“…quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar e, já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto, que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles.”
Padre António Vieira, Sermão de Santo António
É costumeiro da tradição profética o profeta realizar atos insólitos, absurdos até, para tentar capturar a atenção das consciências absortas e cauterizadas. Isaías andou nu e descalço durante três anos. Jeremias caminhava com uma canga nas costas. Oseias casou-se com uma prostituta. Ezequiel cozinhou em cima de fezes. João Batista vivia à margem da sociedade, vestia-se com peles de animais e alimentava-se de insetos.
Consta que Santo António, em França, diante da renitência dos hereges, decidiu pregar aos peixes. E, na mesma senda, o Padre António Vieira dirige um sermão aos peixes, pedindo ao restante auditório que se retire.
Como diz Tomáš Halík, a tarefa do profeta não é predizer o futuro mas interpretar o presente. O profeta encarna uma metáfora do tempo presente. Que comportamento deveriam os profetas de hoje encarnar?
Tenho várias coisas que quero partilhar, mas não tenho tempo para as apresentar de uma forma cuidada, como um texto requer. Então, decidi criar uma outra plataforma para apresentar algumas ideias que vou tendo, e lendo, e ouvindo, num formato mais acessível e simples de criar.
Acho muita graça à ideia de falar para peixes, porque as pessoas não prestam atenção ao que se diz. Por um lado, há uma satirização da nossa dureza de coração, por outro, um apelo às avessas, pois, se sou excluído do sermão, então já me suscita interesse.
Ao mesmo tempo, assumo desde logo que não tenho grandes pretensões de audiência.
Depois, há mais um aspeto interessante. O tema do peixe é muito rico na história do Cristianismo. Os primeiros Cristãos, em plena perseguição, identificavam-se com símbolos secretos que remetiam para a ideia de peixe. Isto porque a palavra peixe em grego (ἸΧΘΥΣ, ichthys) funciona como acrónimo para a expressão “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”.
Então, neste sentido, aspiro à expressão de um Cristianismo fulgurante e genuíno, como era praticado por esses primeiros Cristãos. É teologia para os que são como esses peixes.Por último, sendo um produto iminentemente digital, um produto para as redes, a temática píscea aplica-se bem.
O mundo digital é cacofónico e pouco fértil em produzir discurso salutar sobre qualquer tema que seja. Debato-me com esta questão, mas acabo sempre por chegar à ideia de que o missionário não escolhe o seu terreno de missão. E, cada vez mais, o mundo digital é um campo missionário. Mais, cada vez mais, o mundo digital é mundo por oposição ao mundo real. As conversas já não se fazem nas ágoras, mas nos fóruns digitais. Digo-o pesarosamente.
Seria mais vantajoso fugir para Társis, mas um grande peixe congemina com Deus e quer levar Jonas para Nínive.
Será que o ambiente digital não pode ser redimido? Será que não tem também expressões saudáveis e benéficas? Pode e tem.

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