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Artemísia · Apr 2, 2026

96. De lua

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Cândida Schaedler · Artemísia

Diana Resting, Auger Lucas (1685 - 1785)

Sin, em acadiano — considerada a língua mais antiga da região que contempla a antiga Mesopotâmia — significa Deusa da Lua. Originalmente, sin também se referia à Lua Nova, a lua por excelência da menstruação das mulheres, que inaugura um novo ciclo nesses 28 dias de Vida-Morte-Vida. Lua Nova é começo, é noite escura, mas é luz voltando aos poucos no céu. Minguamos e renascemos.

Em inglês, sin passou a designar a palavra “pecado”. E isso muda tudo (já diria o ChatGPT).

Sou tantas em 28 dias que preciso me reconhecer a cada mudança de fase. Pecadora, cometendo o delito culposo de ser de lua. Mais do que um satélite que encanta, inspira musas e brilha no céu em noites estreladas e sem nuvens, a lua rege as minhas próprias marés. As nossas marés — coletivas, femininas, emocionais. E para não me afogar dependendo da fase do ciclo, preciso lembrar de deixar o repuxo me trazer para a margem.

Canceriana, guiada por Ártemis – e guardada por Hécate. Seguro o bastão ou o arco e a flecha, ergo a cabeça e às vezes também choro pensando que ninguém me ama. 8 ou 80: depende da fase do ciclo.

Cresce cresce cresce desejo vontade força de ação foco. Me sinto ativa invencível gata gostosa imparável. Vou à praia limpo a casa saio com amigas produzo textos respondo mensagens fico laranja amarela dourada brilhante. Descanso inspirada aceito ciclos tenho certeza que a vida é linda e que nada nada nada pode nos deter.

Queria que o mês todo fosse assim mas quando tô engatando a marcha chega outra onda dessa vez de tesão.

Não sei mais onde enfiar o meu tesão, siririca não dá conta, homem sem camisa na rua bate mais forte o coração, preciso respirar devagar na academia. Acho que virei um perigo à ordem social e aos bons costumes. Não raciocino mais com o cérebro. Me sinto selvagem.

Tipo assim

A luz diminui e o tesão vira raiva, preguiça e recolhimento. Sou mansa, mas sei me defender. Exceto em alguns dias do mês, quando desejo rosnar para qualquer pessoa. Qualquer. Pessoa.

A Serafina é a gata da minha vizinha aqui em Florianópolis. Esses dias, a vi dormindo em meio a ora-pro-nóbis e manjericões plantados na horta da Salette.

Ou melhor: a Serafina me viu.

O olhar de ódio e desprezo que aquela felina me dirigiu era exatamente o olhar que eu queria pousar na cara de qualquer pessoa naquele dia em que o endométrio se preparava para descamar das minhas paredes uterinas.

Eu queria ser uma mulher insuportável em paz na TPM, mas ainda abraço a culpa de não ser mais tão produtiva na fase lútea, nem desejar sair com todo mundo que manda mensagem.

Choro em posição fetal na cama. Começo a pensar que não só ninguém me ama, como ninguém nunca me amou. Me sinto feia, burra, incompetente, perdida. Questiono cada micro-decisão atual, passada e futura. A vida perde o sentido. Nunca fiz nada certo.

Necessito relembrar que não posso confiar nos meus pensamentos quando estou nessa fase do ciclo. Tenho só que deixar morrer.

Se Deus descansou após a criação,
a Deusa descansa na menstruação.

Pecadora.

Escorre o sangue e dou um sorriso. Lua Cheia no céu. Lua Nova em mim.

  • Estou bem contente com o lançamento da Avitta, meu estúdio de storytelling. Falei mais sobre o trabalho interno de sustentar um projeto autoral sem se perder de si mesma na última edição da Artemísia, que deixo ao final desta edição.

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  • Estou fascinada por entender mais sobre deusas antigas, sacerdotisas, Madalena e histórias do feminino. É uma obsessão que tem me mantido bastante ocupada com leituras e ideias nas últimas semanas. :)

  • Li o novo livro do Dan Brown, O Segredo Final, e recomendo bastante! Ele traz informações preciosas e pesquisas recentes sobre consciência não local e sobre o que acontece após a morte — tudo em meio a um suspense que te prende. Impossível largar.

Sou jornalista, escritora, bruxa e experimentadora da Vidacom vê maiúsculo. Faz um tempo que não tenho CEP fixo e viajo com duas mochilas pelo mundo. Na Artemísia, compartilho minhas aventuras e reflexões sobre como gozar uma Vida autêntica e criativa por meio de símbolos, sonhos, mediunidade e movimento. Sou um tanto obcecada por símbolos e suas interpretações mitológicas e ancestrais. Meio que acho que tudo se conecta de alguma forma e, quanto mais aprendo sobre, mais vontade de seguir mergulhando na linguagem do Inconsciente eu tenho.

Também gosto de dizer que sou comprometida em ser tudo que vim ser. Um trabalho interno e tanto que leva uma vida, né? Então tá. :)

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