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filmesdearthur · Jan 29, 2026

Marty Supreme (2025) | A frenesi identitária rumo ao topo

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Josh e Timothée buscam reconhecimento em uma jornada frenética rumo ao sucesso absoluto.

Os irmãos Safdie foram uma dupla que, durante a última década, se demonstrou uma das mais promissoras a emergir do cinema underground americano, até que, em 2023, a dupla anunciou o fim da parceria, fazendo com que Josh e Benny desenvolvessem projetos próprios que, coincidentemente, ambos saíram no ano de 2025.

Não vou entrar nos detalhes que envolveram o fim da dupla, pois, ao que parece, pelo que reportou a imprensa americana, é muito mais problemático do que anteriormente era noticiado (dizia-se que um dos dois era trumpista). Mas, desde o fim da parceria, estive curioso para saber quem, entre os dois, de fato imprimia mais a identidade artística que a dupla possuía.

Que identidade é essa a que quero me referir? A marca registrada deles. Nos dois sucessos da dupla, Joias Brutas (2019) e Bom Comportamento (2017), eram histórias sobre homens escrotos que se enfiavam em situações que cada vez mais iam ao encontro do absurdo, tudo capturado através de um frenesi que não parecia ter fim. É um cinema sujo, de certa forma incômodo, que imprimia essa marca do cinema das ruas.

Em Marty Supreme, acompanhamos a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um ambicioso e jovem jogador de tênis de mesa que sonha em ser o melhor do mundo e está disposto a fazer o que for necessário para que isso aconteça.

Marty Supreme trabalha em campos extremamente comuns quanto a estilo e narrativa para o diretor Josh Safdie: mais uma história sobre um homem problemático que se enfia em uma onda de problemas e deixa um rastro de destruição por onde passa, o que não chega a ser comparável com suas obras anteriores em parceria com seu irmão, mas tenta parecer ser.

Aqui, parece que o filme acaba atravessando um meio-termo entre o estilo com o qual o diretor já estava familiarizado e um estilo mais palatável e comum aos olhos e critérios dos membros da Academia. Este foi um filme pensado para concorrer a premiações e, nesse sentido, tinha que passar por certos critérios, algo muito similar ao que ocorreu com o cinema de Sean Baker, também um diretor oriundo do cinema underground americano, que passou a figurar nos períodos de premiação, no caso dele, deu frutos com a vitória de Anora (2024) nas premiações.

Esse meio-termo acaba trazendo certas facetas do filme que me desagradam. É perceptível o quanto o filme começa em um ritmo completamente perdido, custa a estabelecer as dinâmicas que deseja construir com seus personagens e parece não muito decidido também quanto à sua direção. Mas, após o retorno de Marty aos Estados Unidos, o filme então parece se encontrar.

A alucinante jornada de Marty rumo ao topo do tênis de mesa o faz arrastar todos à sua volta para uma trajetória de destruição. A imprudência com a qual o personagem avança é filmada de forma alucinante, de praxe na filmografia do diretor: diversas correrias, brigas e situações inusitadas fazem com que, cada vez mais, Marty se veja no fundo do poço, mas ele nunca desiste, ao ponto de pôr o próprio orgulho na régua.

Vi muito a história de Marty como um paralelo dos próprios Estados Unidos personificados no personagem. O rastro de destruição que ele deixa muitas vezes não carrega consequências visíveis, sendo assim atrelado ao histórico de conflitos do país no século XX. Mas acho justamente o contrário: essas consequências estão ali, ele simplesmente as ignora. A obsessão de Marty não é apenas essa jornada egocêntrica rumo ao estrelato, mas sim uma corrida desesperada para provar valor a si próprio. Chegar ao topo da modalidade é a escolha que o personagem impôs a si para não se ver como um fracassado, sendo o tênis de mesa a única coisa na qual ele verdadeiramente se difere dos outros e, portanto, sua única rota para ser alguém.

Assim, de certa forma, Marty não é apenas uma personificação dos Estados Unidos, mas mais um sintoma doentio que o país causa ao seu próprio povo. O empresário Milton (Kevin O’Leary) se encaixa muito mais nessa personificação, enquanto um homem que, com todo o seu poder econômico e influência política, impõe uma série de humilhações ao protagonista pura e simplesmente porque pode. Quero deixar claro que não considero Marty uma grande vítima dentro da história; ele de fato é um escroto e mereceu muito do que sofreu no filme. Marty conseguiu passar por cima de todos da sua família, dos seus amigos, da sua amada e até mesmo da máfia, mas, ao cruzar com o empresariado americano, aí sim ele não passa batido.

Marty não tem um final feliz, não alcança o seu tão esperado sonho na conclusão do longa, sua desacelerada faz com que aquelas consequências que o estavam perseguindo aos pouco chegassem nele, e enfim o filme termina com ele encarando uma delas.

Como deixei a perceber, um dos grandes pilares não só da campanha que o filme busca fazer neste período de premiação, mas também daquele sobre o qual o filme em si se sustenta, é a atuação de Timothée Chalamet. Ao interpretar esse homem imprudente, arrogante e egocêntrico que é Marty Mauser, o ator traz também a camada de inquietude que o assola. Essa atuação dita o rumo que o filme percorre em certo ponto e, a partir disso, o todo que o acompanha cresce junto do ator. Mesmo não sendo minha atuação favorita do ator, sua performance aqui parece ser suficiente não apenas para o filme, mas também para sua campanha rumo ao Oscar 2026.

O restante do elenco coadjuvante, em geral, está ótimo, com destaque para Kevin O’Leary, que parece estar apenas sendo ele mesmo em sua persona de empresário escroto que enxerga todos à sua volta como insetos. Odessa A’zion estava sendo cotada para indicação ao Oscar, mas acabou ficando de fora, algo que não me surpreende, visto sua atuação comum, enquanto quem acho que deveria ao menos ser considerada é Gwyneth Paltrow, que, mesmo sutil, estava muito segura em seu papel.

Atribuo muito desta coesão entre o elenco ao próprio diretor que ainda junto do irmão gostavam de trabalhar com pessoas que não eram de fato atores para contracenar com atores mais estrelados. Visto que seu trabalho na direção vem chamando muito atenção, por mais que não considero este um dos seus melhores trabalhos, a de reconhecer ainda o quanto se prezou pela identidade da qual vinha pregando.

Ao fim, Marty Supreme parece exemplificar o que vem se tornando o cinema de baixo orçamento americano: histórias mais íntimas, que se sustentam em suas estrelas e passam a integrar circuitos fechados com foco em festivais e premiações. Vez ou outra sai algo incrível disso, como Hamnet; às vezes (na maioria das vezes), saem tragédias irritantes; e outras, apenas obras esquecíveis. O tempo dirá onde este filme vai se encaixar em meio a tudo isso.


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