de ouvir.
É a mesma verdade escancarada saindo da boca de um bêbado, caído na rua, com o coração partido. Ninguém ouve. Porque ninguém se importa. A imensidão ocupa muito espaço, não sobra fôlego nem coragem para olhar coisas poucas.
Foi dessa mesquinharia amarga, quase imperceptível, que me ocorreu um pensamento: Muito pensei sobre ser feliz, mas pouco fiz para ser feliz.
Me descobri ali, de súbito, como um quadro mal pintado, então mudei. Simplesmente. Olhei para as minhas insignificâncias com grandeza e mudei. Tive que mudar.
Eu ficaria desapaixonada pela minha vida se não fizesse isso. Aquela amargura me comeria viva. Se alguém porventura olhasse nos meus olhos, iria dizer: está desbotada, oca, a alma descoloriu.
Mas eu não me acovardo. Não mais.
Cheguei muito longe para ser engolida por mini infelicidades(zinhas). Sou mulher forte, moço, dessas que peita o mau e não hesita. Demônio nenhum ganha de mim. Me dê 3 goles de whisky e eu mato ele na unha.
Se me fosse perguntado agora “o que é a vida?”, eu responderia à moda Dostoiévski: A vida é fazer de você mesmo uma obra prima.
E eu não me acovardo, moço, porque eu nunca quis ser uma obra de arte barata.
com amor,
Bárbara Albach
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