Mudança. Sempre a enrolação pra esvaziar o baú da cama, o receio de abrir aquelas caixas de sapato que fiz de cápsulas do tempo e confirmar que não estão roídas de traças. Reler pela milionésima vez páginas de diário, bilhetinhos, cartas de amor escritas por quem não lembro mais nem da cara. Dar às lembranças mais uma chance de irem para o lixo. Entre os poucos verdadeiros tesouros, além dos meus álbuns de fotografia, tenho um livrinho fino, encapado com papel contact pela minha mãe. O título é Bolhas no banheiro. A história é breve e se desfaz em nada, como pede o tema, nessa que segue sendo a melhor obra da autora.
A Dominique de 5 anos não escreveu, a bem da verdade, mas ditou e ilustrou o livro em um dia — sobre bolhas de sabão que, sem maiores explicações, cantavam —, e com direito a rivalidade velada entre primas, troca de ponto de vista e final feliz com bolo de aniversário. A de 32, por sua vez, está só as bolhas derretidas.
O ápice da tensão narrativa de Bolhas no banheiro é quando Fernanda, inimiga da diversão, ofende as bolhas cantoras de sua prima Ester, e — vide imagem acima — elas derretem. A menina, arrasada, faz um desejo de aniversário: quer as bolhas de volta a tempo da sua comemoração. Tem duas coisas nessa história que explicam muito do que aconteceu comigo desde 1998. A primeira é que as bolhas desaparecem não porque, enfim, é isso que bolhas fazem, mas porque descobriram que alguém não gostava delas. A segunda é que Ester tinha a água e o sabão na mão, eu mesma desenhei alí, negocinho de soprar e tudo, e não ocorreu a ela fazer bolhas novas.
Parece que bolhas de sabão são razoavelmente importantes para o campo da matemática. Depois de ler uns oito artigos sobre o assunto e assistir a uma hora de palestra no canal do National Museum of Mathematics, consigo dizer que não entendi nada. Mas me afeiçoei a alguns personagens.
A matemática Karen Uhlenbeck, por exemplo, foi a primeira mulher, e até agora única, a ganhar o prêmio Abel. Uma entrevista a descreve como um tornadinho: dispersa, despenteada, sua mesa sob pilhas de livros e papéis espalhados, suas roupas confortáveis e cheias de bolsos onde esquecer coisas. Percebo o quão suspeito é esse retrato — se uma mulher dedica a vida ao abstrato da matemática, logo negligencia as coisas femininas, como organização e vaidade —, mas me rendi ao estereótipo. Quis imaginar assim mesmo a teórica das bolhas de sabão. Em certo ponto da entrevista, Uhlenbeck diz que uma das suas referências, por falta de exemplos na matemática, era a cozinheira Julia Child. Por quê? Porque ela pegava o frango que caiu no chão e continuava cozinhando1. Então tá bem.
Dessa página, segui um link até o geômetra Fernando Codá Marques, brasileiro de Maceió, que é docente na universidade de Princeton e também ganhou prêmios por seu trabalho na minimização de superfícies. Quando o entrevistador faz a inevitável pergunta “mas para quê isso serve?”, Marques responde que as suas descobertas podem até ser valiosas para a engenharia civil, ou para a biologia, mas que “não é por isso que o matemático se dedica” a uma questão. É “pela beleza do problema”.
Mais de vinte abas abertas madrugada a dentro, da teoria das superfícies mínimas à quarta dimensão, fui parar no vídeo da tal palestra no museu, esperando que me explicassem como se eu tivesse 5 anos o que tudo isso tinha a ver com bolhas de sabão. O professor Frank Morgan fala para uma plateia muito participativa, que se acaba em palmas e vivas quando o vê soprar uma bolha dentro de outra com sucesso. O truque é bonito, mas instável: a bolha de dentro vacila, e, ao primeiro contato, é ejetada pela bolha maior. Fica alí pendurada num breve voo torto até que as duas estouram. A conjectura da bolha dupla é um problema de verdade, enfrentado por mentes brilhantes de várias gerações, e só em 2002 chegaram a um teorema que explica como duas bolhas grudadas se comportam. Já o problema que Marques resolveu estava em aberto desde 1965. Na matemática, diz o professor Morgan, a resposta para a maioria das perguntas é “ninguém sabe com certeza”. “Essa é a única coisa que você precisa para ser um matemático: não se importar de estar totalmente confuso e perdido. Você segue brincando e tentando”. Pega o frango do chão e continua cozinhando. Quem se interessa por estudar bolhas de sabão tem mesmo que achar alguma graça em ver uma tentativa falhar (ploc!), e tentar de novo, de novo, de novo.
Lygia Fagundes Telles escreveu o conto A estrutura da bolha de sabão2, que fui ler só agora e quase me fez deletar o rascunho desses parágrafos. Ela, ao contrário de mim, sabe como dizer sem tentar explicar, sabe soprar uma ideia que flutua, translúcida e furta-cor. Não se deve complicar a bolha de sabão, a simplicidade é o que orienta toda sua curta existência. O filme de sabão e água busca abraçar o ar o mais apertado possível, e quando encontra a forma mínima, uma esfera — fim. O encanto das bolhas é o que têm de tão simples, sempre no limite entre estar e não estar mais. E o dos números também, não? São tão precisos que por pouco já não são, à beira da ruptura por uma casa decimal. Ou talvez eu esteja me passando. Como quando eu era criança, vou deixar a matemática pra lá, e me distrair com as bolhas.
Quem já teve na mão um copo de água e detergente tem a memória de soprar a maior bolha de todas e não ter tempo de chamar ninguém pra testemunhar. Lembra de gastar todo o fôlego tentando se envolver em um furacão de bolhinhas. Da torcida para que aquela última, a que atravessou para o lado do vizinho e saiu de vista antes de estourar, contrarie a natureza e fique no ar para sempre. A criança dá vida às bolhas soprando um pouco da sua própria — é o que mais ou menos diz Peter Sloterdijk3 —, e então monitora o voo com total atenção, como se o poder da mente pudesse evitar o contato dos globinhos perfeitos com as quinas da realidade.
Há uns séculos atrás, e por muitos séculos antes disso, a infância não era algo a se lembrar com saudades, proteger das quinas nem preservar com papel contact. Era meio que um inconveniente. Ninguém queria ser molengo, pré-verbal e descoordenado num mundo cheio de perigos. A preocupação com a passagem do tempo tomava outra forma, era mais voltada para a inevitabilidade da morte. No tipo de arte que chamam de vanitas, bebês abraçam caveiras sob inscrições como: quis evadet (quem escapará?), memento mori (lembre-se de que você vai morrer) e homo bulla (o homem é uma bolha). Em várias dessas composições, também flutuam ao redor bolhas de sabão. A pintura que marca uma transição nas representações, quando as bolhas passam a simbolizar a infância, ou a nostalgia pela infância perdida, é de Jean Baptiste Chardin, Les Bulles de Savon. Um adolescente melancólico sopra sabão por um canudinho. Uma criança menor se estica para alcançar o parapeito da janela e observar também.
Nostalgia é inofensiva, exceto quando não é (estou certa de que não preciso elaborar). Mas acho que é sempre um pouco pesada. Quando vejo minha infância reencenada em loop no cinema, na tevê, na moda, num show geriátrico dos Backstreet Boys, não me alegra tanto quanto me doem as costas. Na hora sinto o peso das décadas, e olha que nem são tantas. Suficiente pra encher várias malas de rodinha, vários carretos de mudança. Guardar tudo é demais, tentar recriar o que passou é triste. A alternativa mais leve, acho, seria evocar. Cada lugar, pessoa e coisa perdida, uma pequena esfera transparente, “imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho”4, que eu possa admirar quando quiser, então ver se dissipar de novo.
Esse tempo todo eu pretendia escrever sobre leveza, mas minha linha de raciocínio tem uma pipa pendurada na ponta e foi-se embora. Leveza é a primeira das Seis propostas para o próximo milênio do Ítalo Calvino, e a primeira e talvez única resolução que pretendo levar para 2026, já que em 2025 o universo deixou claro que interpreta meus planos como uma afronta. Mas a definição de leveza do Calvino é curiosa: “A leveza para mim está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório”. Quer dizer, leveza não é qualquer coisa; é nem mais, nem menos. Daí, rascunho alguns levíssimos contrassensos pra lembrar nesse fim de ano5:
Responsabilidade pode ser leve, quando é precisa — mais ainda se leva em conta a força dos braços, a distância do trajeto, e a possibilidade de revezamento. Melancolia pesa não mais que um punhadinho de sal, depois que evapora numa risada. Da vergonha, tem que se fazer alguma coisa a respeito, antes que a casa inteira afunde. Um certo senso de liberdade pode chumbar alguém no mesmo lugar por muito tempo. Já um compromisso que respeita a direção do vento, veleja que é uma beleza. Tudo que aceita a própria brevidade flutua mais fácil, e pode acabar se aguentando mais do que o esperado. Ou, ao menos, é capaz de recomeçar. Tristeza não tem fim; felicidade é um copinho de água com detergente, na mão de uma criança teimosa, tentando de novo, de novo, de novo.
Obrigada por ler até aqui. Eu repeti a palavra bolha 29 vezes. Ela não significa mais nada pra mim. Até já! 🕒
Só para constar, essa história de que Julia Child derrubou um frango no chão é repetida por muitos fãs do seu programa de tv, mas nunca aconteceu. A própria Julia disse que a coisa mais próxima disso foi quando umas batatas caíram no fogão e ela colocou de volta na panela, dizendo: “ninguém vai saber se você estiver cozinhando sozinha”.
No conto, a narradora vive um romance precário com um físico que estuda a estrutura das bolhas.
Na introdução do primeiro livro da série Esferas.
De A estrutura da bolha de sabão, Lygia Fagundes Telles.
Dane-se, já estão me dando feliz Natal na rua.
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