Ainda falando do ano passado, em termos de quantidade, foi o ano em que mais assisti a filmes desde que comecei a contabilizar em 2021. Foram 167 filmes únicos, além de algumas revisitas. Entre essas centenas de filmes, vou destacar aqui meus 10 favoritos.
Uma das mais lindas histórias que assisti no ano. O amor entre as irmãs Eurídice e Guida é captado neste melodrama tropical. Aïnouz é um diretor que abre espaço para que suas atrizes tenham um holofote e discute vivências e violências que essas personagens sofrem em uma sociedade patriarcal que oprime suas relações. Um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos, com certeza.
Aqui surge até mesmo um questionamento: seria “Stop Making Sense” de fato um filme ou apenas um show gravado? Mas Jonathan Demme constrói, por meio do movimento da câmera, este show histórico, transformando-o em algo monumental do audiovisual. Os vocais e a dança corporal de David Byrne e de toda a banda Talking Heads são hipnotizantes e transformam essas duas horas de show em um verdadeiro espetáculo cinematográfico.
Um retrato tóxico de até onde um relacionamento pode chegar. Chabrol explora neste filme um casal apaixonado, mas que, após uma crise doentia de ciúmes do marido, transforma-se em uma trama de terror, explorada pelas luzes que se apagam ao longo do filme. Emmanuelle Béart e François Cluzet brilham em suas transformações nesta obra-prima do diretor francês.
O subgênero thriller erótico alugou um triplex na minha cabeça este ano, e Dublê de Corpo é um dos maiores representantes desse gênero. Em uma trama voyeurista, De Palma cria um suspense carregado de tensão, gerando uma verdadeira experiência de sensações e maneirismos.
Cronenberg invade a vida real. O diretor, conhecido por seus filmes de body horror, ou horror corporal, traz aqui uma trama mais dramática que discute os padrões familiares e o ambiente doméstico americano como um todo. Mas, no estilo Cronenberg, tudo é deturpado e marcado por uma violência não apenas explícita, mas que arruína todo um ecossistema. Este é um filme que eu adoraria explorar mais no futuro.
Este é o tipo de filme que cresce em seu pensamento com o tempo. Percebe-se sua grandeza e o quão errônea é a expressão de que Hitchcock é apenas o mestre do suspense, pois, na verdade, ele é um mestre da 7.ª arte como um todo.
Neste universo futurista de Ridley Scott, imperam o silêncio e a contemplação. Contempla-se um futuro sombrio e triste, em que a distinção entre o robótico e o humano é quase imperceptível. Nesse mundo de contradições, Scott discute humanidade e avanços tecnológicos. Na escuridão, constrói-se uma história de amor, e na opressão surge a reflexão sobre o que é ser humano.
Estranho, esquisito, chocante, provocante e brilhante. Tudo isso define Crash. Mais um thriller erótico na lista, mas desta vez com uma experiência corporal em um estilo walkthrough sobre um fetiche peculiar. A depravação e a pornografia do corpo são temas principais, mesclados com um elemento quase fantasioso que faz desta obra mais uma obra-prima de Cronenberg.
Cinema é a arte das imagens e sons. Claire Denis capta e transcende este conceito ao conceber este filme, que carrega uma poesia naturalista. Mesmo com seu silêncio ensurdecedor, impressiona pelo poder das imagens. A diretora aborda temas como masculinidade tóxica e relações abusivas de trabalho. Por meio dos personagens de Grégoire Colin e Denis Lavant, Denis retrata o militarismo como algo corporal, tal qual uma dança onde os corpos se entrelaçam, compartilham do suor e dão o sangue.
Ao longo da lista, coloquei alguns thrillers eróticos, mas este aqui, em específico, é o maior do gênero. Foi o filme que explodiu minha cabeça. Instinto Selvagem traz um mar de sensações. É impossível passar por esse filme sem prender a respiração ou se surpreender com o que é mostrado. Verhoeven bebe das inspirações de Vertigo, de Hitchcock, bem como de Dublê de Corpo, também presente na lista. Mas a dinâmica dessa perseguição entre Michael Douglas e Sharon Stone traz uma qualidade única que salta aos olhos.
Como já disse no início, este ano assisti a muita coisa, mas ter que escolher apenas 10 entre os diversos excelentes filmes foi difícil. Por isso, aqui estão mais 20 que ficaram fora do top 10, sem ordem específica:
Planeta dos Macacos: Confronto (Dawn of the Planet of the Apes) , dir. Matt Reeves
Planeta dos Macacos: Guerra (War for the Planet of the Apes), dir. Matt Reeves
Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby), dir. Roman Polanski
Bound, dir. Lana Wachowski e Lilly Wachowski
Showgirls, dir. Paul Verhoeven
Creepy (クリーピー 偽りの隣人), dir. Kiyoshi Kurosawa
A Dama do Lotação, dir. Neville D’Almeida
Sherlock Jr., dir. Buster Keaton
Hiroshima Mon Amour, dir. Alain Resnais
Nova Iorque Fora de Horas (After Hours), dir. Martin Scorsese
Red Rocket, dir. Sean Baker
A Cidade Perdida de Z (Lost City of Z), dir. James Gray
Miracle Mile, dir. Steve De Jarnatt
Pequenas Margaritas (Sedmikrásky), dir. Věra Chytilová
Psicose (Psycho), dir. Alfred Hitchcock
Arábia, dir. João Dumans e Affonso Uchôa
Meninas Diabólicas (La Cérémonie), dir. Claude Chabrol
Desejo e Obsessão (Trouble Every Day), dir. Claire Denis
Eu, Tu, Ele, Ela (Je, tu, il, elle), dir. Chantal Akerman
Sinfonia da Necrópole, dir. Juliana Rojas
Lista completa no Letterboxd.

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