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A Diletante · Jul 25, 2026

Odisseu no zeitgeist

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Ariela K. · A Diletante

A seu devido tempo, todos nos confrontamos com os grandes dilemas da humanidade. Chicken or pasta? Ser feliz ou ter razão? Contar uma história cheia de nuances ou garantir que qualquer espectador com um balde de pipoca capture a mensagem? Quando o seu filme custou 250 milhões de dólares, os dilemas da humanidade têm uma resposta óbvia: a mensagem vai goela abaixo.

“A Odisseia” de Christopher Nolan retrata um herói de guerra atormentado. Odisseu volta da Guerra de Troia culpado pela destruição que causou e traumatizado pelos percalços do retorno. Logo nos primeiros minutos, nos é enunciada claramente a lei de Zeus, que Odisseu deixou em frangalhos: “Trate os outros como gostaria de ser tratado, pois qualquer um pode ser um deus sob disfarce”. Como alguns comentaristas notaram, trata-se de uma sobreposição da moralidade cristã ao mito grego: “faça aos outros o que gostaria que fizessem com você” é a Regra de Ouro do Novo Testamento, e a possibilidade de que qualquer um seja Atenas encarnada corresponde a ideia bíblica de que todo ser humano é feito à imagem e semelhança divinas. Os gregos venceram os troianos de forma desonrosa, através do ardil do cavalo, e agora Odisseu tem a memória de uma trojana assassinada, à guisa de Atena, como amiga imaginária.

Há uma modalidade de crítica a adaptações que corresponde a um jogo dos sete erros. Nessas duas imagens semelhantes, onde estão os detalhes traiçoeiros? Onde Nolan não fez jus ao mito? Onde o traiu? Foi uma escorregadinha ou um erro de leitura fundamental? A fidedignidade é uma expectativa razoável para adaptações contemporâneas. O espectador de Harry Potter não quer uma nova visão do livro, mas uma transposição da história de um meio para o outro. Trata-se do prazer de ver a imaginação silenciosa transformada em estrelas de cinema, trilha sonora e efeitos especiais. Já a adaptação de uma das narrativas mais famosas do mundo, uma veterana de três mil anos, se justifica justamente pelas alterações que o autor se propõe a fazer. A pergunta que Nolan tem que responder, além de “como conseguir 250 milhões de dólares de volta?”, é “por que contar essa história de novo?”. Por que contá-la agora? As infidelidades revelam a resposta.

No épico grego, o fim da guerra representa o retorno à ordem. Uma outra cultura antiga resume metade de suas festividade a “eles tentaram nos matar, mas nós sobrevivemos. Vamos comer!” Já os velhos gregos gostavam do arco “nos degladiamos, mas agora chega. Vida que segue.” Na Oresteia, pai sacrifica filha, mulher mata marido e filho mata mãe, mas tudo tem limites e no final a vingança é substituída pela lei. A Odisseia de Homero segue a mesma lógica. Odisseu retorna para casa e massacra todos os homens que tentavam lhe tomar a esposa. Os familiares dos mortos então juram vingança e se ameaça a continuação do ciclo de violência. Os deuses, porém, fazem o papel de “deixa disso” e Odisseu retoma trono e família em paz. Depois da guerra, o mundo volta aos conformes.

Os gregos habitavam alternadamente os dois mundos: da guerra e da calma, da eclosão da violência e do retorno à ordem, da Ilíada e da Odisseia. O mais grego dos livros hebraicos, o Eclesiastes, elabora essa alternância como o desenho natural da vida:

Tudo tem a sua estação, e há um momento para cada propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer e tempo de morrer.
Tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado.
Tempo de matar e tempo de curar.

Tempo de amar e tempo de odiar.
Tempo de guerra e tempo de paz.

A sombra não contamina a luz; o guerreiro, uma vez baixada a lança, não se martiriza pelos mortos. Esse é o oposto do Odisseu de Nolan, um general culpado. Como observa Emily Wilson, o Odisseu interpretado por Matt Damon, diferente do mito, é desinteressado pelo ideal de glória. Nada contrabalança seu tormento. Na principal modernização proposta por Nolan, a paz que se segue à guerra é um estado corrompido. A guerra não foi um intervalo de brutalidade que depois é interrompido e superado; sua vileza altera em definitivo a ordem do mundo. A vida não continua como antes; a batalha que se ganha ignorando as regras do jogo destrói a civilização.

Num outro momento em que Nolan presume uma audiência de maus entendedores, um personagem enuncia que a guerra de Troia ocasionou o fim da Era do Bronze. Mesmo após a vitória, as cidades gregas vivem com medo dos “povos do mar”, invasores sem regras e sem escrúpulos. Esses forasteiros continuariam a deslealdade da guerra e ameaçariam os reinos gregos. Depois de três horas vendo Odisseu navegar de ilha a ilha, Matt Damon tem a sacada: os povos do mar não vem de fora; nós somos os povos do mar. Ou, como o trecho do Bhagavad Gita que Nolan anteriormente colocou na boca de J. Robert Oppenheimer: “Agora tornei-me a Morte, o destruidor de mundos”.

“A Odisseia” e “Oppenheimer” formam um díptico. Ambos contam a história de homens que, ao realizar seus maiores feitos, libertam um mal permanente no mundo. Oppenheimer ganha a guerra para os Aliados mas solta as forças nucleares na História; Odisseu ganha a guerra para os gregos mas destrói as bases de sua civilização. Colocados lado a lado, porém, a representação de Oppenheimer parece mais detalhada, enquanto Odisseu é definido apenas pela culpa.

“A Odisseia” bateu 425 milhões de dólares de bilheteria na primeira semana. Esse montante diz algumas coisas. Ele diz que, não importa as objeções da classe opinante, se você escreve para vender, convém colocar na boca de Helena a frase “Troia na verdade não foi invadida em nome da minha honra, mas para abrir rotas comerciais”. Diz que, apesar das infidelidades, Nolan conseguiu transmitir o fascínio de uma das histórias de ação mais antigas do mundo. E diz também que, justamente por causa das infidelidades, ele captura algo do espírito do tempo.

A mensagem que reverbera hoje é a má nova do mundo quebrado. À direita, é forte
a noção de uma era de ouro de valores perdidos, substituída pelo tipo de confusão moral que escala Elliot Page como guerreiro de Tróia. À esquerda, fala-se de “capitalismo tardio” como um fruto próximo a cair de podre, embora haja evidências controversas do adiantado da hora. Mesmo no atual ambiente fraturado há, porém, um consenso, um consenso que se espera que fature um bilhão de dólares: a ordem foi corrompida, e somos nós os culpados.

Ithaca, de Julian Schnabel (1983)

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Read the original on arielak.substack.com

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