Estou sempre a pensar na morte. Creio que este seja um sentimento indiviso à nossa condição humana à medida que os anos passam e nos tornamos mais conscientes, não só da nossa finitude, mas a das pessoas ao nosso redor, e quantas mais perdas vivemos, porque dizer que as sofremos é acrescentar-lhe um fardo maior àquele que já tem, mais difícil se torna cambalearmos para um tempo em que a dor era um conceito abstrato e em que, à noite nas nossas camas, as nossas mentes vagueavam por territórios infinitos e sem finalidade — se as baleias se sentiam minúsculas no fundo do mar, se as árvores sentiam dor quando lhes arrancamos os ramos, se as pessoas podiam mesmo morrer esmagadas por pianos, pensar era apenas uma outra forma de brincar, a nossa mente ainda não tinha sido colonizada pela realidade. A primeira dor que sofremos talvez seja mesmo esta, a perda desta deriva mental, a nossa cama torna-se num lugar de contabilidade emocional, pensamos em dinheiro, em doenças, em culpa, em remorsos, em saudades, em emails por responder, eu penso na morte.
Há uma frase em Suffering is Never for Nothing de Elisabeth Elliot, diz algo como: há mais coisas no sofrimento do que entender o seu propósito e os seus benefícios teológicos; o sofrimento é um mistério do qual todos indagamos a razão, nunca sabemos o que o outro está a passar, nem o outro sabe o que se passa dentro de nós, a dor é única e imensurável, claro que é também inqualificável e incomparável, etc., mas também necessária, se queremos evitar o sofrimento não podemos amar nada nem ninguém, sofrer e viver são movimentos inseparáveis, encontrar um caminho através da dor é uma jornada de fé, mesmo que nos questionemos se essa mesma dor é válida ou merecedora, o que fiz para merecer isto?, e todo este tipo de questionamentos ao céu.
O primeiro marido de Elisabeth Elliot era um missionário que foi assassinado por indígenas da tribo Huaorani no Equador que pensaram que ele era um canibal, ela soube da morte dele uns dias depois, também a fazer trabalho de missionária com a sua filha bebé nascida poucos meses antes, Elisabeth passou depois dois anos como missionária junto dessa mesma tribo onde criou um sistema de escrita para a língua waodäni, lutou para a educação dessa comunidade e ajudou na tradução do Novo Testamento; o segundo marido morreu de cancro quatro anos após casarem, deixando-a novamente viúva. Em vez de oferecer teorias abstratas sobre a dor e a perda, Elisabeth tornou-se uma defensora ativa das famílias e das mulheres e refletiu nos seus livros e palestras sobre a fé e a entrega com que devemos receber o sofrimento, aceitando que pode ser transformado em algo proveitoso, mas o quê?, como encontrar Deus na dor?, ela casou uma terceira vez, um casamento que durou mais de trinta anos até à sua morte, continuar a andar em frente?, talvez seja esse o caminho.
Elisabeth Elliot com a filha e mulheres da tribo Huaorani que matou o seu marido.
Eu tinha vinte e um anos quando estava a estagiar na pediatria oncológica do IPO de Lisboa. Embora tenha tido uma educação católica, esta terá sido a minha primeira experiência física com a fé, no último piso do edifício havia uma capela onde me sentei muitas manhãs, onde estava Deus naquelas crianças a morrer com cancros incuráveis?, naqueles pais a implorar por uma cura?, mas Deus estava ali, eu tive de acreditar que sim, mas onde estava Deus quando a minha amiga Jaqueline viu a mãe morrer nos seus braços?, onde estava Deus quando a minha prima deu à luz dois filhos com deficiência profunda e uma esperança de vida de meia dúzia de anos?, onde estava Deus quando a minha avó teve de enviar os filhos para orfanatos da igreja para não morrerem todos de fome?, onde estava Deus quando, agarrada à minha gata no chão da casa-de-banho, a vi convulsionar até à morte?, e Ele está aí, eu sei que sim, e Elisabeth Elliot disse: seja lá o que estiver no cálice que Deus está a oferecer-me — dor, tristeza, sofrimento ou lamento, como também as superabundantes alegrias —, estou disposta a tomar, pois eu confio nele, sim, sim, eu também quero confiar, mas…
Há um chamamento do vazio que me sufoca, um profundo medo da dor, de nunca poder estar demasiado feliz, as celebrações tornaram-se armadilhas mitológicas, como se não conseguisse celebrar nada verdadeiramente, não conseguisse viver os momentos felizes por inteiro, apenas observo a sua aproximação do fim, uma vida inteira num transe de superstições frágeis; não sei precisar a partir de quando passei a detestar passagens de ano, não consigo brindar, não consigo fazer promessas para o futuro porque estou asfixiada por esse mesmo porvir, coexisto com a aflição de receber um telefonema a meio da noite a dizer que um dos meus pais morreu, o medo de adoecer, medo de perder o meu corpo, a sanidade, a memória, a autonomia, penso demasiado na minha morte, no fim, no nada. Comecei a ir a uma psicóloga a meio dos vinte anos porque precisava de compreender este medo de viver, não, precisava de ouvir da boca de alguém credenciado que tudo o que eu sentia era normal, não, queria uma solução rápida para voltar a sentir-me como antigamente, mas antigamente quando?, aqui estava a pergunta sem sentido, quando eu conseguia simplesmente viver minuto após minuto, após hora, após dia, após semana, após ano, sem pressa de chegar a lado nenhum.
Uma, duas ou três psicólogas depois, alguma delas, disse-me o que precisava desesperadamente de ouvir, que tudo isto era inteiramente normal, apenas a mente de uma pessoa com ansiedade crónica, diagnosticou-me assim, ansiosa crónica, digo-o em voz alta poucas vezes porque não gosto da forma como me sabe na língua, o diagnóstico porém trouxe-me algum alívio, é normal, degusto, é normal, expresso em voz alta, é normal… estou sempre a perguntar às outras pessoas se sentem o mesmo, algumas dizem-me que sim, outras que não, que não pensam nessas coisas, para quê ruminar no que ainda não chegou?, verdade, para quê? Ultimamente tenho pensado que talvez a ansiedade crónica se traduza apenas por vida adulta, é o que todos somos, adultos crónicos?, já não encontro nas psicólogas, etc., respostas para o sofrimento, mais uma vez regresso aos pensamentos de Elisabeth Elliot que disse que a aceitação é a chave para a paz neste assunto, ela escreveu: não estamos à deriva numa espécie de caos, sempre que as coisas desmoronam na minha vida volto para o que me dá mais força, mais estabilidade e mais paz — a fé, eu não estou à mercê do acaso. [em Suffering is Never for Nothing]
Mas fé é uma versão daquilo que somos incapazes de exteriorizar por palavras concretas, ter fé não me impede de perceber que tudo o que amamos se encontra em permanente risco de desaparecer, eu sei, eu sei, é a ansiedade crónica, já perdi o contacto com aquela e todas as outras psicólogas, e ela detestava as minhas reflexões teológicas, mas gostava de lhe perguntar se a minha avó morrer no dia do meu trigésimo nono aniversário, quando eu deixei de os celebrar pela angústia desses mesmos acasos trágicos, será uma confirmação da minha loucura ou se eu mesma a atraí.
Sonho muito com a minha gata, tenho saudades dela, parece que a vejo pela casa, pequenos vislumbres pelo canto do olho em que tenho a certeza de que ela ali está, vivo diariamente em inquietação de acontecer alguma coisa aos meus outros dois; ontem à noite sonhei com o meu avô que morreu quando eu tinha vinte e dois anos, foi uma lembrança inesperada porque não sei dizer há quantos anos isso não acontecia, e ele estava a sorrir na cozinha velha da casa dele, apenas isso, eu estava à porta da cozinha, que era a porta da rua, e ele virou-se e sorriu, interpretei-o como uma mensagem de apaziguação.
Quando estou em crise mantenho-me ativa, não me permito ter tempo para me sentar, para ficar à mercê do acaso, faço uma coisa, e depois faço a próxima coisa, e depois penso que só tenho de aguentar até à hora de jantar, e depois posso dormir doze horas seguidas; a ansiedade é narcisista, uma amiga disse-me certa vez que, se tivesse filhos, deixaria de ter ansiedade porque não teria mais tempo para estar tão focada em mim mesma, invejei-a por isso, por viver com tantas convicções na sua redoma também ela narcisista, hoje consegui aguentar até à noite, não tenho a certeza quanto a amanhã, nem quanto à próxima semana, nem ao próximo ano, e não me atrevo sequer a pensar mais longe, é o chamamento do vazio, apanha-me sempre, não deixem que vos apanhe a vocês.
Podem conhecer a Fundação Elisabeth Elliot, os seus livros, assistir às suas palestras e muito mais aqui.

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