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Artemísia · Mar 26, 2026

95. Devoção & diversão

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Cândida Schaedler · Artemísia

A Woman Playing The Guitar (1788-1789), Jean François Janinet (1752-1814)

Por que tu não tá feliz???

Um senhor de barba branca similar ao Imperador do Tarot de Marselha me perguntou isso com austeridade.

Tu precisa ser feliz!!!”, ele emendou com veemência, me encarando firme sem esboçar qualquer sorriso.

Abri os olhos e vi o céu azul de Floripa. Quase não havia nuvens. Me concentrei de novo no som do mar e na textura da areia sob meus pés e pensei: “isso aqui tá ficando estranho, melhor eu voltar para a matéria”. Achei que a meditação sofria ruídos do meu próprio campo — desconectado por conta do estresse, do sono entrecortado da noite anterior e por paranoias do mundo concreto.

Só que a meditação funcionou. Semana passada, eu me conectei aos guias do estúdio de storytelling que trouxe ao mundo nesta segunda-feira, dia 23 de março. Um deles, esse senhor de barba que lembra o Imperador, só me recordou exatamente o que eu precisava ouvir.

Levantei a coluna da canga, sentei ereta, olhei para o oceano ridiculamente azul do Pico da Cruz — e então a grande ficha caiu a tempo de me pegar sentada: “é, para que empreender se não for para me divertir?”

A primeira vez que empreendi foi aos 23 anos. Nessa idade, é normal que sejamos cheias de ilusões; imagino que aos 31 também, e provavelmente aos 50 também. Mas aos 23 as ilusões são mais caudalosas, e as minhas eram típicas de uma menina que ainda atrelava, com nós muito apertados, a carreira profissional ao senso de identidade e valor. Essas ilusões (ainda bem, mas que horror) inevitavelmente te engolfam e te afogam. Precisam ser dissolvidas, e o Inconsciente se ocupa da tarefa.

Pois bem, aos 23 anos empreendi e criei, ao lado de uma grande amiga, a primeira agência de comunicação especializada em agricultura familiar e agroecologia do Brasil. Foram quatro anos dos quais me orgulho muito. Às vezes, olho o que produzimos de novo e meus olhos marejam. Tem muito amor em tudo. Tem quase tudo de mim naquela época. Foi lindo e absurdamente extenuante. Eu não sabia mais separar onde eu terminava e onde começava o meu trabalho.

Por anos, eu me senti digna de receber amor e admiração porque achava que era competente. Eu me identificava com a profissão a ponto de atrelar toda a minha identidade àquilo. Até que chegou o momento em que não me reconheci mais e entrei em depressão. Ignorei todas as mensagens anteriores, e o ladrão chegou arrombando a porta. Só assim, depois de uns dois anos, eu me reconheci de verdade. E entendi que o desejo da minha alma apontava para outro lado.

Em 2022, encerramos o ciclo da agência, fui trabalhar como líder de uma equipe de comunicação — era um sonho! —, mas voltei a me exaurir. Quando o sistema tenta me cooptar, meu corpo se contrai e protesta. Um ano e sete meses depois, pedi demissão sem saber o que eu queria fazer e para onde ir. Me chamaram de louca; me elogiaram pela coragem. Eu só sabia que queria viver longe de todas as expectativas externas. Todas as vezes em que cheguei nos postos profissionais que achava que me fariam felizes, eu continuava me sentindo desvitalizada.

E aí em julho de 2024, depois de outra decepção profissional e pedido de demissão, eu botei uma mochila nas costas, fui pro Peru e retornei para o único lugar possível: para mim mesma.

Desde que comecei a viajar, deparo com uma pergunta persistente, que gruda toda vez que caio demais no concreto: para que estar viva se não for para ser feliz?

E de tão entusiasmada para viver plenamente em paz — associando que o trabalho, do jeito que eu experenciava, só me afastava da plenitude —, fui ao outro extremo. Fiquei tão de saco cheio de me estressar para agradar aos outros e cumprir tabela alheia que me desatrelei quase 100% da vida profissional. Quando ambicionava crescer, sentia que aquilo me consumia, me colocava de novo de frente a monstros cabeludos e a uma personalidade general-militar-cruel. Eu era minha pior chefe. Um pesadelo.

Minha Atena, o arquétipo associado à organização, inteligência e à construção obstinada de uma carreira profissional, ficou emburrada, com um beiço que caía no chão. Escrevi um texto sobre isso em 2024, quando tinha começado a viajar. Na ocasião, afirmei: “Houve um tempo em que eu achava lindo repetir: ‘estou trabalhando muito’. Hoje, se alguém me diz isso, sinto um pouco de pena.” Sigo pensando assim. Ainda tenho medo de derrapar em uma curva e encontrar essa Cândida do Velho Testamento me espreitando com olhos aflitos à beira de um burnout.

Com o passar dos meses, porém, o corpo pediu para desacelerar o ritmo das viagens. Voltei a sentir uma coceira, um chamado de alma: mas eu sou ambiciosa, uma voz me dizia. E tá tudo bem ser. Desejo ter bastante dinheiro, criar projetos autorais, fundar uma empresa, escrever, falar sobre o que me move, impactar — nem que um pouquinho — outras pessoas.

E ouvia, dentro de mim, outro sussurro que precisei bancar: quero me transformar no caminho e criar algo autoral de novo. Quero empreender de um estado interno diferente, maduro, mais curioso e aberto para o caminho, com menos pressão sobre o resultado.

Eu sentia a minha intuição cochichando para que algo nascesse através de mim — mas eu queria poder continuar sendo eu durante a jornada. Só que achava isso impossível. Minhas experiências anteriores ainda não tinham sido decantadas. Parecia que eu queria demais. Como assim eu quero empreender, ganhar dinheiro e ainda ser feliz? Na minha cabeça, a conta não fechava. Eu teria que escolher um, no máximo dois desses pontos.

Mas isso é uma mentira tão bem amarrada que desafiá-la é questão de honra para criarmos uma realidade diferente — ainda mais uma realidade conectada ao feminino, aos ciclos e à natureza. É preciso entender que prosperar em todos os sentidos não envolve sacrifício físico, mental e espiritual, mas exige a morte de expectativas infantis e desalinhadas com nossa alma. O sacrifício é da necessidade de aprovação. O sacrifício de que vai ter atalhos para o sucesso (o que é sucesso, em primeiro lugar?). O sacrifício de que precisa ser difícil. O sacrifício de olhar demais para fora e se comparar com referências de um mundo doente.

Meu novo projeto nasce para desafiar o “sempre foi assim”. Desmontar narrativas que nos mantêm aprisionados. Criar um mundo esperançoso, em que enxerguemos saídas e tenhamos vontade de implementá-las, replicá-las, amplificá-las. Entendi que precisava começar por mim.

Onde ainda não sou livre? O que precisa morrer para que a minha verdade mais profunda floresça? Que histórias sobre trabalho eu mesma ainda me conto e não servem mais ao que desejo construir?

Um dos meus maiores medos era me perder, me fundir tanto com aquele projeto que eu não saberia mais onde ele começa e eu termino. Meditei muito sobre isso. Compreendi que minha nova empresa é uma expressão de uma parte minha — uma parte considerável, bonita, que amo —, mas não sou eu inteira. Meu coração está lá, mas minha alma é ainda maior. Até porque nossa essência é gigante, universal, infinita, integrada ao Todo.

Eu sou um pouquinho de todos os projetos autorais que nasceram através de mim, e ao mesmo tempo sou muito, muito, muito mais. Ninguém me vê inteira. Nem eu.

Que alívio e que desespero.

Já na parte final da gestação desse projeto, notei que eu precisava de sustentação, de um novo eixo que continue a enxergar os desafios com prazer.

A palavra que escolhi para representar 2026, seguindo o exemplo da minha amiga Paty Burger, da newsletter Curiosa, foi sustentar. Experimentei e expandi muito nos dois anos anteriores. Agora, o que minha alma anseia é sustentar as experiências e a expansão. Parece fácil, mas é ali que muita gente derrapa.

Então neste equinócio de outono no Hemisfério Sul, levantei da cama com dor nas costas e a coluna travada bem na base que sustenta todo o movimento. O corpo, em sua sabedoria, somatizou o sustento da espinha dorsal. Eu tinha pedido.

A diferença está em conduzir as coisas em diferentes estados internos. De qual lugar coloco as coisas no mundo? Com que sentimento, expectativa, intenção?

Termino este texto sentada em um café de Floripa, ouvindo Caetano Veloso cantar que a vida é Odara. Me sinto em paz e entusiasmada com o que naturalmente quis sair de mim e está no mundo. Estou me divertindo, estou brincando, estou curiosa. A Cândida de 7, a de 70 e a de 31 estão felizes.

Não preciso largar tudo. Posso só mudar a forma de segurar.

A Avitta é um estúdio de storytelling para relembrar mundos possíveis e transformar a relação das pessoas com a Natureza. Como em um templo narrativo, consagramos histórias como se concede uma faixa sagrada — em reverência. Contamos histórias que conectam pessoas e revelam sentidos, conduzindo a travessia em um mundo em transformação.

Servimos ao mundo em três eixos: fabulação de mundos, reportagens regenerativas e voz, conteúdo & reputação para marcas, iniciativas e empreendedores regenerativos.

Estou curiosa para escalar essa montanha e também para descobrir que histórias a Avitta vai me contar. Me vejo como uma elefante começando a subida: antiga, grande, intuitiva, resiliente — e matriarcal.

A Avitta tem uma newsletter para sentarmos em volta da fogueira e relembrarmos histórias! No post abaixo, apresento o estúdio e o conteúdo que vai ser compartilhado nesse espaço gostoso e aconchegante hospedado no Substack. Vamos reimaginar o mundo juntos? Eu e os guias já estamos felizes de te receber por lá.

  • Pausei as assinaturas pagas da Artemísia por um tempo. Agradeço muito — com meu corpo, alma e coração — a todos os assinantes que, neste quase um ano de assinaturas pagas ativadas, apoiaram essa publicação. Vocês são incríveis! Retorno assim que tiver mais claro como oferecer mais benefícios a quem apoia este espaço mágico aqui.

  • Estou muito feliz de estar de volta a Florianópolis, onde fico até final de abril. No mesmo território em que a Avitta começou a ser gestada — há exato um ano —, ela veio ao mundo. Avitta é um estúdio de storytelling multidimensional e intercultural, mas com alma bruxística e conectada à Natureza. Quer território mais mágico que a Ilha da Magia para ela nascer? Avitta é uma menina manezinha <3

Read the original on artemisiavulgaris.substack.com

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