Este é um tema que deixa sempre muita gente desconfortável, a mim já me deixou mais, confesso, talvez há alguns anos, agora não, eu não comecei a falar sobre ler mulheres quando virou um tópico interessante, posso afirmar sem pudor que foi algo que sempre questionei, mesmo quando ainda não o compreendia na sua totalidade. Quando tinha quinze ou dezasseis anos recusei-me a ler Eurico, o Presbítero e, em consequência, não fiz o teste, tive dois nas notas do período, os meus pais ficaram doidos, enfim, o que me inquietava não era o facto de ler homens, mas o facto de lermos exclusivamente homens, a questão parecia nem sequer existir, ninguém o questionou comigo, o resto da turma achava normal, a professora talvez também achasse normal, nunca o irei saber porque já lá vão mais de vinte anos.
E cheguei a uma altura da vida em que simplesmente deixei de sentir interesse em ler homens, não o digo com triunfalismo ou superioridade, mas foi uma espécie de consequência fisiológica da forma como fui lendo o mundo ao longo dos anos. Foram também estas as reflexões que me levaram a criar o Book Gang no fim de 2018, uma curadoria literária de livros escritos por mulheres, na altura só encontrava livros de homens nos destaques das livrarias e perguntava-me porque é que não se publicavam, liam e divulgavam mais mulheres.
Quando era criança e surgia a pergunta sobre os sonhos de futuro, eu queria escrever, embora isso fosse um desejo utópico, não conhecia escritoras mulheres, pelo menos não escritoras que escrevessem para raparigas como eu, e as que havia, claro, tal como Zadie Smith disse, estavam mortas há 200 anos. É certo que já havia a Lídia Jorge, a Agustina Bessa-Luís, a Teolinda Gersão, a Maria Teresa Horta, a Maria Judite de Carvalho, e tantas outras, mas não escreviam de uma forma que as jovens de 14, 15, 16 anos notassem, não eram os seus livros que nos eram recomendados, não havia sequer representatividade na literatura em Portugal.
Zadie Smith (toda a coleção dela é publicada em Portugal pela Dom Quixote) disse no festival literário de Cambridge que em jovem só lia homens, isso também se aplica à grande maioria de nós, porque eram os livros que nos chegavam. Sem internet e sem autonomia na procura, o que nós líamos era exclusivamente condicionado pelas editoras, destaques das livrarias e crítica literária. O cânone literário, os livros fundamentais, os grandes génios da interioridade humana, da filosofia, do desejo, da condição existencial, da literatura eram esmagadoramente masculinos, cresci a acreditar que a universalidade tinha voz de homem: as mulheres escreviam nichos, os homens escreviam o humano. E talvez tenha sido precisamente aí que a fadiga começou.
Quando questionada pelo apresentador no festival, se se referia à tão polémica e discutida morte do grande romancista masculino (coitadinhos…), Zadie Smith disse que não, que na verdade tinha lido recentemente bons livros escritos por homens contemporâneos, romances fascinantes e ousados, e destacou Flesh de David Szalay (publicado agora em Portugal pela Relógio d’Água), mas que neste momento sente-se verdadeiramente impaciente com tudo o que não seja escrito por outras mulheres mais velhas, referiu estar agora obcecada com a escritora australiana Helen Garner porque quer sabedoria nas suas leituras.
Durante séculos, o mundo foi construído, narrado, arquivado e interpretado através de uma visão masculina da realidade, a literatura não escapou a isso: as mulheres foram musas, corpos, mães, histéricas, esposas entediadas, raparigas suicidas, metáforas da loucura, objetos de desejo ou de punição moral — se se interessarem por estes temas, o meu último romance Atos de Desobediência tem estas reflexões na sua base —, a experiência feminina foi constantemente passada pelo filtro interpretativo de um homem que a observou de fora. Também eu deixei de ter grande vontade em ler homens, não porque os homens não saibam escrever, esta seria uma afirmação preguiçosa e eu admiro muitos homens, mas porque desde há muitos anos comecei a sentir uma saturação do olhar masculino sobre o mundo, a repetição de obsessões, de arquétipos emocionais e de formas de poder que dominaram o imaginário coletivo durante tempo suficiente e sou apologista de que todas as mulheres têm de ler mulheres, é essa a base do meu negócio Book Gang e não o afirmo apenas por uma lente de marketing, antes fosse, mas os homens continuam a ler homens e os escritores homens continuam a sugerir e a destacar outros escritores homens.
A escritora Lauren Groff (em Portugal podem ler Matriz pela Relógio d’Água e Destinos e Fúrias pela Presença, mas já descontinuado) fez algo subversivo em 2018 quando, na sua entrevista ao NY Times (uma rubrica em que se fazem perguntas aos autores como: qual foi o último grande livro que leu?, ou que livro de outro autor gostaria de ter escrito?), citou apenas autoras, a entrevista gerou polémica porque citar apenas mulheres numa discussão sobre grandes livros é invulgar, quase ofensivo para o grande romancista masculino. O The Guardian destacou uma publicação onde um livreiro da Waterstones afirmou que nunca teve uma cliente a dizer que não lê livros escritos por homens, mas os clientes homens dizem constantemente que não lêem obras escritas por mulheres. E sempre que estes temas geram discussões, surge uma enxurrada de comentários em contrário, toda a gente conhece um pai, um irmão, um marido, um amigo que lê mulheres, que adora Virginia Woolf ou Toni Morrison ou Margaret Atwood, isto acontece porque estes temas continuam a ser desconfortáveis, também existe algo inevitavelmente político nisto tudo. Durante séculos, as mulheres leram homens porque tinham de o fazer para participar na cultura, enquanto muitos homens puderam atravessar a vida inteira sem ouvir um único ponto de vista feminino.
Escolher ler mulheres hoje não me parece um gesto de exclusão, mas de reequilíbrio perceptivo; quando leio mulheres, sobretudo mulheres que escrevem a partir da interioridade e que não têm medo de ir contra os preceitos morais, não sinto propriamente uma identificação, não é isso que procuro, o que eu sinto é expansão. Sempre que alguém me diz que não gostou do livro X ou Y, ou até de algum meu, porque não se identificou, lembro-me sempre das palavras de Fran Lebowitz: o livro não deve ser um espelho, deve ser uma porta. Mas durante muitos anos fomos condicionadas a acreditar que nos deveríamos identificar com as personagens femininas que os homens criaram.
E há ainda uma razão menos teórica e mais visceral, sinto-me menos sozinha quando leio mulheres, é precisamente essa a base do Book Gang, eu gosto de ler experiências, medos, formas de vergonha, violência psicológica, dissociação corporal, ambivalência perante o desejo, culpa, raiva, trauma… Não porque os homens sejam incapazes de imaginar mulheres, mas porque existe uma diferença entre imaginar uma ferida e crescer dentro dela.
Claro que também vou lendo homens, escritores que conheço e por cujo trabalho me interesso, outros internacionais que tenho vontade, mas é esporádico, talvez daqui a alguns anos volte a ler com maior frequência, talvez não. Mas neste momento que vivo, a verdade é que procuro literatura que me desloque para fora de um imaginário que já moldou praticamente tudo à nossa volta através da linguagem dos homens, agora interessa-me descobrir o que acontece quando as mulheres escrevem sem tradução.

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