Já se passaram alguns bons-dias desde que vi Parceiros da Noite, estrelado por Al Pacino. O filme, de 1980, veio após o sucesso do ator em Um Dia de Cão e O Poderoso Chefão I e II, e gerou uma grande polêmica na época, obviamente motivada pela homofobia e pelo preconceito, mas que surgiu em um momento muito oportuno. Al Pacino, a grande estrela do filme, vinha se consagrando como um dos grandes atores de Hollywood, um símbolo de masculinidade e heteronormatividade, fazendo parceria com um também grandioso diretor da época, William Friedkin, que àquela altura já havia realizado O Exorcista e Operação França. Tudo isso para, então, essa dupla lançar um filme sobre um policial infiltrado na comunidade gay de Nova Iorque, para encontrar um serial killer, um ano antes do início da epidemia de AIDS no mundo.
Já na época, o filme gerou inúmeras polêmicas durante a produção, com Al Pacino claramente desconfortável em diversas situações, ainda mais porque várias cenas foram gravadas em bares e baladas gays reais da época. Soma-se a isso as fortes ofensas que o ator recebia de “fãs” homens héteros, bem como da própria comunidade LGBTQIAPN+, que realizou uma campanha de boicote ao filme, julgando-o “estereotipado” e prejudicial à imagem da comunidade, já que retratava um recorte específico de pessoas adeptas ao BDSM. Além disso, após o lançamento, o filme amargou críticas duras na mídia especializada, tendo até hoje avaliações ruins em sites agregadores de notas. Contudo, tudo isso ficou no passado. Hoje, Cruising (nome original que faz referência a uma prática sexual) é visto como um clássico cult, que traz um retrato do mundo gay pré-AIDS, desde a moda até as práticas sexuais e dificuldades enfrentadas.
Friedkin busca aqui muito mais uma visão macro de diversos aspectos que cercavam a comunidade gay de Nova Iorque: seus estilos de vida, sua privacidade e sua relação com a cidade. Ao melhor estilo voyeur, a jornada de Steve Burns pelos bares, baladas e praças noturnas de Nova Iorque oferece uma perspectiva que busca compreender tudo o que é visualizado, sem um olhar moralista sobre esses atos. A própria figura do serial killer, que realiza suas caçadas nesses ambientes, revela a relação frágil e negligente que essa comunidade mantém com a cidade, seus espaços e as autoridades.
A força policial, que sistematicamente escolhe negligenciar certos casos ou simplesmente ignorá-los, é apresentada como uma grande parte do problema. A resolução, com a captura e o confronto com o antagonista da narrativa, não põe fim a nada. A missão de Burns o faz observar um lado da sociedade e a faceta de certas instituições diante dela.
Mas, para muito além da crítica que o filme se propõe a fazer, o que mais me interessa é justamente esse olhar para o qual o diretor nos aponta. São muitas as cenas de pura caminhada, nas quais não apenas os personagens realizam a ação, mas a câmera também. As cenas noturnas em praças e bares seguem essa mesma lógica: Burns entra em um local e passa a ter uma visão macro dos acontecimentos, dos mais minuciosos detalhes, bem como das inúmeras pistas do mistério que vão sendo deixadas na tela.
Parceiros da Noite é muito similar, nesse sentido, a outro filme da época, Taxi Driver, mas aposta em uma visão muito mais crítica e é mais objetiva nesse aspecto.
Por fim, a única parceria entre Friedkin e Pacino nos ofereceu um filme único ao misturar um gênero popular com uma temática nada popular para sua época, mas que nos fornece uma excelente peça para observar um recorte muito específico do tempo. É extremamente crítico e, de forma inquietante, similar à realidade que ainda se impõe à comunidade LGBTQIAPN+, que segue enfrentando insegurança diante da sociedade que a cerca.

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