Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Reconvexo - letra de Caetano Veloso
Este é um sonho clássico que já visitou o espaço onírico de quase todas nós: você se vê nua diante de uma multidão. Tenta cobrir as partes íntimas, encontrar peças de roupas que escondam o que você aprendeu a tapar desde que Eva comeu a maçã e cometeu o pecado original que nos condenou a usar roupas. Mas lá você está, desfilando na rua, no salão de beleza, na escola da infância, completamente pelada. Desnuda, exposta, frágil.
Ninguém aponta para você no sonho — a vida alheia segue indiferente à sua exposição forçada —, mas, ainda assim, há vergonha com o que sai do espaço íntimo e brilha à luz. É que você está ali, diante das pessoas, exatamente como veio ao mundo. Sem nenhum auxílio de peças externas para construir uma persona, ou seja, uma espécie de máscara.
Na interpretação junguiana, roupas geralmente se referem a essas máscaras interiores que vestimos para performar diante dos outros. A nudez onírica seria dizer que nos sentimos desprotegidas e expostas diante de uma multidão, sem uma persona que sustente essa nudez psíquica. Ou não. Quando avançamos no caminho de ser quem realmente somos, a vergonha pode ser substituída por outras emoções.
Vai que lá está você, peladíssima, desavergonhada, alegre, travessa. Nesse caso, sua psique aponta outro caminho, com sombras mais integradas. Os caretas que lidem com seu íntimo puro, brilhante, afrontoso, brilhando à luz do meio-dia.
Desde que vivo uma vida mais alinhada à minha alma, passei a temer menos a nudez do meu corpo. O que eu tenho que ninguém mais tem? Definitivamente, não é a pele e os órgãos externos envoltos em pecado pela Igreja.
Me aterroriza mais que vejam o tamanho dos monstros com os quais escolho fazer amizade todos os dias. É a última porteira da intimidade. A luz é proporcional à sombra que ela ilumina, e cada vez mais tenho certeza disso, sobretudo quando conheço pessoas que admiro: descubro que as admiro porque elas sabem controlar a própria cachola, que insiste em voltar a padrões antigos com frequência.
Aquela mesma cachola que corre para vestir máscaras e não sentir vergonha com a nudez.
Esses dias, sonhei que estava nua no banheiro de um aeroporto. Antes de sair da cabine onde eu tinha acabado de fazer xixi — uma limpeza interna de emoções —, eu me preocupava com a travessia no saguão do espaço para alcançar o meu voo.
Não me sentia envergonhada de andar com os seios à mostra entre um monte de gente carregando malas em suas próprias travessias. Preocupava minha cachola os policiais que me prenderiam por atentado ao pudor.
Em dúvidas típicas de final de gestação de um projeto profissional, perguntei ao Tarot qual energia eu deveria encarnar para colocá-lo no mundo. Saiu a Rainha de Ouros. Dei risada, porque o tarot é uma coisa realmente fascinante.
Me pergunto se a Rainha de Ouros está nua diante de uma multidão. Essa farsa coletiva será apontada por uma criança?
De forma concomitante e contraditória — porque coerência se exige só de participante do BBB —, na metade do ano passado comecei a me incomodar com o que exponho à luz nos meus textos da Artemísia e nas minhas redes sociais. Tive a sensação de estar desprotegida e exposta, de ser julgada e mal compreendida. Recebi sinais de ataques energéticos no cotidiano e reduzi minha exposição no Instagram. Poucas pessoas sabiam onde eu estava em tempo real, o meu próximo itinerário, com quem estava me relacionando, a maquiagem do dia (ah, como amo ser uma patricinha de batom vermelho tirando selfies com boa luz, vestindo essa persona afrodisíaca com gosto!).
O último desejo quase consumado há alguns meses foi passar a assinar textos com pseudônimos, borrar as fronteiras entre ficção e realidade e refletir menos, bem menos, sobre os acontecimentos da minha vida.
Voltei ao Rio Grande do Sul no início de fevereiro e, nos primeiros dias, minha mãe — assídua leitora premium desta newsletter —- me perguntou se eu fiquei com muitos caras nos meses fora, divididos entre Alemanha, norte do Brasil, Colômbia e Guatemala.
Minha irmã interveio imediatamente: “É óbvio, mãe!”
“Ué, por que é óbvio?”, ela indagou de volta para nós duas.
“Tu não lê minha newsletter?”, eu perguntei a ela, genuinamente curiosa. Neste acervo de textos há vários romances, quase-algos, sexo casual.
E ela me deu a melhor resposta do mundo: “Sim, mas às vezes não sei se é tudo verdade mesmo.”
A Artemísia nunca foi um diário, é mais um espaço de experimentação viva e interpretação de símbolos, mas tudo o que escrevo parte do meu universo inconsciente — isto é, há minha assinatura energética em tudo o que é publicado. E minha assinatura energética, vejam bem, é meu bem criativo mais importante.
Eu estou aqui. Com os dois pés, todos os dedos e com um cérebro que anseia desvelar. Mesmo que pendurada de cabeça para baixo, observando por outros ângulos, estou aterrada, presente, firme. Vivendo também na escrita.
Então, sim, mãe e caras leitoras, realmente é tudo verdade, se considerarmos que os acontecimentos da Artemísia partem do que já vivi externamente, mas também é tudo ficção porque empacoto lembranças em uma narrativa. E aí a realidade já se desfaz e refaz em outra coisa que não deixa de ser real porque passou pelo meu filtro obcecado por atribuir significados. Ela só é… diferente. Exposta em fragmentos desnudos selecionados.
Minha mãe, sem querer, me ajudou a internalizar (o que é diferente de saber, vejam bem!!!) que a autoficção é ficção. Mesmo nua, estou só parcialmente à mostra aqui, com as partes do corpo devidamente selecionadas e interpretadas. Não há nenhum mistério nem desvio nem quebra de contrato com quem me lê. Faz parte de montar o quebra-cabeças da própria vida.
Topei com um texto muito bonito e certeiro do Lucas Brandão sobre autoficção. Compartilho um trecho:
“Escrever é sempre uma maneira de lembrar. Por isso, também é verdade o contrário: toda autoficção é uma ficção. Porque a memória não é uma câmera. É montagem. É lapso. É interpretação. O que vivemos não chega intacto à página. Chega filtrado, editado, tensionado pela linguagem e pelo tempo. Aquele que escreve sobre si está, na verdade, criando um outro: o eu-narrador.”
Na Artemísia, compartilho fragmentos do meu corpo interno nu, como se estivessem espalhados em molduras, em páginas de um livro que compila a Magnum Opus alquímica dos meus processos interiores.
Aqui tem um fragmento do meu seio, para nutrir escritos, outras vidas, a mim mesma. Aqui tem um do meu umbigo — ah, sim, a gente que escreve na primeira pessoa às vezes exagera nessa parte aí… Aqui tem um dos meus olhos, para que outras mulheres vejam como eu vejo, ou tentem ver a forma pela qual o vento passa por mim. Aqui tem um da minha orelha, que já ouviu muita coisa que teve que sair pela outra deliberadamente. Aqui tem dos meus joelhos, que coleciona cicatrizes e hematomas cuja origem desconheço. Aqui tem outro da pelezinha que arranco entre as unhas de tanta ansiedade, ó. Ah, sim, e aqui também tem das minhas coxas entrelaças em um quadril masculino, já que até sobre sexo escrevo.
São fragmentos, mas sou eu, moldada em várias eu-narradoras que também são a mesma pessoa.
Diante de tanta exposição que me deixava incômoda, ano passado também encontrei outra solução para me proteger — e ela envolve bruxaria.
Enfeitiço, protejo, intenciono e confio. Que as palavras digitadas neste papel digital encontrem quem precisa recebê-las. Assim é, e assim se faz.
Você nem me vê, careta, passei raspando e só ficou uma visão de relance. Voltei para as brumas da floresta, que é onde minha Ártemis pertence.
Mas como explicar que esse mesmo relance foi inteira e vulnerável e nua?
Enquanto se constrói um projeto importante para a gente e se lida com a exposição profissional, como conciliar esses fragmentos, como proteger a intimidade, como entender que há personas — mas que, mesmo sendo personas, eu escolhi as máscaras, o batom, as roupas, a cor das unhas? Eu também sou essa versão aí, que culmina nas várias que sou.
Talvez a solução seja ficar em paz com a possibilidade de ser mal interpretada. Porque todo olhar externo é um olhar externo que passou de raspão — e mesmo sua leitura agora, neste texto, é sua, somente sua, carregando vivências e pensamentos que jamais poderei alcançar. Ainda assim, por algum motivo, você escolheu percorrer seus olhos aqui, dedicar seu tempo para ler essas palavras. Eu, que amo romantizar a vida e sou bruxa, gosto de pensar que elas tinham que te alcançar, e isso é suficiente.
Sim, há fragmentos do meu corpo exposto à luz do meio-dia, e a criança que mora em mim já apontou a minha nudez dando gargalhadas. Nem precisamos mais fingir que estou usando o manto real. (Só vamos torcer para que eu não seja presa na travessia do saguão do aeroporto, porque quero muito pegar aquele voo ao próximo destino.)
Se você gostou deste texto, que tal compartilhá-lo com mais pessoas?
Sou jornalista, escritora, bruxa e experimentadora da Vida — com vê maiúsculo. Faz um tempo que não tenho CEP fixo e viajo com duas mochilas pelo mundo. Na Artemísia, compartilho minhas aventuras e reflexões sobre como gozar uma vida autêntica e criativa por meio de símbolos, sonhos, mediunidade e movimento. Sou um tanto obcecada por símbolos e suas interpretações mitológicas e ancestrais. Meio que acho que tudo se conecta de alguma forma e, quanto mais aprendo sobre, mais vontade de seguir mergulhando na linguagem do Inconsciente eu tenho.
Também gosto de dizer que sou comprometida em ser tudo que vim ser. Um trabalho interno e tanto que leva uma vida, né? Então tá. :)
Esta newsletter está hospedada no Substack, o que significa que, se você gostou, pode se inscrever para recebê-la direto na sua caixa de entrada.
Também vou adorar saber como esse texto ressoou por aí. Se quiser me contar, fique à vontade para responder a este e-mail, caso o esteja lendo na sua caixa de entrada, ou utilizar a seção de comentários do Subs.
Até a próxima edição!

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.