O professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda em uma espaçonave a anos-luz de casa, sem memória de quem ele é ou como chegou lá. Enquanto sua memória volta, ele começa a descobrir sua missão: desvendar a misteriosa substância que está causando a morte do Sol. Ele deve contar com seu conhecimento científico e ideias inesperadas para salvar a Terra da extinção até perceber que não está sozinho nessa jornada.
Susan Sontag, em um ensaio em que discorre sobre a ficção científica da década de 60, aponta que o gênero é um retrato da catástrofe. Analisando as obras da época, ela aponta o quanto o gênero busca partir sempre desse pressuposto de um fim quase que inevitável. E é justamente desse mesmo pressuposto que parte “Devoradores de Estrelas”, que brilhantemente foi localizado com este nome aqui no Brasil, remetendo muito às ficções de décadas atrás.
Adaptado do livro de hard sci-fi de Andy Weir de 2001, “Devoradores de Estrelas" possui uma distinção destas ficções, e está no seu tom. Mesmo retratando um possível fim do mundo, o filme possui um tom mais leve e muito bem-humorado, que foca justamente nas interações entre seus protagonistas, buscando tê-los com seu foco.
Dividido em duas narrativas distintas, o filme traz o tempo presente, em que Grace está na espaçonave em direção a um planeta a anos-luz de distância da Terra, sem saber por que está lá, até que vemos a outra linha narrativa e de tempo, na qual descobrimos as justificativas para tal aventura. Em uma dinâmica muito direta e explicativa, essas duas narrativas surgem como um sufoco para cada linha do tempo diferente. Quanto mais nos aprofundamos na história, surge um contraponto que não quebra o ritmo, mas busca complementá-lo.
Fora essa estrutura, o filme não propõe nada mais de diferente; suas pretenções são as mais básicas da ficção científica, mesclando um par de elementos, sejam visuais ou narrativos, para que no fim tudo isso fortaleça seu drama, o que é uma aposta acertada, visto que o personagem de Ryan Gosling e seu parceiro alienígena, Rocky (James Ortiz), sustentam uma conexão, que é o pilar do filme. Os elementos científicos estão lá, mas pouco tentam ser complexos, pois não há necessidade para tal, apenas o básico para que o público se situe na trama. Mas aqui acho um tanto admirável este ponto, pois, ao mesmo tempo em que busca ser muito bem conciso, cientificamente falando, vai de braços abertos à ficção e busca até mesmo ser didático a esse ponto, trazendo uma certa empolgação quanto a isso.
Quanto aos elementos visuais? A espaçonave alienígena e o próprio espaço sideral em si não são nada que fuja do convencional, apenas o próprio visual de Rocky e sua espécie que vai além do imaginário hollywoodiano de um alienígena bípede humanoide ou uma figura completamente monstruosa.
O que eu quero dizer com esta simplicidade não é de forma pejorativa, mas justamente o grande ponto forte do filme, pois é ali onde se busca. Afinal, estamos falando de um blockbuster estrelado por um dos maiores astros da atualidade e que teve um orçamento de 200 milhões de dólares. Nós não deveríamos esperar um 2001: Uma Odisseia no Espaço (apesar de o filme em alguns momentos referenciar a ele), mas, dentro do que propõe, o filme vai bem.
De forma curta, Devoradores de Estrelas é uma simples ficção científica, que aposta no carisma e sustentação dramática de seus protagonistas, enquanto caminha por uma história simples e que se utiliza das convenções da ficção científica sem medo de soar clichê.
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