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A Diletante · Aug 16, 2026

Trabalho de parto

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Ariela K. · A Diletante

— Oi, eu tenho uma indução marcada para as cinco da manhã — falou a grávida de Taubaté.

A grávida de Taubaté era eu.

Minha barriga estava no percentil 99. A ciência diz que a gravidez muda o cérebro da gente. O corpo se prepara para as atividades de cuidado e já abre mão de certas sinapses consideradas dispensáveis. O meu, abençoado seja em sua sabedoria, não esperou a gestação para descartar as de Estatística I. Precisei que alguém me lembrasse: percentil 99 significa que a minha barriga era maior que a de 99% das grávidas no mesmo estágio da gestação. Não existe percentil 100: é uma impossibilidade estatística. Para todos os efeitos, portanto, a barriga que encostei no balcão da recepção de obstetrícia do Mount Sinai West, poucos minutos antes das cinco da manhã, era a maior barriga do mundo.

Duas mulheres me olharam com cara de fim de turno da madrugada. A da direita tinha cabelo curto e um broche de arco-íris. Não disse uma palavra. A da esquerda puxou uma prancheta e falou com sotaque do Bronx:

— É melhor você sentar. Aqui estão os formulários de admissão.

*

A memória da minha figura ridiculamente grávida nunca mais vai cruzar a consciência dessas recepcionistas. A da esquerda não vai chegar em casa e, antes de despachar os filhos para a escola, contar da maior barriga do mundo. A da direita, a caminho do metrô, talvez mande uma mensagem para a companheira, colocando o atraso na conta da paciente que levou meia hora para preencher a papelada. Eu, por minha vez, escrevo-as para não esquecê-las. Cruzei as portas daquela recepção decidida a gravar a memória daquele dia em sangue e em palavras.

Não esquecer: as rodinhas da mala vermelha eram o único som no corredor até a porta com interfone.

Não esquecer: a porta se abriu para uma sala de espera que o nascer do sol tingia de laranja, a luz natural banhando as flores de mentira.

Não esquecer: a enfermeira Tammy veio me buscar às sete horas, e o horário das cinco era uma grande piada.

*

Tammy era uma asiática com cara de quem seguia uma rotina de skincare de sete etapas. Também estava em fim de turno — por isso não escreveria seu nome no quadro branco em frente à cama, explicou —, mas ainda assim parecia imaculada como uma catedral. Eu, que acabara de chegar, já estava com o vestido amarrotado. Fiquei imaginando o que alguém tão propaganda de sabão em pó fazia no ramo dos fluidos corporais. Senti certo alívio ao saber que, ao menos comigo, ela não faria o trabalho pesado.

Era impossível não simpatizar com a Tammy. Ela me explicava o procedimento padrão com a desenvoltura de quem seguia o conselho de fake it until you make it. É uma profissão estranha mesmo, dava vontade de dizer. Você acaba de conhecer a pessoa e, de repente, está ao lado dela num dos momentos mais importantes da vida, enquanto ela veste uma camisola aberta nas costas. Você está indo bem, Tammy. Veja bem, eu mesma só estou fazendo isso pela segunda vez.

O quarto parecia idêntico ao de dois anos atrás, exceto pelo véu da lembrança agora levantado. Com a minha primeira filha, cheguei de noite e com contrações ritmadas. O lugar tinha o romantismo do escuro e das coisas inéditas, além da urgência da dor. Quando Tammy saiu do quarto — estaria aliviada? —, olhei ao redor sob a claridade da manhã.

Não lembrava: do papel de parede florido nas bordas, relíquia de décadas passadas.

Não lembrava: das paredes tão cobertas por fios e engenhocas.

Não lembrava: de ter lido cada placa com o descritivo das possíveis emergências médicas e seu alerta apropriado.

*

— Você não está tomando essa água de coco, está? — disparou a nova enfermeira assim que entrou no quarto.

Eu estava tomando a água de coco. E comendo uns pistaches.

Ela colou o próprio nome no quadro branco: Francesca. Tinha uma tatuagem de melancia no braço esquerdo e uma coleção delas no braço direito, que ela mexia rápido demais para que eu distinguisse as formas. Lançou um último olhar para a estação clandestina de lanchinhos ao meu lado.

Para começar, a regra é não comer em trabalho de parto. Deus me livre você acabar numa cesárea de emergência e ser sorteada entre um milhão de grávidas para aspirar o conteúdo do estômago e morrer antes da troca de enfermagem. Para completar, tinha desenvolvido diabetes gestacional. Está lá no rótulo: esse negócio é água com açúcar.

Para o caso de eu já estar com fome, porém, a Francesca me deu uma piscadela e foi ver o que podia providenciar. Voltou com a bandeja da dieta pastosa: sopa e gelatina. Fiquei tão grata que comi com gosto o melhor caldo de hospital do mundo.

Nossa intimidade passageira foi construída à base de segredinhos. A obstetrícia é uma especialidade de poucas sutilezas, e a indução de parto começa inflando uma bola de água dentro de você para forçar a dilatação. Quando o processo acaba, a bola sai. A minha saiu, e Francesca disse que aquilo ficaria entre nós pela próxima meia hora, para os médicos não se animarem a logo furar a bolsa.

— Agora é hora de medir sua glicose — falou, e temi pela água de coco e pelo pistache que de forma alguma tinha tocado.

O resultado veio nas alturas. Francesca tinha me dado gelatina com açúcar.

— Não se preocupa, vou pedir para os médicos desconsiderarem essa medição.

*

Kate, nossa doula, só chega quando o trabalho de parto já está consolidado. A poucas quadras do hospital, ela me manda uma mensagem perguntando se queremos algo da rua. Quem sabe um lanche? Foi dela que tirei a ideia de que jejum é uma prática antiquada.

Ela aparece com jaqueta jeans e regata branca. Depois do meu primeiro parto, alimentei a pequena ilusão de que Kate e eu poderíamos ser amigas, apesar de ela ter uma filha com nome de fruta e morar nos confins do Brooklyn. Kate chegou quando a moral já estava prejudicada por horas de espera e tédio — até que a dilatação se complete e atinjamos o grand finale, há muito tédio e espera.

— Se você vai tomar só caldo, vamos pelo menos pedir um bom. — Ela me deu o aplicativo do celular aberto no restaurante de que gosta.

Kate joga cartas conosco e ganha sem dificuldade. Ela força uma amizade com Francesca até que ela traga as bolas certas de yoga para os movimentos de trabalho de parto. Por algum motivo, insiste em me dar água na boca num copo com canudo, e eu não reclamo. Kate pergunta se eu quero uma massagem nos pés. Nossa amizade seria impossível, pois Kate na verdade é um anjo.

*

Quando estão prestes a enfiar uma agulha nas suas costas, será melhor uma competência silenciosa ou uma engraçadinha de plantão? Nossa preferência não faz diferença. A gravidez é uma lição de humildade diante das forças do destino.

— E a Rihanna, hein? Vai parar de embuchar e gravar outra música? — a anestesista direcionou a pergunta a mim, como se eu tivesse escolhido a trilha sonora, como se tivesse percebido o que estava tocando ou como se fosse sincronizar o Bluetooth nessas circunstâncias.

Durante a anestesia, as doulas são gentilmente mostradas à porta. Restava apenas o meu marido para a conversa mole. Apertei os olhos e me mantive quieta. Francesca me estendeu a mão e apertou.

Para esquecer: a anestesista pediu que eu pressionasse o corpo para trás, e foi como se um botão de plástico tivesse se instalado entre as minhas vértebras.

Para esquecer: a tagarela decidiu ficar em silêncio.

Para esquecer: é como se um fio de água gelada escorresse pelas costas.

Rihanna sabe o que é ter filho. When you hold me, I’m alive, we are like diamonds in the sky.

*

Dra. Mobin estava sempre me vendo pela primeira vez. Virou piada interna entre eu e meu marido. O que ela não tem de memória, compensa com educação, então está sempre se apresentando.

Hi, I’m Dr. Mobin — ela disse dois anos atrás, quando passou visita no quarto, algumas horas depois de ter feito o parto da minha primeira filha.

Dra. Mobin é uma indiana tímida que fala rápido, como quem quer se desincumbir das palavras. Não sei se, para ela, eu e minhas partes íntimas temos aspecto de qualquer coisa, ou se ela presume que ninguém vai lembrar da médica da hora. Dois anos e pouco depois, era novamente ela de plantão — um bom presságio.

Hi, I’m Dr. Mobin — ela entrou para estourar a minha bolsa e medir a dilatação.

Perguntou se era meu primeiro. Ri por dentro e senti muita afeição pela Dra. Mobin. Não, doutora, foi você quem fez o parto da primeira. Ah, e como foi? Empurrei o bebê por só dez minutos. Maravilha, agora vamos fazer em cinco. Tirou as luvas e foi embora.

*

Chegar ao hospital já em trabalho de parto é o clímax de uma história que já começou faz algumas horas. Uma indução é o filme todo, da ambientação no começo até a apoteose do final, incluindo o enredo que se arrasta na metade. Fico por infinitas horas na metade.

A ocitocina pinga na bolsa de soro. Francesca pica meu dedo a cada hora para medir a glicose. Kate acompanha as contrações pelo monitor e me muda de posição a cada vinte minutos, para que o trabalho de parto siga nos conformes. Já é madrugada.

Dra. Mobin volta para ver a minha dilatação, e não sei de qual das minhas três personagens vem a brilhante ideia de tentar uma posição criativa na cama, para ver se a história engata. Kate está toda feliz com o trabalho da anestesista, que aliviou a dor sem me tirar completamente os movimentos das pernas, então algo me diz que é a culpada.

Mesmo parturiente tem dignidade, então me pouparei da descrição da pose. Com as minhas pernas de elefante, Dra. Mobin, Francesca e Kate empreendem um trabalho de vários minutos para me colocar numa posição de yoga com nome de animal em atividade, apenas para ver os batimentos cardíacos do bebê despencarem no monitor. Bebê Leon protegeu a mamãe de continuar no ridículo, mas agora estou enrolada. As três têm que correr para me tirar dessa posição e me desatar do centro de um nó formado por fio de soro, medidor de batimento, monitor de pressão e, se duvidar, sonda urinária.

*

Parturiente não tem mais dignidade. Cinco horas é ainda madrugada ou já de manhã? Há controvérsias. De qualquer forma, passaram-se vinte e quatro horas.

Fiquei um bom tempo sem medir a dilatação, na esperança de que a próxima notícia fosse a dos dez centímetros, mas perdi a paciência. Dra. Mobin está ocupada numa cesárea não planejada. Peço que Francesca, antes de ir embora, me arranje um residente para ver a quantas andam as coisas nas minhas partes baixas.

Bate à porta um tal de Joe, um homem de três metros, barba e bigode. Penso que deveriam perguntar minha preferência por Joes na papelada de admissão e, por um momento, considero expulsá-lo desse trabalho feminino. Mas, quer saber?, para o inferno com os meus pudores: daqui a pouco meu próprio portador de pipi será apresentado ao mundo pelas vias normais.

Joe mede nove centímetros e meio. Close enough. Amo esse homem.

*

Tammy viveu um dia inteirinho enquanto eu não saí do lugar. Ela chegou a um apartamento de quinto andar no Queens, sem escadas, e alimentou um cão adotado. Adormeceu depois de meia hora rolando conteúdo de clean girl no Instagram. Quando acordou, desencavou um bibimbap da geladeira e saiu para uma corrida. Ou um treino funcional? Não sei o que clean girls fazem, porque eu mesma tinha a coroa de uma cabeça prestes a aparecer por entre as pernas.

Era o turno da Tammy outra vez. Ela disse que estava feliz de estar de volta para o parto e eu, que não sou boba, acreditei. Tammy se pôs a preparar o quarto. Em breve, uma minúscula multidão de médicos, residentes e enfermeiras apareceria para o ato final.

Nunca acreditei nisso no meu coração, mas meu parto tecnicamente era de risco. Tammy tinha seus truques. Dos cantos do quarto, ela tirava utensílios que lembravam que as instruções de “emergência médica” na parede não estavam lá para cumprir tabela. Do corredor, saiu um carrinho com instrumentos metálicos, talvez um fórceps. De baixo da cama, ela puxou dois banquinhos, caso os médicos precisassem de um ângulo diferente de intervenção. Na caminha aguardando para receber um bebê quase grande demais, ela aninhou um teste de glicose.

*

Nunca vou esquecer: Dra. Mobin disse que era a hora de empurrar, e já tinham me avisado para não ficar assustada, porque meia dúzia de médicos e enfermeiras extras entraram para o caso de necessidade.

Nunca vou esquecer: a sensação do bebê passando pelo canal vaginal, um pouco alienígena, diferente de qualquer outra coisa — primeiro aos poucos, depois tudo de uma vez.

Nunca esquecer: como previu a médica, tudo acabou em cinco minutos.

*

Era uma quinta-feira de trabalho no hospital Mount Sinai West. A Dra. Mobin, no intervalo em que ainda lembrava quem eu era, brincou:

— Te vejo em dois anos?

— Não, Dra. Mobin. Agora acho que é a última vez que a gente se encontra.

Autor anônimo, escola francesa, cerca de 1800

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