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filmesdearthur · Dec 2, 2025

Bugonia (2025) | A paranoia do fim de Lathimos

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Atuações roubam a cena em filme sobre as paranoias da sociedade contemporânea.

Bugonia é mais um da maratona de filmes lançados pelo diretor grego Yorgos Lanthimos, que, nos últimos dois anos, já havia lançado Pobres Criaturas e Tipos de Gentileza. Todos contam com sua parceira Emma Stone, que novamente volta a protagonizar um de seus longas. Aqui, o diretor aposta na indiferença e na estranheza típica de seus filmes, mas sem esbanjar no senso artístico que costuma cercar seus cenários, concentrando-se mais em um intimismo espacial.

Bugonia parte da história de dois conspiracionistas, Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis), que sequestram Michelle Fuller (Emma Stone), uma CEO de uma grande empresa, acreditando que ela é uma alienígena que pretende destruir o planeta.

A trama nasce de um ponto de partida sólido para qualquer ficção científica clássica, a desconfiança é o motor principal da narrativa. Será mesmo que ela é uma alienígena? É o que todos se perguntam no começo, com aquela boa impressão da obviedade iminente. Mas é justamente aí que reside o ponto forte do filme. Consciente de todas as obviedades que carrega, a obra não as nega; ao contrário, faz questão de brincar com elas, incorporando outros elementos à discussão.

Teddy é um homem perturbado que, a princípio, parece buscar no sequestro uma justificativa moral e lógica para todos os traumas aos quais foi exposto. É no seu confronto com Michelle, uma mulher pragmática e fria até nos momentos de insegurança, que se instala um conflito ideológico. Como dito, a obviedade é escancarada: Teddy culpa todas as mazelas do mundo, destruição ambiental, exploração do trabalho, desigualdade social e submissão humana, atribuindo-as à figura da empresária, que simboliza, não apenas no filme, mas também no imaginário social (seja de forma positiva ou negativa), o sistema capitalista empresarial no qual vivemos. Uma realidade tão brutal só poderia ser, para ele, coisa de outro planeta; que outro ser vivo seria capaz de impor tamanha crueldade ao outro?

Durante um dos embates, Teddy discorre sobre as abelhas e suas particularidades enquanto seres que, assim como nós, se organizam em sociedade. Por trás do debate ideológico da cena, há também uma angústia, Michelle revela sua admiração pelas abelhas num tom irônico, reforçando seu comportamento frio e objetivo sobre tudo. A inquietude dessa conversa, sustentada por atuações excelentes da dupla, sintetiza o que o filme tem de melhor.

Comentários antissistêmicos em filmes hollywoodianos costumam ser extremamente cínicos ou simplórios. Mesmo que aqui exista certa hipocrisia, isso não enfraquece a obra, porque não é exatamente esse o eixo que a conduz, embora o filme sempre faça questão de enfatizar o tema. É nesse terreno que brilham as atuações de Jesse Plemons e Emma Stone, ambos muito bem ao transmitir a inquietação contrastante entre seus personagens.

Muito disso se deve à direção de fotografia de Lanthimos, eficiente nos momentos de tensão direta entre os personagens. Porém, a aposta em poucos tipos de plano reforça certo marasmo na narrativa. Limitando-se quase sempre ao plano fechado (close-up) e ao plano aberto, a simplicidade visual, que às vezes combina com o ambiente e as propostas narrativas, se perde à medida que o filme avança para um caminho mais catártico adotado em sua sequência final.

Bugonia é extremamente representativo da carreira de Lanthimos: contém tudo o que o diretor já fez de melhor e, ao mesmo tempo, vários elementos do que fez de pior — mas nada levado ao extremo. É curioso pensar que o diretor surgiu de uma escola de cinema focada na violência gráfica, interessada no choque pelo choque, mas se transformou à medida que se aproximou do cinema hollywoodiano.

Lanthimos definitivamente não é um grande diretor, mas possui boas referências e, de forma um tanto melancólica, vejo sempre muito potencial em seus filmes, potencial que cresce quando ele se cerca de bons elencos. A comédia mórbida de Bugonia será um dos títulos discretos e singelos de sua filmografia, assim como A Favorita, seu outro bom trabalho.


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