Penso que estamos todos a tentar acomodar a ideia de que, um dia destes, a maior parte de nós, deixará de trabalhar. Ou, pelo menos, que o nosso trabalho deixará de ter um valor monetário associado. Que é como quem diz: ninguém nos vai pagar pelo que fazemos.
A inteligência artificial está acelerar despedimentos em massa e continuará a ganhar ímpeto até usurpar quase todos os ofícios efetuados com recurso a um dispositivo digital. Na grande maioria dos casos, os resultados serão “bons” o suficiente e não haverá necessidade de recorrer a humanos — imprevisíveis. Depois, o reduto do trabalho manual também será tomado pelos humanóides dos oligarcas da tecnologia. Robôs farão primeiramente todo o trabalho perigoso, monótono e previsível, vindo depois a era dos sucessivos updates, onde estas maquinetas também ganharam a capacidade de executar tarefas mais elaboradas e “criativas”.
Caso os estados não tributem adequadamente estas empresas megalodonte, para financiar alguma espécie de rendimento básico universal, testemunharemos índices de pobreza monetária e vocacional sem precedentes.
O trabalho dá às pessoas dinheiro e significado. Pelo menos será uma espécie de antídoto para o ócio e para a preguiça, prevenindo o nosso definhamento.
Mesmo que acreditemos na ideia ingénua de que as máquinas nos vão sustentar e que todos vamos finalmente cantar, de mãos dadas, a “Imagine” do John Lennon, o que vamos fazer com o nosso tempo livre? A que é que, estas bestas domesticadas, que já provaram da árvore da ganância e do prazer, se irão entregar com tanto tempo livre?
Em 1996, o computador Deep Blue, conseguiu a proeza de bater, numa partida de xadrez, Kasparov, o melhor jogador da altura. Hoje, inteligências artificiais como AlphaZero ou Leela, jogam incrivelmente melhor do que qualquer jogador humano, no entanto ninguém tem interesse em ver estas máquinas a jogar.
Imaginem o mundial de futebol onde em vez de jogadores teríamos máquinas a competir (e por máquinas não me estou a referir a Messi ou Ronaldo). Não suscita interesse. Da mesma maneira que não temos o menor interesse em assistir a um concerto de um holograma a cantar sobre os seus desgostos amorosos.
A arte e o desporto, pressupõem a falha humana. De maneiras distintas, mas semelhantes, atletas e artistas confrontam-se com os seus limites e encetam histórias de falhanço e superação. No limiar do erro, da falha e do pecado, evidenciam-se os contornos do humano, inimitável por fluxos de bits, infalíveis nos seus propósitos.

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