Em meados de 1964, os Estados Unidos da América entram oficialmente de forma militar na Guerra do Vietnã, que havia começado pouco menos de dez anos antes. Desde então, esse conflito se tornou um dos mais televisionados pela mídia mundial. Imagens de diversos bombardeios de vilas repletas de civis e de combates entre forças vietcongues e americanas eram mostradas cotidianamente para todos verem.
Não havia como essa guerra ter efeitos tão mínimos na sociedade americana. O conflito se tornou extremamente impopular, desencadeando uma verdadeira crise social e política nos EUA. Nesse contexto, surge uma variedade de obras cinematográficas que exploram profundamente as diversas facetas dessa crise na sociedade americana. A Nova Hollywood também nasce a partir disso, em meio a uma crise industrial em Hollywood. Surge, então, uma grande safra de diretores bastante influenciados pelo cinema europeu, que passam a discutir os efeitos de uma sociedade adoecida no cidadão americano.
Nesse sentido, saem quase em sequência grandes filmes do período: Taxi Driver (1976), Apocalypse Now (1979), Rambo (1982), Platoon (1986), Nascido para Matar (1987) e tantos outros. Mas Michael Cimino, filho de uma família de origem italiana, havia ganhado certa fama após o seu primeiro longa-metragem, O Último Golpe (1974), filme que contou com Clint Eastwood e um jovem Jeff Bridges como protagonistas, e fez relativo sucesso de bilheteria. Isso lhe rendeu respeito na indústria. Após dois anos tentando emplacar seu próximo projeto, Cimino escreveu em apenas seis semanas o roteiro inicial para o que seria o seu maior sucesso: O Franco-Atirador.
A história acompanha Michael Vronsky (Robert De Niro) e seus amigos Nick Chevotarevich (Christopher Walken) e Steve Pushkov (John Savage). Todos são operários de uma fábrica em uma pequena cidade industrial da Pensilvânia. Steve está prestes a se casar e, junto de Mike e Nick, se preparam para ir à guerra no Vietnã. Durante esse período de “preparação”, vemos esse grupo de amigos alegre e bagunceiro, eles saem para beber e jogar sinuca em um bar próximo ao trabalho e também vão caçar cervos na natureza ao redor da cidade. Mesmo vindo de uma família imigrante, como sugere o sobrenome e os costumes de seus familiares cristãos ortodoxos, Mike e seus amigos vivem plenamente o American Way of Life, a caminho de uma guerra que, de fato, não lhes pertencia.
Assim como saem para caçar como parte de uma confraternização entre amigos, a ida à guerra é vista dessa forma por esses operários. Em vez de abater animais silvestres, o objeto de caça passa a ser os temidos vietcongues. Diferente de outros filmes do período que retratam o conflito, O Franco-Atirador não busca grandes sequências de batalhas ou heróis que superam obstáculos gigantescos. Mais do que qualquer coisa, o filme é sobre os indivíduos em meio a esse conflito e como suas vivências refletem na sociedade em que estão inseridos.
Logo na primeira sequência no Vietnã, vemos Mike em meio ao massacre de um pequeno vilarejo. Seus amigos Nick e Steve aparecem em seu resgate, mas tudo não passa de uma emboscada, e o trio é capturado pelas forças norte-vietnamitas. Steve, visivelmente abalado psicologicamente, é aprisionado em uma gaiola submersa e infestada de ratos, enquanto Mike e Nick são submetidos a um jogo de roleta-russa um contra o outro. Ao fim, conseguem se voltar contra seus captores e escapam juntos, levados pela correnteza do rio. Em certo momento, um helicóptero aliado aparece, mas apenas Nick consegue ser resgatado. Mike e Steve são arrastados pela correnteza e precisam escapar sozinhos.
O que parecia apenas uma grande aventura para o trio se torna literalmente um inferno. Enquanto, em sua terra natal, a ida à caçada é filmada de forma contemplativa, colocando principalmente Mike em contato com a força da natureza diante da sua presença humana, no Vietnã essa força se torna avassaladora. Steve quebra as pernas e é carregado por Mike até uma base americana próxima. Ali, em meio a um turbilhão de pessoas que parecem acostumadas com aquele inferno, os dois personagens se separam e não se veem por um longo tempo.
Enquanto isso, Nick, sozinho, caminha pelas vielas de Saigon, capital do país, e encontra um francês que o apresenta a um grupo de homens que apostam e lucram com roletas-russas. É nesse galpão que acontece também o último encontro de Mike e Nick por anos.
De volta aos EUA, Mike percebe que familiares e amigos haviam organizado uma festa para recebê-lo, mas pede ao taxista que o deixe em um hotel distante. Fugindo de si mesmo? Ou de encarar os rostos daqueles que acreditava ter abandonado por uma ilusão? Independentemente da razão, Mike chora sozinho no escuro de seu quarto.
No dia seguinte, ele reencontra Linda (Meryl Streep), seu interesse amoroso desde o início do filme, mas, após tanto tempo, existe uma frieza que permeia a relação: um desentendimento de sentimentos. Uma sequência simbólica ocorre quando Mike e os amigos voltam à costumeira caçada. Ao avistar um cervo e colocá-lo na mira, Mike decide não atirar. Depois, diante de uma cachoeira, solta um grito que ecoa pela natureza. Ainda há espaço para o restabelecimento com a vida? Para os sonhos e relações que se perderam? Ainda há esperança?
De volta da caçada, Mike encontra Linda em seu trabalho, chorando sozinha em um canto. Ao indagá-la, ela responde que não é nada, e fica tudo por isso mesmo. Talvez realmente as coisas nunca sejam como eram antes. Contudo, as questões inacabadas no Vietnã retornam, sobretudo após o reencontro de Mike com Steve, agora em uma cadeira de rodas em um centro de reabilitação. Decidido, Mike retorna ao Vietnã para encontrar Nick.
A volta é um choque ainda maior: o país está em um caos pior do que antes. A jornada de Mike em busca do amigo se assemelha a uma descida às trevas. Após reencontrar o francês, Mike finalmente revê Nick no mesmo local das apostas de roleta-russa. Agora, Nick é uma atração daquele inferno. Quantas vezes terá arriscado a vida, desafiado a própria morte até chegar àquele estado, completamente inerte, incapaz de reconhecer o próprio amigo que implorava para que voltassem juntos à vida que tinham? Mas a tragédia inevitável acontece: Nick se mata durante o jogo, desta vez sem sorte.
Os últimos momentos do filme mostram o funeral de Nick, com familiares e amigos reunidos. Após o enterro, todos vão para o bar que costumavam frequentar antes da guerra. Reunidos à mesa para um jantar, Linda começa a cantar o hino dos EUA, e todos a acompanham.
Lançado em 1978, dois anos após o fim oficial da Guerra do Vietnã (em 1975 os EUA retiraram seus combatentes e, em 1976, os norte-vietnamitas derrubaram o governo do sul, vencendo o conflito), O Franco-Atirador, com seu final patriótico, parecia simbolizar um ponto de esperança em meio a tanta crise. Mesmo diante de tanto sofrimento, os valores que construíram a nação permaneceriam, garantindo um futuro de superação. Talvez tenha sido essa a chave para o enorme sucesso do filme, tanto de público quanto de crítica, rendendo a Cimino os Oscars de Melhor Filme e Melhor Direção.
Entretanto, o que me parece é que esse final simboliza um prefácio para o declínio do império americano. Durante o século XX, os EUA se tornaram extremamente influentes na economia e na política global, a ponto de parecer inconcebível que uma potência tão grande pudesse perder uma guerra para um país do chamado “terceiro mundo”, com técnicas rudimentares de guerrilha. Mas foi exatamente isso que aconteceu: seus governantes deliberadamente enviaram jovens para morrer em um país estrangeiro, massacrados pela natureza e pelos guerrilheiros, enquanto a própria população rejeitava e martirizava os que retornavam. Não satisfeitos, esses mesmos governantes continuaram a colocar seu povo em conflitos que não lhes pertenciam ao longo das décadas.
Quando será que os “bons e velhos tempos” irão retornar? Afinal, se há esperança, é porque existe expectativa de melhora. Cimino nos oferece, portanto, um olhar especial sobre uma sociedade em crise, que busca, em seus ideais fundadores ou em figuras heroicas, o retorno daquilo que acredita ter perdido, quando, talvez, nunca tenha tido controle algum sobre isso.
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