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atraso · Jun 15, 2026

Desculpe o atraso #2: dia dos namorados

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Domi · atraso

Lovesong é um dos maiores hits do The Cure, contrariando a própria banda, que não achava a música lá essas coisas, nem queria lançar como single, e pretendia largar ela discretamente alí no meio de Disintegration só pra dar uma quebrada no baixo astral. Mas se Lovesong resistiu ao tempo, e rendeu até uma versão cover de churrascaria da Adele1, não foi à toa. O grande mérito da música é a completa falta de firula. A ausência de ironia. Ela é o que é, do título ao refrão: a declaração de amor mais direto ao ponto possível.

Lovesong foi o presente de casamento do Robert Smith para a esposa, Mary Poole. Eles tinham 14 anos quando ele pediu pra duplar com ela na aula de teatro da escola, e não se largaram mais. A Mary é discreta, mas ouvindo o Betinho falar sobre ela, dentro ou fora das músicas, me apaixonei por tabela. Se eu tiver que escolher um só exemplo, escolho esse daqui: uma foto dos dois juntos publicada em uma revista francesa, aos 26, lindos e igualmente desgrenhados — no verso, ele escreveu “Estava sussurrando com a Mary sobre a sua escolha peculiar de papagaio (?). Ela respondeu: ‘chegue mais perto e eu te devoro’. Eu jamais entendi essa garota…”.

Eu não consigo pensar em um sinal mais sincero de admiração do que admitir que 12 anos juntos não é tempo suficiente pra começar a entender a loucura de alguém.

Revista Depeche Rock (dezembro de 1985). Foto de Richard Bellia.

Foi um namorado de faculdade quem me apresentou The Cure. Eu me esforçava pra parecer o que imaginava que fosse uma universitária padrão — procedimento que envolvia muito secador de cabelo, corretivo e sapatilhas que pegavam atrás do calcanhar. Ele viu, através do disfarce, a adolescente meio trevosa que eu tentava deixar pra trás. Acabou em menos de um semestre, mas a música Disintegration travou no repeat. É engraçado lembrar da dor de cotovelo que durou mais do que o namoro; muita coisa dita e feita nessa fase, entre os 15 e os… 33… depois vira motivo de vergonha. Mas The Cure ficou comigo, e, até hoje, a bateria a galope de Disintegration me tira de qualquer fossa.

Não gosto muito de ver ao vivo bandas da geração dos meus pais. Além da preocupação insistente de que alguém vá infartar em público, não me abandona um certo pesar de ter chegado tarde. Em 2023, abri uma exceção pro Betinho e comprei ingresso pra ver o famoso show de quase 3h de duração, que nunca repete o mesmo setlist, lá em Interlagos. Ironicamente alguém desmaiou mesmo do meu lado: um senhor caiu duro, justo quando tocava Disintegration, e saiu carregado pelos amigos. Acho que não foi infarto, foi o patrocínio da Jameson. Fora isso, minha lembrança é de um dia perfeito. Estava apaixonada e boba. Cantei Just Like Heaven aos berros — eu e milhares de pessoas, que pensavam nas pessoas delas. Pai, mãe, filho gen Z e filha gen alpha vestiam camisetas combinando, e nenhum deles parecia obrigado a estar alí. Trad goths apareceram com as suas melhores maquiagens. A voz do Robert Smith envelheceu tão bem quanto o seu ódio do Morrissey, e no tímido “é bom estar de volta” deu pra ver que ele estava mesmo feliz.

Três anos e oito mil e tantos quilômetros mais tarde, estou de frente pra ele de novo. Na plateia, ninguém montado, nenhuma cabeleira desfiada, só europeus pressão baixa que podem ver o show que quiserem, quando quiserem. Já tive a experiência mais correta de The Cure, e não quero sobrescrever aquela memória. Começo a me encaminhar pro outro palco, quando ouço: “Não costumamos tocar essa. É uma lado B, se chama 2 late”.

Quase derrubo uns dois gringos. Desde 1989, essa música não foi tocada ao vivo nem uma dúzia de vezes. É o lado B de Lovesong, não entrou no LP, não tem no Spotify. Ao contrário do lado A, 2 late tem uma letra vaga, pra não dizer incompreensível — se Lovesong é o presente do Robert pra Mary, 2 late é o presente dele pros desencontrados, pros cronicamente atrasados, pra quem sente saudades de quem não conheceu ainda. Naquele dia, foi o presente dele pra mim.

A “danação da memória”, ou abolitio nominis (abolição do nome), era a prática dos romanos de tentar apagar da História os seus desafetos políticos. Quando morria um imperador malquerido — como o Calígula, por exemplo, assassinado numa conspiração — o sucessor frequentemente mandava raspar moedas, recolher estátuas, manchar retratos e documentos, e até transformar o nome do falecido em xingamento.

Papai queria que os irmãos Caracala e Geta governassem em dupla, mas não durou muito. Caracala mandou matar Geta, decretou abolitio nominis e fez de todos os amigos do irmão inimigos do império. Da coleção de arte clássica de Berlim, Altes Museum.

Quando Domiciano morreu — vítima de, adivinhe, uma conspiração —, suas posses foram leiloadas; seu palácio, renomeado de Casa do Povo; as moedas e estátuas de ouro e prata, fundidas para pagar as dívidas do império. Muito econômico, o novo imperador Nerva mandou remodelar o busto de Domiciano à sua própria semelhança.

Nessa campanha contra a memória cabia empregar um pouco de ficção. Já ouviu falar na Messalina? Esposa do imperador Cláudio, Messalina foi morta e desgraçada, supostamente por ser uma adúltera inveterada. Contam que ela trabalhava escondida num bordel, por esporte, sob o codinome “Loba”. Historiadores como Tácito, escrevendo quase um século depois do abolitio nominis de Messalina, disseram estar só transmitindo o que ouviram por aí — “fonte: não foi preciso”.

fonte: não foi preciso - YouTube
“Inteligência pura!”

O resultado é que alguns desses nomes “apagados” são bastante conhecidos. Calígula mesmo, ficou mais famoso graças ao provável exagero, ou fabricação, dos seus feitos malucos: declarar guerra contra o mar, nomear um cavalo pro consulado, etc. Recolher estátuas, também, foi um excelente jeito de preservá-las da ação do tempo. E transformar nomes em ofensas garantiu que ficassem imortalizados nos dicionários das línguas latinas (messalina: sin. meretriz, prostituta).

Ninguém tem realmente controle do que fica na memória. Stalin, um grande adepto do apagamento, dispunha de profissionais com habilidades impressionantes de falsificação fotográfica — tão impressionantes que todo mundo ficou sabendo. Os desaparecidos são inesquecíveis em sua ausência. O livro The Comissar Vanishes, do designer e historiador visual David King, documenta como as fotografias eram revisadas, e revisadas de novo, por vezes até que sobrasse apenas Stalin nelas.

Valentin Bondarenko, astronauta que morreu em treinamento em 1961, e foi excluído das fotografias para disfarçar os fracassos do programa espacial soviético. Depois que a história foi divulgada, seu nome foi dado a uma cratera na Lua.

Resgatei minhas anotações sobre damnatio memoriae por influência dessa observação de Odorico Leal:

  1. Em 1800 e qualquer coisa, um advogado casado e pai de três filhos entra no estúdio da retratista Sarah Goodridge, conhecida por pintar detalhadas telas em miniatura. Dessa ocasião surge um caso improvável, os dois continuam a se encontrar e corresponder por anos. As cartas de Goodridge para Webster foram destruídas, com certeza para não caírem nas mãos da esposa, mas um presente que ela mandou pra ele sobreviveu. Um autorretrato de 6,7 × 8 cm — aquarela em marfim, dentro de uma caixinha. Intitulada Beleza Revelada, a pintura hoje faz parte da coleção do Met.

Sarah Goodridge - Self Portrait - Breasts - 1830
Beauty Revealed, Sarah Goodridge (1828). Metropolitan Museum of Art.
  1. Sempre os vitorianos com suas manias esquisitas. Que tal presentear a pessoa amada com uma linda pulseira feita de cabelo humano? Arte em cabelo era a especialidade de alguns joalheiros, lá pelo século XIX, que faziam sob encomenda jóias memoriais com madeixas de parentes mortos, ou de cônjuges e pretendentes vivos. De intricadas estruturas tridimensionais até ornamentos florais e paisagens — tudo cabelo! Algumas pessoas, porém, preferiam aprender a técnica em casa, para não serem enganadas pelo joalheiro e saírem por aí adornadas com cabelo de um desconhecido. O exemplo aqui embaixo foi confeccionado no Rio de Janeiro, na Rua da Carioca.

    Do Antiquário Onze Dinheiros.
  2. Desde maio, as DMs do Instagram não são mais criptografadas. Eu sugiro a volta das cartas codificadas. O departamento de desenhos e gravuras do Met inclui uma vasta coleção de cartões de dia dos namorados escritas em rebus, um tipo de enigma em que “(…) certas palavras, sílabas ou sons são substituídos por imagens”. A versão do logo da IBM feita pelo Paul Rand é um exemplo: 👁️ 🐝 M (eye + bee + M). Os rebus feitos à mão impressionavam pela beleza e pelo esforço, e às vezes pelo senso de humor. Para os preguiçosos, também era possível comprar um pronto — ainda assim era melhor do que um react de foguinho.

    Obrigada por chegar ao fim de mais um longuíssimo atraso.

    Até já 🕒

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Mas, surpreendentemente, versão arrocha ainda não achei.

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