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A Sala Vazia com Helena Magalhães · Jul 8, 2026

A minha teoria das baratas

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Helena Magalhães · A Sala Vazia com Helena Magalhães

Saímos há pouco para dar uma volta, já passava das onze da noite, tem sido a única altura em que este calor sufocante nos dá algum alívio, não é?, bom, atravessou-se uma barata à minha frente no passeio, só tive tempo de saltar (e de gritar, mas essa parte não vale a pena referir). Quando uma barata aparece toda a gente recua instintivamente, é uma autoridade irrefutável, a da barata, se pensarmos nisso, ninguém pensa de onde a barata veio ou como apareceu, limitamo-nos a querer que desapareça, eu sobretudo desejo que ninguém a pise porque o crack dela a quebrar assombra-me, começo logo a coçar-me. Agora não paro de pensar em baratas porque Lisboa está infestada delas, estava numa livraria um dia destes, um grupo de mulheres à conversa e todas gritaram quando uma barata passou a correr pelos nossos pés, achei engraçado a unanimidade daquele gesto, subimos às cadeiras, pegámos nas nossas coisas, veio o rapaz da livraria e colocou-lhe o pé em cima, isso foi o pior para mim, confesso, enfim, fomo-nos todas embora muito rápido, a barata, apesar de morta, manteve a sua autoridade.

A barata é o símbolo do contágio social, ela aparece e todos fugimos, a internet ensinou-nos a fazer o mesmo, além de correr muito rápido porque acredito genuinamente que é um ser mutante e que agora até voa, a barata não muda quando acendemos a luz, somos nós que mudamos a forma como a olhamos, transformamos a situação num espetáculo, as baratas nunca desaparecem, apenas ficam de fora da fotografia. Talvez ninguém fuja verdadeiramente da barata, talvez todos fujamos da ideia de que ela nos toque, o objetivo é eliminá-la da vista o mais depressa possível, abrimos as redes sociais e fazemos o mesmo, chamamos-lhe responsabilização, justiça ou opinião pessoal, mas muitas vezes é apenas a satisfação de ver alguém tornar-se a barata na sala.

Nunca conheci um lugar com tantas amizades perfeitas como a internet, estas relações fazem-me sempre pensar na barata escondida atrás do frigorífico, todos sabem que ela existe, comentam a sua existência quando estão sozinhos na cozinha, mas quando chegam as visitas, apagam a luz e fecham a porta. Passamos o dia inteiro a esmagar baratas na cozinha dos outros, mas no nosso perfil de Instagram estamos sentados à mesa com eles a sorrir, chamam-lhe profissionalismo, eu chamo-lhe medo de estragar a própria montra. Quando falamos uns dos outros como falamos das baratas, com desprezo, a esmagá-los com o pé nas conversas, mas depois comentamos corações nas redes sociais, a barata nunca esteve no chão, é a nossa consciência, basta a luz apagar-se e voltamos a rastejar.

O meu romantismo ou a minha imaturidade dizia-me que a hipocrisia era uma excepção, hoje tenho a impressão de que se tornou uma competência social, as redes sociais são agora o palco da nossa existência, lá não mostramos as baratas que correm pelos rodapés dos nossos bastidores, a inveja, a competição, o ressentimento, a necessidade constante de comparação — e é saudável ter todas estas emoções, quando bem canalizadas, fazem parte da nossa experiência humana —, no palco é onde vivem os sorrisos, os corações nas fotos, os parabéns estou tão feliz por ti, os adorei o teu livro que nunca li — e é isto que não é natural, não consigo ver isto como normal. O mais perturbador é que deixamos de nos ver hipócritas, acreditamos que é mesmo assim que as coisas são, que todos jogamos com as mesmas peças de tabuleiro, criámos este olhar coletivo e digital que nos desumanizou.

Não me julguem, não digo que a barata seja uma metáfora sobre pessoas más ou boas, é sobre a distância crescente entre aquilo que mostramos e aquilo que realmente somos, essa distância, mais do que a própria falsidade, é o que acaba por esmagar as relações, é o grande pé que colocam sobre nós e crack.

Isto nem sequer é sobre baratas, ando realmente a pensar demasiado nelas.

Read the original on asalavazia.substack.com

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