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filmesdearthur · Apr 29, 2025

Vingança, Capitalismo e Sobrevivência | Ms. 45 (1981) e Cloud (2024)

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Arthur Chaves · filmesdearthur

Quem é vivo sempre aparece, e aqui estou eu. Faz alguns meses desde o último texto publicado, mas estou tentando me convencer a escrever com mais frequência, muito para voltar a ter o hábito da escrita e, para isso, preciso do mínimo de regularidade, portanto, de prática. Enfim, durante todo esse tempo, pelo menos, não deixei de ver filmes. De lá para cá, aconteceram alguns eventos e lançamentos, mas já passaram, e não irei voltar a assuntos mortos.

Março foi um mês longo, interminável. Tanto que assisti a uma abundante quantidade de filmes. Entre essas obras, estava Ms. 45 (1981), longa dirigido por Abel Ferrara, cineasta conhecido por suas produções independentes americanas. A violência é um elemento recorrente em seu cinema, ainda mais se considerarmos o contexto da Nova Hollywood, movimento no qual cineastas passaram a retratar, de forma mais crua e deslavada, uma faceta obscura da sociedade americana, principalmente nos grandes centros urbanos.

Aqui, vemos Thana (Zoë Tamerlis), uma costureira muito tímida e muda, que é violentada sexualmente duas vezes no mesmo dia, em situações distintas. Na segunda ocasião, o abuso acontece em sua própria casa. Ela mata o agressor e esconde o corpo no apartamento. Em uma mistura mórbida de Taxi Driver e Carrie, o filme mergulha na transformação da personagem em uma caçadora que passa a repudiar todos os homens — ninguém está a salvo; todos podem ser vítimas dessa mulher armada com um calibre .45.

A princípio, soa estranho vermos um filme dirigido por um homem retratar uma mulher vítima de abuso sexual. Em geral, há muito espaço para que tudo dê errado — como, aliás, tantas vezes já aconteceu. No entanto, Ferrara é sádico e perspicaz: ele mesmo interpreta o primeiro abusador (isso mesmo), como se quisesse deixar claro que não se isenta de sua posição como homem. Afinal, todos os homens retratados em seus filmes são, de alguma forma, podres.

De certa forma, tudo isso conversa um pouco com a experiência que tive assistindo Cloud, de Kiyoshi Kurosawa. O diretor também já é conhecido por trabalhar com tramas mais violentas ou que, de certa forma, exploram um lado da psique humana em situações absurdas. Cloud, no entanto, é um pouco mais contido, mas nesta história Kurosawa encaminha toda a narrativa para uma espiral de violência e terror de forma muito natural.

O filme conta a história de um homem que trabalha com a revenda de produtos: ele compra em abundância e revende mais caro, usando uma estratégia de vendas rápidas para não ser pego. Em determinado momento, um grupo de pessoas lesadas pelo protagonista se junta para capturá-lo e torturá-lo — e é aí que o filme se transforma.

A vida do protagonista se baseia nisso: propagar seus golpes. Ele enriquece, muda-se de cidade, compra uma casa nova, emprega um jovem para auxiliá-lo e melhora a vida de sua parceira. Tudo tão normal quanto a luz do dia. Afinal, isto já não se tornou o novo normal? Na internet, já não vemos autodenominados influenciadores digitais divulgando "tigrinho", casas de apostas e tantos outros "investimentos"? Às custas da desgraça alheia e do rompimento do tecido social, eles lucram e financiam suas vidas de luxo. Mas, em Cloud, o surgimento da violência também vem de forma natural, como uma clara resposta a tudo isso. Na parte final do filme, o que se vê é um verdadeiro jogo mortal: uma caçada impiedosa e a banalização do cruel.

Por mais que o filme mostre as consequências das ações do protagonista, no final, é ele quem sobrevive, dando a entender que, para continuar vivendo, ele seguirá fazendo o que sempre fez. Afinal, o capitalismo é sobre isso: não há ascensão sem queda, e, no caso, a queda é da moralidade humana.

É interessante observar como esses dois filmes terminam. Como abordei, ambos retratam a violência como resposta, mas o fazem de maneira tão diferente. O contexto que leva a cada situação é distinto, mas, de certa forma, demonstra um tratamento diferenciado de cada diretor em relação aos seus personagens. Em Ms. 45, Thana morre esfaqueada justamente por uma mulher, sendo abatida como um animal enlouquecido: ela já estava encurralada, sem perspectiva de escape. Enquanto em Cloud, os personagens saem impunes, prontos para continuar na sua espiral de destruição. Caso Thana fosse uma das vítimas deles, não deixaria isso impune? E, ainda assim, será que teria um destino diferente do que teve?

Read the original on arthurrc.substack.com

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