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A Sala Vazia com Helena Magalhães · Jun 22, 2026

A chamada recessão da amizade é geral?, ou fui apenas eu que me isolei?

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Helena Magalhães · A Sala Vazia com Helena Magalhães

Uma das coisas que mais tem sido difícil acompanhar são as mudanças na minha própria personalidade (identidade?), como se o ser que habitou o meu corpo aos vinte anos fosse um que se transmutou para outro aos trinta e por aí em diante, dou por mim presa entre a bipolaridade de uma existência que está sempre em polos contrários, tem dias que sinto que sou uma pessoa terrível porque perdi a capacidade que o ser que me habitou aos vinte anos tinha de conseguir chegar a todo o lado e atender a todas as necessidades de todas as pessoas à minha volta, mesmo que isso colocasse quase sempre em pausa as minhas próprias vontades, e perdoá-las e a mim também por isso, julgo que me tornei um pouco narcisista, hoje penso em primeiro lugar em mim.

(circa, eu num concerto a ter uma crise de pânico porque a minha amiga resolveu ir atrás de um tipo lá para a frente, eu sem conseguir mexer-me mais, ela a dizer para eu parar de lhe estragar a noite, eu sentada no chão a tentar não morrer; circa, eu numa festa numa discoteca lotada a ter um pico de calor / baixa de tensão, outra amiga a dizer para eu ir apanhar ar porque estava com um tipo qualquer, eu deitada duas horas dentro do carro dela à espera que ela saísse; circa, eu com bilhetes para o concerto do Elton John, a minha amiga (a mesma que a primeira) a dizer que estava a aborrecida e que se ia embora porque queria ir para uma festa não sei onde ter com não sei quem, ou saía com ela ou arranjava boleia para casa, eu a sair a meio de um concerto que tanto queria ver. Portanto, sim, cresci rodeada de amigas que não não eram assim tão boas amigas, e sim, que colocavam sempre os homens à frente de tudo, acho que o facto de hoje ser muito mais narcisista do que era aos 20 anos é um bom upgrade pessoal.)

Este fim-de-semana perguntaram-se se as amigas sobre quem escrevi no Ferozes ainda faziam parte da minha vida, tive de parar uns segundos para pensar sobre quem tinha escrito de facto (esse livro foi escrito há muitos anos, em 2016, naquele meu primeiro livro horroroso, embora a versão do Ferozes só tenha sido publicada em 2021), porque não, talvez só duas ainda façam parte do meu círculo íntimo, e este tipo de rupturas dói tanto ou mais que o fim de uma relação amorosa. Os anos passam e de repente percebemos que algumas amizades que antes pareciam eternas já não fazem parte do nosso dia-a-dia, não houve uma discussão, nem um final dramático ou um momento que tenha marcado a despedida, a amizade simplesmente esmoreceu, há apenas o desgaste silencioso do tempo, uma mudança de cidade, um filho, um emprego exigente, um divórcio, um novo amor, uma doença, um cansaço que não existia aos vinte anos e, sobretudo, a compreensão de que a energia emocional é um recurso finito. Não nos deixamos de importar umas com as outras, mas passamos para diferentes fases da vida onde essas pessoas não encaixam mais, mesmo que durante anos tenha parecido impossível imaginar um futuro em que aquela pessoa não estivesse presente, só que esse futuro chegou, é hoje, e não sabemos nada dela, percebemos finalmente que a vida é uma máquina de dispersão.

Quando sofria mental ou emocionalmente costumava pensar que a solução era sempre as minhas amigas, a dor perdia um pouco do seu peso quando compartilhada, era a arte de estar sem fazer nada com alguém porque bastava a companhia daquela pessoa. Não sei em que momento é que deixei de o querer fazer, hoje só quero estar sozinha, quero escrever e ir realmente ao cerne da questão, quando me sinto triste não quero falar com ninguém, não quero companhia, quero caminhar sozinha pelo matagal. Esta chamada recessão da amizade é geral?, ou fui apenas eu que me isolei?, por vezes sinto que quando encontrei a minha escrita perdi a maioria das pessoas à minha volta porque deixei de ter paciência para tudo o resto.

A minha amiga J. diz-me constantemente que só quando a mãe dela morreu é que viu quem eram realmente os amigos dela, os que estiveram lá durante a descida ao inferno, os que aceitaram que a pessoa que ela era já não existia mais e que deu lugar a esta nova versão dela. Eu nunca lhe disse (ela provavelmente vai ler isto), mas gosto muito desta nova J., a nossa amizade solidificou-se bastante mais nos últimos anos quando ambas deixámos de ter disponibilidade para alimentar todas as relações que um dia julgámos indispensáveis, ela enquanto vivia o luto e eu enquanto encontrava a minha escrita e um melhor entendimento de mim mesma. A J. veio agora do Hawai, falámos todos os dias enquanto ela lá esteve, comigo a dizer em relação a tudo: Deus me livre, eu não sou a amiga que vai com ela para uma viagem ao outro lado do mundo porque sou paranóica, claustrofóbica e ansiosa, mas sou a amiga que se enfiou com ela num hotel após a morte da mãe onde passámos vários dias na piscina simplesmente em silêncio.

Sim, a uma dada altura da vida, as amizades deixam de ser o centro da nossa existência porque o resto da nossa vida se torna mais pesada: há contas para pagar, há negócios para gerir, há pais a envelhecer e a morrer, há filhos para criar, há carreiras para sustentar, corpos que começam a falhar e algumas relações, sem que ninguém o decida, começam a definhar. E há uma certa dor porque não existe um ritual para este tipo de perda, a pessoa continua viva, continua algures no mundo, talvez até acompanhemos fragmentos da sua vida através das redes sociais, mas a intimidade desapareceu, aquela pessoa que antes era a primeira a quem telefonávamos tornou-se alguém a quem enviamos uma mensagem de feliz aniversário uma vez por ano.

Por vezes pergunto-me se as amizades femininas que encontramos nos livros e nos filmes (e sobre as quais eu tenho tão intensamente escrito, mea culpa) não nos criaram expectativas impossíveis (e hoje culpo também as redes sociais, as vidas que acompanhamos muitas vezes fabricadas para fotografias, mas que nos parecem idílicas). São frequentemente retratadas como laços indestrutíveis, quase sagrados, mulheres que atravessam décadas inseparáveis, que permanecem presentes em todas as fases da vida umas das outras, mas talvez isso aconteça porque a literatura e o cinema trabalham com recortes, mostram-nos um período específico, um momento de intensidade, uma amizade aos vinte anos, um verão inesquecível, um grupo de amigas durante alguns anos decisivos, raramente acompanham os cinquenta anos seguintes, raramente mostram a erosão lenta provocada pela rotina, pelas diferenças que surgem, pelas vidas que se desencontram, vejamos, até a Lila e a Lenu se afastaram.

(circa, a trabalhar no Alive talvez em 2015, com uma amiga que durante alguns anos foi tudo para mim, fazíamos tudo juntas, lazer e trabalho, ela acompanhou-me e incentivou-me a escrever aquele primeiro livro, a encontrar-me, depois conheceu um homem, engravidou, desapareceu, e a vida é mesmo assim, muitas mulheres largam tudo por homens, ou talvez a pessoa que ela era comigo simplesmente deixou de existir, a pessoa que eu era com ela também não existe mais. No ano passado vi-a numa exposição, vi que ela me viu e que se afastou para o outro lado, as pernas tremeram-me e não tive energia mental para a abordar, percebi que ainda estava a fazer o meu luto.)

Quando penso em alguém que significou tanto para mim e com quem hoje quase não tenho uma relação, tenho-me obrigado a refletir que foi uma amizade que cumpriu integralmente a sua função durante os anos em que fez parte da minha vida, uma amizade não é só bem-sucedida se durar para sempre, a nossa vida é feita de ciclos e há pessoas que vão entrar e sair desses ciclos porque têm coisas para nos dar em determinados momentos da nossa vida, acompanham-nos numa determinada versão de nós mesmos e depois seguem outro caminho, este é o balanço natural da experiência humana. Ainda assim, é uma tristeza difícil de evitar porque ninguém substitui completamente uma amiga antiga, ninguém conhece a geografia da nossa juventude da mesma maneira, ninguém se lembra das pessoas que fomos antes de nos tornarmos os adultos que somos agora com todas as nossas perdas e desilusões e cansaço e traumas e dores e responsabilidades.

E claro, há lutos que não deixam cadáveres, mas deixam vazios na mesma. Eu gosto sempre de encontrar a luz nessas perdas, a vida encarrega-se de trazer outras pessoas para ocupar esses espaços e novas amizades dão novos significados ao que fomos perdendo, são as que estão agora a ajudar-nos a transformarmo-nos nas pessoas que vamos ser amanhã.

Read the original on asalavazia.substack.com

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