Valor Sentimental despontou nos últimos meses como um dos grandes favoritos a esta disputa nas grandes premiações de cinema. Dirigido por Joaquim Trier, o filme norueguês é mais um de sua filmografia que busca o apelo dramático da vida. Agora, porém, o diretor traz a arte como elo principal que coloca em conflito uma família de artistas.
Na trama, após a morte da mãe, Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) reencontram o pai distante, o carismático e prestigiado diretor Gustav (Stellan Skarsgård), que faz a Nora uma proposta: estrelar seu novo filme, que marcaria seu retorno ao cinema. Ela, no entanto, recusa o papel, o que leva Gustav a procurar uma jovem estrela de Hollywood para protagonizar a obra. Agora, as irmãs se veem na obrigação de lidar com as complicações dessa relação paterna, bem como com a história de sua família e com a relação com a casa onde moraram durante a infância.
Em muitos momentos, Trier busca, por meio da relação entre essa família, discutir também o papel da arte em meio a tudo isso. Nora é atriz de teatro, enquanto o pai trabalhou com cinema a vida toda. Ao oferecer o papel à filha como protagonista de seu novo filme, ele afirma querer explorar seu lado artístico, seu rosto, seu olhar. Mas Nora recusa a proposta sem sequer ler o roteiro que o pai lhe trouxe. Ela sabe da dificuldade que enfrentaria, pois os dois nem conseguem manter uma conversa casual sem que surja alguma discussão.
De certa forma, esses dois personagens se relacionam o tempo todo ao longo do filme. Eles compartilham uma dor, mas buscam escondê-la e expressá-la por meio da arte. Gustav, na verdade, sempre foi assim. Em sua relação com a outra filha, Agnes, a problemática se repete. Apesar de serem mais próximos, Agnes estrelou um de seus filmes quando criança, ela ainda se ressentia do fato de o pai parecer se importar apenas com suas obras. Nora, até então, nem sequer tivera esse momento com ele e apenas aguardava, com amargura, um reconhecimento que nunca veio, alimentando um terrível sentimento de abandono.
Por meio de uma abordagem mais fria, Trier mescla momentos de intimidade com seus personagens e, ao mesmo tempo, mantém certa distância. O diretor compreende o poder que suas lentes têm sobre nossa percepção dos personagens. Ao aproximar a câmera de seus rostos, vemos todos esses sentimentos, mesmo quando não são traduzidos em palavras. Quando a câmera se afasta, percebemos a dimensão do trauma, da solidão e da tristeza que os acometem, novamente sem que uma palavra seja proferida.
Mesmo com espaços amplos e cenários distantes, o filme ainda busca trazer esse sentimentalismo atrelado a um espaço específico: a casa da família, lugar onde toda a história foi construída. Somos apresentados a todos os meandros desse local; conhecemos seus segredos e singularidades. Ainda que nem tudo se concentre ali, sabemos que é nesse espaço que tudo se conecta, sobretudo quando Gustav o escolhe como cenário para a filmagem de seu novo filme.
Em muitos aspectos, o filme se assemelha à forma como a diretora europeia Chantal Akerman buscava ressignificar os espaços em suas obras. Contudo, de maneira mais abrangente, Trier transforma o local quase em um personagem da história, explorando, dentro dele, os corpos e as emoções daqueles que o habitam, diferentemente de Akerman, que tende a tratar o espaço como um agente na construção da imagem.
Entra também nessa equação a atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning), alternativa para o papel que inicialmente seria de Nora. Ela surge como um elemento invasor da narrativa. Não pertence àquele local; a personagem lhe é incompreensível; o país, a língua e toda a sua carga cultural lhe soam distantes, e de fato são.
O filme propõe, então, uma reflexão sobre o ato de produzir arte e viver dela como uma experiência de sofrimento, mais do que isso, como uma forma de expressá-lo. Em meio à distância que Gustav impôs à própria família, seu filme não é apenas uma forma de pedir desculpas, mas também uma tentativa de demonstrar que ele se importa e entende as filhas e o sofrimento pelo qual elas passaram. A arte aqui surge como externalização daquilo que as palavras nunca conseguiram expressar. E tudo gira em torno daquele espaço, daquela casa que é familiar a todos, pois os lugares que habitamos também carregam sentimentos e memórias.
Joaquim Trier e o roteirista Eskil Vogt extraem, assim, um drama contido, porém potente, sobre a arte e a vida de quem a escolhe. Ao mesmo tempo, Trier demonstra novamente ser um diretor consciente e habilidoso ao manejar uma narrativa que flerta com a metalinguagem, realizando um excelente trabalho ao utilizar convenções até então esquecidas do drama.

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