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atraso · Dec 27, 2025

Ilusionismo para principiantes

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Domi · atraso

Estava voltando do cartório, um lugar cujo modelo de negócio é botar em dúvida nossa existência e fazer a gente pagar caro para prová-la. Saquei o celular na rua, porque imagine só passar dois minutos sem conferir se alguém me procurou. Mal desbloqueei a tela e, em câmera lenta, vi o aparelho saltar da minha mão e ir embora numa moto. Era o momento mais inoportuno para ser obrigada a gastar dinheiro, mas, ainda assim, por um segundo, senti alguma coisa parecida com alívio. Foi-se. Tudo, todas as mensagens, todas as fotos. Nunca configurei find my coisa nenhuma, nunca aceitei pagar o iCloud, e agora os últimos dois anos são irrecuperáveis. Como se não tivessem acontecido.

O resto do dia foi dedicado a reafirmar minha identidade em duzentas contas diferentes. A cada verificação em duas etapas, eu mesma ia ficando na dúvida se era realmente quem dizia ser. Errando senha atrás de senha, me ocorreu que, se meus aplicativos não me reconhecessem mais, teria aí uma brecha. Poderia aproveitar para fazer A amiga genial e evaporar. Fechar as cortinas, e tal qual Thom Yorke, repetir “eu não estou aqui”, até virar verdade. No Japão, desaparecer voluntariamente é comum o suficiente para ter um nome, jōhatsu, e agências especializadas em fazer o que chamam de “mudança noturna”. Pois é, sumir não é simples assim. Num mundo com cartões de crédito, biometria, redes sociais e postes Gabriel, só com assistência profissional. Você pode até estar perdida de si mesma, mas continua bastante encontrável para o resto do mundo.

— Desaparecer é impossível! — reclamei com a minha mãe por telefone, ao mesmo tempo em que embrulhava minha cabeça com plástico filme e comprometia o resto do meu bom senso aspirando pó descolorante.
— Pessoas desaparecem todos os dias, Dominique — ouvi, merecidamente.
— Não quis dizer nesse sentido! Só dar um tempo de existir, sei lá, ou ficar invisível.
— Então é só esperar. Mais uns anos e você fica velha, funciona que é uma beleza.
— Mãe, eu te ligo depois. Meu cérebro tá queimando.

Cadeira de De Kolta: o segredo do truque l’Escamotage D’une Dame.

Em 1886, o ilusionista francês Buatier De Kolta apresentou pela primeira vez seu truque mais famoso e, desde então, mais copiado: l’Escamotage D’une Dame, ou O desaparecimento de uma dama. O show de De Kolta era mais engenharia do que qualquer coisa: envolvia, na maioria das vezes, alçapões, arames e estruturas articuladas com dobradiças, que escondiam lenços, passarinhos, e, claro, damas. Ao contrário dos dois primeiros, porém, as damas precisavam cooperar, ativando as engenhocas com movimentos ágeis para que tudo parecesse mágica. Os truques de desaparecimento de De Kolta são bem documentados, e replicados pelos ilusionistas mais habilidosos até hoje, mas queria saber é das mulheres desaparecidas, que imagino engatinhando sob as tábuas, emboladas nos seus vestidos à moda da Belle Époque, enquanto ele recebia os aplausos. Parece que a esposa de De Kolta, que se chamava Alice e era musicista, participava de algumas de suas apresentações. Sabe-se que ele empregava pelo menos uma outra assistente de palco, com quem tinha um caso, e que, para a confusão dos biógrafos, também se chamava Alice. Sim, Alice e Alice: antes de caírem pelo alçapão, já estavam desaparecendo uma na outra. Existem mulheres ilusionistas, também, mas quase ninguém lembra o nome de alguma. Mais frequentemente, a mulher entra numa caixa, desaparece, é cortada ao meio, perde a cabeça, se transforma em coisa ou em bicho.

— Se você tiver que escolher entre essas opções — minha mãe disse quando liguei de volta, agora loira e tagarelando sobre um tal de De Kolta — se transformar em bicho é mais legal.

A triste verdade é que, fantasias de sumiço à parte, sou muito mais Lenu do que Lila. Tive até uma amiga genial, quando era pequena. Antes dos dez anos, a banda favorita dela era Pink Floyd, mas também amava Gilberto Gil. Tocava violão, e tocava de verdade — uns dedilhados complicados que eu tentava acompanhar com acordes bobinhos no piano. Ela cantava no coral e queria me ensinar, no meio da rua, a projetar a voz, apoiando “assim, ó, no diafragma”. Não funcionou, ainda canto bem baixinho, desperdiçando um monte de ar. Tentei ser mais como ela, mas isso só evidenciava o contraste, até porque ela nunca tentaria se parecer com ninguém. Num dia qualquer, usava meia arrastão com botas de cano alto e batom vermelho, e óculos de grau sempre remendados porque saiu no soco com alguém. Eu achava que ela não tinha medo de nada, talvez por isso ainda me lembre bem do dia em que fomos ver a mulher-gorila.

Era um parque de diversões itinerante, desses em que a música do carrossel é desafinada, os brinquedos estão lascados, as luzes piscam com a sobrecarga elétrica e a poeira sobe do chão de terra — uma atmosfera de sonho que está pra virar pesadelo. Que eu me lembre, fomos sozinhas, a pé da casa dela. De atração em atração, chegamos ao ato principal de todo parquinho de interior. Senhoras e senhores, venham ver a incrível mulher-gorila… De fora, ouvimos primeiro os gritos e depois veio a debandada: crianças e adolescentes correndo, empurrando, rindo, chorando, atravessando as cortinas do covil da Monga1, desesperados. Minha amiga achou aquilo uma bobagem, parou um menino desconhecido e perguntou o que tinha de tão assustador. Quando vi, os dois estavam catando moedas no bolso para firmar uma aposta: ela jurava que seria a última a sair, ele garantia que não. Não tive tempo nem de opinar, fui empurrada cortina adentro.

No escuro, ela não largou da minha mão. A mulher de biquíni apareceu, sob um foco de luz fraco. Concentre-se Monga, durma profundamente, elevando seu pensamento para o alto, para o além, para o infinito... Notem que, com o correr dos segundos, seu corpo começa a criar cabelos, sua boca vai se escancarando... Agora metade gorila, a Monga fingia sacudir as grades de isopor. Calma, Monga, calma! Foi quando minha amiga disparou antes de todo mundo, e me levou junto, tão sem querer quanto entrei.

A transformação da Monga é um jogo de espelhos, que projeta sobre uma mulher a imagem de um cara vestido de gorila. Quem sai da jaula, no fim, é ele, fazendo ela passar por descontrolada. Já cansei de testemunhar esse truque também fora dos parques de diversão. Aconteceu comigo, aconteceu até com aquela amiga, poucos anos depois do dia no parque: apareceu um cara batendo no peito e botou todo mundo pra correr dela.

— Gente, há quantos anos você não fala dessa menina…
— É que estava pensando em A amiga genial.
— Voltamos pro tópico do desaparecimento?
— Ainda estamos na transformação. A premissa da história é o sumiço da Lila, né? Mas quem consegue desaparecer de verdade é a Lenu, que vira outra pessoa, cria um disfarce pra fugir de quem era.
— Nem sabia que você gostava tanto desse livro.
— E tem a própria Elena Ferrante, também, que escolheu assinar a obra-prima dela com um nome falso...
— A ideia é mudar de nome? Escolhi o seu tão bem.
— Não sei se eu consigo bancar um pseudônimo.
— Bom, primeiro você precisaria ter a obra. Depois pode se preocupar em como vai assinar.

Harry Houdini é um dos nomes mais conhecidos na arte da escapologia. Abrir algemas, sair de caixas trancadas, escapulir de cordas e correntes, eram, antes dele, apenas manobras necessárias para atingir o efeito mágico que interessava: o desaparecimento ou a transformação. Houdini aperfeiçoou as técnicas e fez delas a performance em si. O interessante alí não era mais o mistério, nada de sobrenatural; só a fantástica habilidade que um homem tem de fugir rapidinho de qualquer situação difícil.

Vou tentar dizer isso da maneira evasiva que convém: como tantas pessoas, sou filha de um mestre escapologista. Por muitos anos a sua ausência foi um fato desinteressante pra mim, até que, recentemente, se tornou definitiva. De repente, fiquei curiosa sobre os seus truques, me perguntando se o talento para ser escorregadio é hereditário, ou algo que se aprende com uma convivência inexistente.

— Você não herdou esse traço, uma coisa de que não dá pra te acusar é falta de compromisso. Lembra daquela vez que você quase morreu na aula de natação porque o professor esqueceu de avisar que já podia parar?
— Eu não gosto de desistir, é verdade. Mas muitas vezes, por isso mesmo, eu não consigo nem começar. Vai ver é um defeito, não uma qualidade.
— O que isso tem a ver com o Houdini, mesmo?
— Se eu também tivesse a confiança de que poderia escapar quando quisesse, eu me enfiava logo num tanque cheio de tubarões.
— Me perdi na metáfora. Por que você se enfiaria num tanque cheio de tubarões?
— Sei lá, pelo entretenimento.
— Você não queria sumir? Agora quer aparecer?
— Tô confusa.
— Nem me fale. Olha, com todo o respeito, eu acho o Houdini meio sem graça. Invente seus próprios truques, minha filha. Troca de nome, costura umas fantasias bonitas, fica em cima do palco, debaixo do palco, você é quem sabe. Mas, pelo amor de deus, deixa eu ir fazer o almoço! Você já comeu?
— Não.
— Então começa daí, isso deve ser fome.

Alguns fatos acima são reais. Os diálogos com minha mãe são todos ficcionais, mas ela achou até que verossímeis.

  1. Por que será que, na mágica e no cinema, quem desaparece é sempre uma mulher? Esse livro arrisca umas teorias.

  2. Para saber mais sobre a “mudança noturna”, existe um documentário: Jōhatsu: os evaporados.

  3. Para saber mais sobre a Monga, também.

  4. Tudo que li sobre o De Kolta foi em sites obscuros que citavam essa biografia.

  5. Fui assistir à brilhante peça O Céu no Meio da Cara, escrita e estrelada pela Julia Portes, com base no livro de mesmo nome, com que ela foi finalista do Jabuti. Saí assim, com vontade de registrar as conversas entre as vozes da minha cabeça.

Muito obrigada a todos que se interessaram por essa newsletter em 2025! Bom descanso e nos vemos no ano que vem, eu espero. 🕒

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