Talvez Shakespeare seja o artista que mais, seja adaptado de forma direta e indireta na história do cinema, suas obras vão desde adaptações de animações infantis sobre leões e hienas falantes, até melodramas vencedores de Oscar. Chloé Zhao, porém, opta por uma abordagem diferente quando se refere ao dramaturgo, ela olha para a história de vida não só do autor, mas de sua família e sua esposa, Anne Hathaway (no filme chamada de Agnes), figura essa bem como toda a família do autor que não se sabe muito sobre.
O que de fato sabemos é de que eles se casaram em 1582 e tiveram juntos três filhos, Susanna, Judith e Hamnet. Shakespeare não era um homem muito presente na vida da família, já que eles moravam em Statford enquanto ele trabalha nos teatros de Londres, muito da historiografia buscava entender se esse casamento era arranjado ou se de fato eles eram loucamente apaixonados um pelo outro, mas fato é, na historiografia do autor Anne não era uma figura relevante, tanto que nem sabemos se esse é de fato o seu nome, já que na maiores dos documentos onde ela é mencionado consta o nome Anne, mas um em particular, o testamento de seu pai, seu nome consta como Agnes, nome este que a escritora da obra originaria ao filme, Maggie O’Farrell escolheu para nomear a personagem.
Dado todo esse contexto, em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, Agnes (Jessie Buckley) é uma mulher na qual possui uma forte conexão com a natureza ao seu redor, porém ao encontrar com William Shakespeare (Paul Mescal), um aspirante a intelectual, se apaixona e juntos eles constroem uma família.
Zhao aqui constrói um clássico filme de drama de uma ótica familiar, mas diferente de seus outros longas, Hamnet possui a sensibilidade perfeita para compreender a profundidade que seus personagens necessitam. Ao trazer o foco narrativa sobre a ótica de Agnes, a diretora traz um profundo olhar para a maternidade e as conexões emocionais nas quais a personagem constrói com aqueles ao seu redor. Observamos o surgimento do amor entre ela e Shakespeare e começa como uma fagulha tímida, mas que posteriormente se torna uma chama calorosa que envolve toda a família, bem como a compreensão dos papéis de gênero de sua época, mas sem nunca os compreender sobe um olhar critico.
O que mais me admira neste filme é também a capacidade que Zhao e a roteirista O’Farrell tiveram na construção dos conflitos que se dão ao decorrer da narrativa, por a capacidade necessária para entender que no fim do que tudo isso se tratam são sobre relacionamentos humanos, e por mais grandiosos sejam suas figura ainda, sim, existe ali uma fragilidade e as contradições que tornam aquilo tudo mais forte. Após a tragédia de Hamnet, é visível a virada de chave que este momento tem na narrativa, a mudança de tom, o olhar que as câmeras captam o mais profundo pesar dos personagens.
A potência dramática que o filme carrega muito também podemos atribuir para as grandes atuações de seus protagonistas, Jessie Buckley é sempre uma grata surpresa e aqui faz jus a todo o clamor que esta recebendo com sérias possibilidades de faturar um Oscar em 2026. Já Paul Mescal não é uma figura tão querida aos olhos, visto não aguentar mais o ver em tudo, mas aqui dou o braço a torcer e reconheço a grande atuação de sua carreira até o momento, apesar de estar correndo por na disputa pela estatueta dourada.
Os papeis secundários não ficam muito atrás, os filhos do casal também estão ótimos, destaque para o garotinho que interpreta Hamnet (Jacobi Jupe) que possui aquela inocência infantil mesmo diante das mais adversas situações, aquela esperança que tudo ficará melhor. Enquanto atores veteranos como Emily Watson (Mary) e Joe Alwyn, mesmo em papéis pequenos estão ali para somar na narrativa.
Ambos os papeis fogem da abordagem clássicas sobre figuras históricas, Agnes não é uma grande mulher por trás de um grande homem, sua história é sua e a presença de seu marido por mais importante que seja também é um completo de si, e vice-versa, a relação entre Agnes e William é engrandecedora para ambos e eles enxergam em si e na beleza da arte, motivos para continuar vivendo e apreciado o que ainda podem viver.
A própria presença da arte na trama surge também de forma despretensiosa, apenas no terço final do filme que o nome de William Shakespeare é mencionado pela primeira vez, antes o que víamos era apenas um homem que com medo de se perder nos pensamentos, vai a capital Londres para em meio a multidão se encontrar, descobrir que ao fazer arte se pode viver como nunca antes, esses momentos poucos são mostrados em cena, mas ao chegar em seu momento final a primeira exibição de Hamlet, tudo desabrocha.
O dialogo entre o amor e a arte de Chloé Zhao é muito mais sobre entender sobre como nos mesmo podemos ser impactados por isso tudo.
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