A história sem fim é um filme estranho. Em boa parte graças aos saudosos efeitos práticos, que costumavam fazer coisas mágicas parecerem mágicas, perturbadoras como toda magia deve ser. Mesmo tendo visto muitas vezes, e lido o livro até a metade, me lembro de muito pouco da história. Só de imagens soltas, como se fosse um sonho. E a mais vívida delas é essa daqui: o portão das esfinges.
Só de olhar já se sabe que, onde quer que essa passagem dê, ela não é para qualquer um — as esfinges não deixam prosseguir quem duvida do próprio valor. No livro, esse é o primeiro de três portões que Atreyu precisa vencer para chegar ao Oráculo do Sul. E faz sentido: autoconfiança costuma ser mesmo o primeiro, e mais impiedoso, filtro para quem quer chegar em qualquer lugar.
Portões que só deixam passar quem merece aparecem nas histórias mais antigas de que temos registro por escrito. No Épico de Gilgamesh, o poderoso rei, após perder seu melhor amigo e alma gêmea Enkidu, desenvolve um pavor da morte que o leva além do fim do mundo, onde vive o único homem imortal, a quem Gilgamesh pretende perguntar qual o segredo da vida eterna. Para chegar lá, porém, ele precisa atravessar um túnel, guardado por um casal de criaturas metade gente, metade escorpião. Os guardiões se impressionam com a valentia de Gilgamesh, que a essa altura já é lendária, e o deixam ir, mas avisam que ele precisa atravessar o túnel rápido, pois é por alí que passa o sol depois que se põe, a caminho de nascer de novo. Gilgamesh tem que apostar corrida com o amanhecer para não ser pulverizado.
Os egípcios do Império Novo decoraram a tumba de alguns dos seus mais famosos faraós com um texto funerário chamado pelos egiptólogos de O livro dos portões. A história acompanha o deus Rá, o sol, em uma jornada pelo submundo, através das 12 horas da noite, até sua ressurreição na manhã seguinte. Cada hora correspondente a um portão, cada portão guardado por entidades cujo nome precisa ser conhecido por quem quiser passar: nomes como “Aquele que Devora os que Não Existem” e “Aquele com o Coração Misterioso” — que é como vou chamar meus filhos. Não é raro que portões mágicos se abram com o poder de um nome, de uma palavra, como Noemi Jaffe lembrou outro dia, ao comentar a magia da metáfora. “A ‘palavra’ certa faz uma coisa que não tem nada a ver com ela, acontecer”. Às vezes a palavra mágica é abracadabra — lá em casa era por favor.
Todo mundo gosta de passagens secretas, portas misteriosas, portais mágicos. Principalmente quando criança, quem nunca sonhou acordado que descobria um acesso para um mundo mais empolgante do que este daqui? Eu nunca dei muita bola para as princesas da Disney, mas assisti a uma VHS copiada de Alice no País das Maravilhas centenas de vezes. Mais do que o mergulho na toca do coelho, era da imagem das portas que eu mais gostava: portas dentro de portas, pequenas e minúsculas, e com maçanetas falantes. Portas impassáveis (“Impossíveis?” “Não! Nada é impossível.”), que exigiam uma transformação de quem quisesse atravessar.
No País das Maravilhas, Alice muda sem parar. De tamanho, de nome, de humor; ela se perde e se encontra, depois se perde de novo. Regras são criadas e esquecidas, personagens surgem e somem, o que é divertido fica logo ameaçador. Portais costumam aparecer para quem tem desejos que não cabem numa vida comum, e desejos são complicados, mudam de forma, confundem, assustam. Correr atrás deles é um risco. Mas Alice precisa saber onde esse bendito coelho vai!
Em Quero ser John Malkovich, Craig, um titereiro incompreendido, consegue emprego como arquivista no andar 7 e 1/2, acessível apenas para quem aperta o botão de emergência do elevador. Nesse andar oculto, atrás de um móvel na sala dos arquivos, ele encontra uma passagem secreta. É um túnel úmido e escuro, parece o duto do lixo. Mais sensato seria fechar a porta e voltar ao trabalho. Mas Craig entra, e descobre que é um portal para a mente do ator John Malkovich. Alí, ele pode ver o que Malkovich vê, sentir o que ele sente, e depois de 15 minutos vivendo como outra pessoa, é ejetado misteriosamente na beira da estrada.
Até onde se pode provar, só humanos, nenhum outro animal, são capazes de formular a noção de que outras pessoas também pensam, sentem e processam o mundo de maneira independente da sua — ou seja, que cada um tem uma mente diferente. Nem todos os humanos demonstram essa habilidade. Crianças pequenas podem presumir, por exemplo, que os pais sonham os mesmos sonhos que elas. Alguns homens adultos são incapazes de fazer uma pergunta sobre você, mas saem de uma conversa unilateral achando que a sintonia foi incrível. Mas, por mais que a maioria de nós saiba por intuição que todo mundo pensa, não é possível experimentar uma outra mente — as sensações e pensamentos alheios são inacessíveis. Por isso, 15 minutos sendo John Malkovich mudam tudo. Esse portal, diz Craig, “levanta todo tipo de questão filosófica (…) Eu sou eu? O Malkovich é o Malkovich? Eu não acho que posso continuar vivendo como antes”.
Essa é a função de um portal mágico: para onde ele leva, e como funciona, varia de história para história, mas é quase certo que, uma vez que se decida entrar, não será possível continuar vivendo como antes. Você pode voltar para o lugar de onde veio, mas já não é o mesmo lugar; e nem você, a mesma pessoa.
Pois eu acho que descobri que todas as portas, sem exceção, são mágicas. Só não o tempo todo. São temperamentais e imprevisíveis. Aquela porta encardida, com duas camadas de tinta descascando das dobradiças, essa que faz o favor de se abrir todos os dias para o seu apartamento, pode a qualquer hora mudar de ideia, e dar no apartamento de um desconhecido. Na vida real também há portas que só abrem para quem consegue dizer as palavras certas, para quem é capaz de resolver um enigma, para quem merece. Há portas que ficam abertas por um tempo, e um dia fecham pela última vez.
Estou aqui parada na soleira, espiando pelo buraco da fechadura, pensando se me arrisco. Que eu saiba, não existem histórias sobre alguém que se deparou com um portal, até pensou em entrar, mas desistiu e foi fazer um sanduíche. Com um protagonista desses, O épico de Gilgamesh seria bem menos épico; A história sem fim acabaria rapidinho. Coragem não tenho tanta, mas confesso que sou curiosa. Giro a maçaneta. Vamos ver onde isso aqui vai levar.
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.