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filmesdearthur · Mar 3, 2026

The Moment (2026) | Charli XCX encara a indústria após o auge de Brat

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Afinal, é possível controlar o próprio “momento” ou todo fenômeno pop já nasce com data de validade?

O Brat Summer foi um dos grandes fenômenos do cenário pop nos últimos anos, além de ter alavancado a carreira de sua criadora a níveis avassaladores. Charli XCX sempre esteve em um limbo dentro da indústria, tratada eternamente como uma estrela em ascensão, mesmo já tendo realizado diversos ótimos trabalhos e acumulado alguns hits na carreira. Mas, finalmente, com o lançamento de Brat (2024) e, consequentemente, com a onda do Brat Summer, ela alcançou o mainstream da indústria.

Então surge The Moment (2026), um mockumentário sobre uma turnê promocional após o sucesso de Brat. Aqui, Charli e o diretor Aidan Zamiri captam a essência temática do álbum da cantora e a transportam para uma narrativa que discute o papel da indústria musical no gerenciamento do processo criativo e da carreira de artistas globais, evidenciando como tudo ao redor busca ser prolongado e capitalizado, além de propor reflexões sobre o momento atual da trajetória da artista.

É um tanto corajosa a perspectiva que o filme adota à medida que assume que tudo ali se trata de uma sátira, mas que, no fundo, reconhece que toda piada carrega um fundo de verdade. Charli enfrenta um processo de superação do próprio momento enquanto artista, sem saber se deve ou não continuar a promover a onda Brat, à medida que teme perder o status que conquistou como diva pop. Ao mesmo tempo em que lida com seus dilemas artísticos, vê-se em uma disputa criativa em torno dos rumos da turnê. Sua gravadora contrata um diretor ( para realizar um filme sobre esse momento naquele estilo promocional que se tornou bastante popular entre artistas pop nos últimos anos, mas ele não passa de um controlador obsessivo que apenas quer enquadrá-la nos padrões da indústria, a própria representação de um imaginário diretor comercial genérico.

Atrelada a essa narrativa, a direção de Aidan transparece uma aceleração e uma insalubridade que compreendem não apenas o ritmo que o filme pretende imprimir, mas também a sensação que deseja provocar: um sufocamento constante de uma artista em agonia. Em meio ao caos de sua vida, Charli decide passar férias em Ibiza, mas se vê novamente mergulhada no descontrole quando, após conversar com uma guru terapêutica e com Kylie Jenner (não se sabe o que é pior), passa a questionar suas próprias capacidades artísticas e sobre o seu próprio pertencimento à elite pop.

Tudo é superlativo; a qualquer momento parece que Charli irá explodir. Nesse sentido, é irônico como o filme emula um modus operandi de filmagem semelhante ao dos irmãos Safdie, mas de forma mais eficiente do que os trabalhos mais recentes da dupla.

Por fim, The Moment é uma grande subversão, não apenas do formato de filmes de turnê, muito menos do gênero mockumentário, mas da maneira como uma artista enxerga a própria trajetória e o próprio impacto cultural. Se analisarmos, há diversos artistas que já fizeram isso de forma igualmente afrontosa, mas eu, particularmente, não esperava essa postura de uma artista tão inserida no mainstream.

Embora toda crítica à indústria cultural, quando parte de um produto gerado pela própria indústria cultural, possa soar como cinismo (e, na maioria das vezes, é), o filme utiliza essa contradição a seu favor, convertendo-a em uma mensagem metalinguística direcionada ao próprio público de Charli.

Em um monólogo final, Charli afirma que é preciso deixar que tudo isso passe para que algo novo possa surgir, seja pelas mãos da própria artista, seja pelas próprias imposições do mercado industrial. O ato de prosseguir com a turnê se torna simbolicamente o funeral de Brat Summer; na vida real, Charli parece ter conseguido encerrar esse ciclo.


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