As Deusas, de Walter Hugo Khouri, e Império do Desejo, de Carlos Reichenbach, são filmes separados por quase 10 anos de seus respectivos lançamentos, mas dialogam de determinada forma, à medida que ambos abordam questões psicanalíticas e sociais. O cinema, durante o período em que os dois filmes foram lançados, caminhava do ápice para um declínio industrial e mercadológico no âmbito nacional. Contudo, nenhuma das obras se enquadra nas lógicas, sejam mercadológicas ou mesmo artísticas, que eram perpetuadas em sua época.
O que motiva a comparação entre ambas, portanto, é a contraposição narrativa e como cada filme dialoga com o momento presente de seu respectivo lançamento. Em Império do Desejo (1981), de Reichenbach, a história acompanha Sandra (Meiry Vieira), viúva de um milionário que descobre que o marido mantinha uma casa na praia para encontros extraconjugais. Ela então decide reaver a propriedade com a ajuda de um advogado. Durante a viagem para Ilhabela, onde fica a casa, conhece um casal de hippies e pede que eles cuidem do imóvel enquanto volta a São Paulo.
As coisas ficam estranhas após a saída da viúva. O casal, formado por Nicolau (Roberto Miranda) e Lucinha (Márcia Fraga), recebe visitas do advogado, que tenta passar a imagem de um homem íntegro, mas esconde o desejo animal de ficar com Lucinha, menor de idade e que, segundo ele, se parece com sua própria filha. Logo depois, duas estudantes de classe média alta, de famílias bem estruturadas, aparecem na praia e interagem com o casal. Apesar de se mostrarem sexualmente “desconstruídas”, revelam um conservadorismo velado.
A estranheza aumenta com a presença de um milionário excêntrico e poeta, que ronda a praia e amedronta a todos. Dá-se a entender que as estudantes são sequestradas e mortas por ele, assim como uma jornalista chinesa que, em tom mórbido e sexualmente cômico, discorre sobre filosofia e paralelos com a contemporaneidade. Diversos outros personagens surgem e acabam igualmente capturados pelo poeta. Ao final, a viúva retorna acompanhada de seu amante playboy, que também é morto a pauladas. Sandra, então, junta-se ao casal hippie em uma cena de sexo coletivo.
Tudo termina em tragédia: Sandra é assassinada ao voltar para a cidade por grileiros que haviam tomado a casa de praia. Já o advogado leva o casal para seu sítio, mas acaba se afogando enquanto os dois transavam. O filme, mais um na incrível cinematografia de Reichenbach, reafirma sua marca de subverter formas narrativas e gêneros. Aqui, o diretor trabalha o erótico em diálogo com uma discussão de classes, tudo em tom de ironia.
Apesar da intenção de subversão, Reichenbach ainda elabora com precisão o erótico e sua simbologia. A casa na praia torna-se um antro da libertinagem, um espaço onde o desejo aflora e as amarras sociais em relação ao sexo se desfazem. Poligamia, fetiches e fantasias diversas: o sexo surge como a verdadeira natureza da liberdade.
Em contrapartida, enquanto Império do Desejo abraça a sexualização, As Deusas (1972), de Walter Hugo Khouri, apresenta uma abordagem distinta. No filme, o casal Paulo (Mario Benvenutti) e Ângela (Lilían Lemmertz) hospeda-se em uma casa de campo emprestada pela psicóloga de Ângela, Ana (Kate Hansen). O casal estranha o lugar antigo, grande e melancólico, o que leva Ângela a solicitar a presença de sua terapeuta. Ana passa a noite com eles, conversa com Paulo sobre o tratamento e confessa não acreditar que conseguirá ajudar Ângela, mas Paulo insiste que continue.
Ana e Ângela se aproximam cada vez mais: passeiam juntas pelos arredores da casa, banham-se no rio e compartilham confidências. A tensão entre o trio aumenta: Ana sente atração por Paulo, enquanto Ângela demonstra desejo por Ana. Os três iniciam um romance, mas Ana se sente desconfortável, dividida entre a intensidade dos desejos e a sensação de proibição. Ao contrário de Paulo e Ângela, que se entregam, ela decide se afastar, partindo para a Europa e deixando a casa para o casal, agora mais confortável em sua estadia.
Enquanto Reichenbach explorava o sentido filosófico e social do desejo, Khouri mergulhava em um estudo mais psicológico, ancorado na psicanálise. A referência a Persona (1966), de Ingmar Bergman, é clara. Khouri constrói a narrativa como um campo hipnótico, em que Ana aparece hipnotizada pelo desejo, mas busca resistir a ele. A casa, assim como em Império do Desejo, simboliza a liberdade, mas Ana recusa essa entrega.
Ambos os filmes trazem ainda questões sociais ligadas à classe de seus personagens. Em Império do Desejo, uma mulher rica se rende à libertinagem do casal hippie. Em As Deusas, o movimento é inverso: o olhar é burguês, quase hitchcockiano, em que Khouri observa como o trio se comporta diante de situações que desafiam sua condição de classe. Submetidos a desejos que parecem “sujos” ou “depravados”, os personagens revelam, na verdade, instintos humanos universais.
Nos anos 1970, As Deusas surgia em meio à enxurrada das pornochanchadas, gênero popular que abraçava a representação escancarada do sexo. Khouri, no entanto, escolheu um caminho distinto: lançou um olhar sofisticado, voltado para uma classe social que costumava olhar de cima para baixo. O resultado é um filme especial, com referências ricas e densidade simbólica que só poderia pertencer ao cinema brasileiro.
Walter Hugo Khouri e Carlos Reichenbach são dois dos grandes direitos brasileiros que já ousaram fazer cinema, e demostram como o erótico é rico e carrega consigo uma das facetas da complexidade humana, seja ela mais filosófica, social e até mesmo política. Ambos os filmes estão disponíveis no YouTube e Drive aqui e aqui.
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