Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno é considerado o primeiro livro de ficção científica da literatura, algo que, como toda origem, é contestado. Mas o fato é que a obra de Mary Shelley é uma das mais importantes para o terror e para a ficção científica moderna. Com tamanho sucesso, era inevitável que chamasse a atenção do cinema, e ao longo das décadas recebeu diversas adaptações, sendo a mais famosa a versão de 1931, que popularizou a figura do Monstro como a conhecemos hoje.
Chegamos, então, a 2025 com mais uma adaptação da obra, desta vez lançada diretamente em streaming, o que já poderia indicar um sinal não muito animador. Mas o projeto conta com direção e roteiro do mexicano Guillermo del Toro, figura carimbada em Hollywood e vencedor do Oscar em 2018 pelo romance A Forma da Água, além de amplamente reconhecido por sua paixão por histórias envolvendo figuras monstruosas.
Del Toro, ao colocar as mãos em Frankenstein, parecia formar o casamento perfeito. Porém, o que apresentou foi mais uma repetição de si mesmo: uma grande confusão filmada, que não demonstra nem um mínimo de aprofundamento em uma história que todos já conhecemos de cabo a rabo. E mesmo nesses elementos familiares, o filme não consegue extrair nada que mereça real desenvolvimento.
Mas vamos por partes. A história se inicia quando um grupo de marinheiros holandeses encontra Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um cientista ferido, à deriva em um mar congelado. Ao resgatá-lo, os marinheiros também se deparam com o Monstro (Jacob Elordi) que o persegue. Quando recobra a consciência, Victor começa a contar sua história e o que o levou a criar aquela criatura. Ele narra sobre sua família, a origem de seu interesse em gerar vida, o amor de sua mãe e os conflitos com seu pai, além de suas relações com o irmão e a cunhada, que o faziam lembrar de sua mãe, perdida na infância.
Toda a primeira metade do filme se desenvolve, portanto, do ponto de vista do cientista e de seu processo de criação da criatura. Nesse período, os cenários, a direção de arte, a maquiagem e toda a composição visual ganham destaque, remetendo ao estilo gótico-romântico que o diretor tanto aprecia. Ao mesmo tempo, o filme desperdiça a qualidade dessa direção de arte ao filmar seus cenários de forma genérica e fria, incapaz de capturar a grandiosidade mórbida ali construída, limitando-se ao óbvio.
Muito desse desperdício se manifesta na narrativa. Del Toro busca, a todo instante, uma complexidade que frequentemente tenta extrapolar até mesmo o que a obra original propunha, o que se espera, mas sem atenção ou interesse reais. A relação de Victor com os membros da família é extremamente frágil, beirando clichês psicanalíticos que parecem existir apenas por capricho. Ao analisarmos suas relações com o pai e o irmão, percebemos que elas servem como meras desculpas para um texto que quer ser expositivo o tempo todo, subestimando a capacidade de interpretação do espectador. Victor, que em várias adaptações se apresenta como um personagem complexo, aqui se reduz a um homem mesquinho, que não só quis brincar de ser Deus, mas provar algo diante de relações fracas e apáticas ao seu redor.
Com a entrada do Monstro, o filme parece que finalmente ganhará novos ares, mas a mudança não passa de um leve sopro. Após a catarse que marca o meio da narrativa, o ponto de vista muda e passamos a acompanhar a história pela perspectiva da criatura. Por um breve momento, o filme adota um ar mais reflexivo e diminui o ritmo, mas logo tudo retorna ao mesmo marasmo, uma disputa que aspira a ser ideológica, mas que, no fim, não chega a lugar algum.
Del Toro parece querer incluir no filme tudo o que já trabalhou ao longo da carreira, além de tentar apresentar uma suposta maturidade temática. Contudo, tudo soa tão pseudointelectual que enfraquece quase todas as tentativas do filme de se levar a sério. Para não dizer que detestei tudo nas duas horas e meia de projeção, a sequência do monstro à espreita da família de camponeses é realmente interessante, assim como a interpretação de Jacob Elordi, que oferece uma abordagem diferente ao personagem — indo de uma inocência infantil, alheia aos limites de seu poder, até um teor levemente sensual, considerando sua estatura e sua relação com a personagem de Mia Goth.
É perceptível a tentativa de trazer substância à narrativa, mas falta a profundidade necessária. A cada filme, Del Toro continua a repetir as mesmas fórmulas, embora ainda exista espaço para abordagens diferentes dentro delas. Aqui, há uma tentativa, mas sem sucesso.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.