Nasci em dia de poeta e celebro esse dia com rituais sagrados, lendo todos os meus diários e aprendendo com quem já fui, rio da minha cara, dou tapinha no ombro do que já era e sigo sendo.
Nasci em dia de poeta e acho isso engraçado.
Aquela música do titãs, uma das minhas preferidas, me carrega no colo todo dia “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”, pois que ando bem assim por aí, flanando, “meio desligada, eu nem sinto meus pés no chão”, escrevo assim porque sou poeta, e nem escolhi que fosse, as palavras só entraram em mim sem pedir licença e me atazanam os sentidos para que assim eu ouça melhor, veja melhor, cheire melhor, toque melhor, viva melhor.
Esse dia, 20 de outubro, foi o dia que que Getúlio Vargas escolheu pra homenagear Paulo Menotti Del Picchia. Nesse mesmo dia, em 1976, o Movimento Poético Nacional foi fundado, na casa de Menotti.
Apesar das inúmeras contradições escandalosas: Del Picchia era responsável pelo departamento de imprensa e propaganda de Vargas, foi o signatário da candidatura dele à Academia Brasileira de Letras, deputado federal eleito 3 vezes pelo PTB, nacionalista o escambau); também foi ele quem lançou Mário e Oswald de Andrade no Correio Paulistano, órgão oficial do poder paulista da velha república, onde era diretor, onde o poeta plantou as sementes ideológicas que moldaram e culminam na revolução estética de 22. Ali por dentro do jornal ele elevou a voz dos “contrários” e incentivou os “rebeldes” a irem pra cima com tudo. Era amigo de amigo de Washington Luís e Júlio Prestes, mas também andava com Villa Lobos, Brecheret. Depois voltou atrás (verde, amarelo e anta) e depois andou pra frente e voltou pra trás de novo (a casa dele, que foi sede do Movimento da Poesia, e por isso a data, é hoje um Banco do Brasil). Sabemos, sabemos, disso tudo, sabemos.
Por isso mesmo catei esse trechos do documentário sobre dele da TV Cultura, dizendo sobre a escrita, essa coisa louca que é ser multifaceta, de ter muitos braços, de se deixar acontecer no tempo, vê aí que coisa bonita ele diz. Assim como Juca Moreno, Kummunká, Flama e Argila, Salomé, e tanta coisa que já serviu de inspiração pra tanta gente por aí.
Não costumo trazer meu aniversário para as redes, mas sempre achei bonito que nasci em dia de poeta. Mesmo dia de Rimbaud, inclusive, que aí sim tá mais na laia das transgressões surreais cinematográficas fragmentadas místicas eróticas.
Hoje reivindico esse dia de poeta pra mim, que (me deixo hoje ser egocêntrica) tem muito que ver com esse caminho trançante que faço, antes até de saber que esse dia tinha homenagem.
Grito truco seis doze para Vargas que sem saber lançou uma homenagem pra mim que, citando Del Picchia, nasci amanhã (e pensando bem, ele até que talvez represente bem a poesia: humana demais para caber num lugar só; as IAs não nos pegam não, sai fora). Isso aqui também acaba por ser um lembrete, para que saibamos da história que molda nossa cultura, para que entedamos que a poesia caminha nos entre-meios e que a produção de linguagem é a única coisa que pode salvar nossa identidade brasileira. Saber e lembrar para mergulhar mais fundo.
tim-tim, Saturno.
seja bonzinho, te tenho tatuado no braço desde os 18 pô.

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