Ruídos e distorções aparecem em diversas mídias, mas o dicionário não leva em consideração o que eles produzem na forma escrita, por isso neste episódio entrevistei diversos artistas na tentativa de tentar descobrir quais são os caminhos que eles fazem.
Com ajuda de Artemis Sophia de Oliveira, Biagio Pecorelli, Bernardo Pacheco, Caju Lopes, Cazzu, Ikaro Maxx, Lara Galvão, Mattos, Raissa Nashla, Rodrigo Qoehen, Vicente Conde, Zé Eduardo e Zé Ibarra, ampliamos os sentidos e significados destas palavras.
Nas palavras dos artistas, os ruídos podem talvez ser: a explosão, o delírio, a ranhura, a rachadura, o tropeço da letra, o bolo do hipersigno, o nada entre os dados, o que cria novas direções para que a coisa apareça, o que faz do escritor um maestro de sentidos.
A distorção, quem sabe, seja o fator cultural que faz com que a forma se alastre, se estique, se agigante, se modifique: o que conecta o texto com o mundo, o que muitas vezes aparece do imprevisível e por isso constrói o mundo.
Quando decidi o tema deste episódio, estava de frente para o mar, e levada pelo som e balanço dele, escrevi:
Se o ruído é um tropeço atropelo soluço na boca ele desmancha sentido sentindo o gosto do passo, o peso do preço, o jogo do erro. Tento não me repetir e falho. Falhando sempre quando o discurso vem. Aparecendo sobre os escombros e as sombras de tudo o que dizemos, escrevemos, entre o grito e o susto o ponto o sim o não. Desvio de atenção entre o querer e o quebrar da onda nos meus pés. E a vida vira pedra no meio da página. A paisagem se cria enquanto caminho – de linha em linha, virgula e virgula, ponto de respiro que engulo do instinto. A distorção seria isso, talvez: um acontecer sem pensar, sem precisar exatamente, um deixar que se crie enquanto devagarinho vai surgindo no passeio da folha.
Depois, de volta à cinzenta São Paulo, por dentro do metrô, como gosto de escrever, me surgiram os ruídos que somos forçados a acompanhar nas viagens subterrâneas:
O ruído das escritas em suspensão acontecem também no conto não publicado, interrompido, guardado. O ruído das notícias do metrô são o que distorcem a nossa percepção: Trump reformou o banheiro da casa branca, e essa chamada apareceu logo depois de uma propaganda do Spotify. Um bolo de aniversario “CRISE EXISTENCIAL” belamente desenhada como decoração, e logo depois a ordem: “Spotify, crie para mim uma playlist de aniversário para minha melhor amiga.” A crise existencial é a da própria plataforma em que nós também cambaleamos desavisados pelos ruídos imagéticos que somos forçados a engolir por aí. Depois dessas notícias, vêm as BETs patrocinadas pelo Governo Federal, e a Virginia já foi esquecida, e as pessoas desaparecidas aparecem na tela, num pedido de ajuda para que nós tentemos localizá-las.
Com tantos ruídos e distorções assim, fica mais gostoso tentar entender o mundo, por isso agradeço também ao patafísico argentino Lucio Arrillaga, que apesar de não ter me dado entrevista, me contou sobre a nova crise imagética da nova geração, que não consegue entender que as ondas sonoras são realmente fatores físicos, e não meramente representações imagéticas.
Assim, te convido a refletir e contar para gente o que são ruídos e distorções para você, e esse é o desafio da vez.
Até já.
ASSEMIAS
captação, edição, criação e idealização: Lia Petrelli.
trilha sonora: Filipe Ignatius.
apoio e distribuição: Function FM.
🎧 Disponível nas principais plataformas digitais.

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