Lendo
É a minha segunda rodada de amamentação. No começo, preciso das duas mãos — e, se duvidar, de um par emprestado também — para posicionar o bebê, segurar o peito e achar uma postura em que não fique corcunda demais. Algumas semanas depois, consigo completar o serviço com apenas uma mão. Mais algum tempo e já consigo ler enquanto amamento, virando as páginas com os pés se duvidar.
Foi nessas condições que li A história secreta, de Donna Tartt. Escolhi o livro por duas razões. Primeiro, que fosse um livro que eu já tivesse em casa, porque mãe recente não precisa de mais gastos ou tralha. Comprei um exemplar numa seção de consumismo terapêutico alguns anos atrás, vagamente ciente da trama, apenas por saber que ele tem um público devotado. Segundo, que fosse um page turner, porque precisava de uma leitura que resistisse a interrupções e cansaço. As palavras “New York Times Bestseller” na capa pareciam uma boa indicação.
A história secreta tem os pés bem fincados em dois gêneros: o romance de campus e o romance de mistério e assassinato. (Às vezes me pergunto se eu que estou ficando mais analfabeta em português depois de quase dez anos morando fora, ou se campus novel e murder mystery de fato soam melhor.) O enredo se passa numa universidade dos Estados Unidos, onde um grupo de alunos pretensiosos e geniais, estudantes dos clássicos, forma um pequeno culto em torno de um professor de grego antigo. O livro abre com a morte de um deles e, naturalmente, toda a história conta como eles chegaram a esse ponto e o que aconteceu com suas vidas em seguida. Além do novelão, é um romance que também se sustenta pela atmosfera. A história secreta deu origem ao termo dark academia, que hoje é emprestado para designar também roupinhas de estudante noir e móveis com cara de universidade gótica.
Acho que Donna Tartt faz um excelente trabalho no que o prêmio Jabuti talvez classificasse como romance de entretenimento: enredo, enredo, enredo. E, mesmo quando a trama começa a arrastar um pouco, vibes. Um romance de entretenimento é aquele no qual é gostoso morar provisoriamente; é um truque no qual é agradável cair. O narrador da história de Tartt é um outsider que se apaixona pelo professor de grego e seu círculo de alunos, e ele enreda o leitor nesse fascínio a tal ponto que, como ele, damos o benefício da dúvida para comportamentos objetivamente monstruosos. Se há um tema subjacente ao romance, eu diria que é esse: pessoas inteligentes têm o potencial de ser também máquinas muito eficientes de autojustificativa; certas pessoas talentosas são excepcionalmente hábeis também em achar motivos para a própria monstruosidade.
Escrevendo
Em paralelo, estou também escrevendo um romance, então acabo pensando na técnica por trás do resultado final.
Embora todo mundo comece a ler na base dos novelões, ou dos romances de entretenimento, com o tempo temos a tendência de nos aproximar do chamado romance literário, com menos enredo e mais invencionices de forma. O meu próprio romance tem uma estrutura inspirada na minha admiração por The Netanyahus, de Joshua Cohen, que inventou de enfiar tanta informação de interesse limitado no livro que, apesar de ter levado um Pulitzer de ficção, não tem tradução para o português.
The Netanyahus é um romance híbrido: tem algum enredo, mas também é sátira política, um pouco de ensaio e um tanto de falsa historiografia. Se eu fosse escrever o livro da Donna Tartt, a coceira que acomete The Netanyahus seria forte demais em mim, e eu cederia à tentação de enfiar no romance um semiensaio sobre As Bacantes ou outra exibição explícita de cultura grega. Vejo romances nacionais que parecem com frequência ceder a essa coceira, quebrando a narração até com resenhas inteirinhas de livros ou filmes.
Histórias como a de Donna Tartt dão certa humildade para quem cede demais à coçadinha do romance literário, da estrutura inovadora, da invencionice na forma — ou mesmo de aventuras menos radicais, como um personagem central ou narrador pouco simpático. Meu querido The Netanyahus funciona, entre outras coisas, porque é curto. Ninguém quer morar por muitos dias dentro de uma sátira. Já A história secreta são quinhentas páginas de fôlego: fôlego de escrita, fôlego para carregar a atenção do leitor e fôlego para construir uma narração que se sustente sem muitas estripulias. Ou melhor: é uma estripulia mais enredada, porque Tartt não enfia no livro um semiensaio sobre os gregos, mas faz dos próprios personagens um eco de certas tragédias.
Meu desafio de retomar esta newsletter e terminar a primeira versão do romance pertence ao universo do fôlego. É um eterno “continue a nadar, continue a nadar”: as coisas são mais fáceis quando já estão em movimento. É só inventar de fazer muitas quebras que a gente perde o leitor ou, pior, perde a si mesmo.
Outros
A experiência materna é penar para colocar os filhos para dormir e depois relaxar no sofá vendo videozinho das crianças. Da mesma forma, esses dias deixei minhas crianças rechonchudas em casa para ver os bebês Jesus de Raphael no Metropolitan Museum.
Os blockbusters da exposição Raphael: Sublime Poetry eram os quadros de mommy Mary and baby Jesus, mas gostei especialmente de uma invencionice que os curadores deixaram na curva antes da saída: como numa história em quadrinhos, o apóstolo Paulo dá um soco que rompe os limites da moldura.
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