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Ao Deus Desconhecido · Jul 21, 2026

Atenção! A sua atenção está sequestrada.

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Natanael Gama · Ao Deus Desconhecido

A atenção, no seu mais alto grau, é o mesmo que oração

Simone Weil

É preciso estar muito desatento para não perceber que o grande ativo que as novas empresas de media querem explorar é a nossa atenção. As suas plataformas estão desenhadas para nos viciarem, dando-nos constantes micro-doses de dopamina.
A reprodução e transição automática dos conteúdos rouba-nos a agência sequestrando a nossa atenção, induzindo muitas vezes o estado denominado de doom scrolling, onde vemos por muito mais tempo do que desejaríamos conteúdo que nem sequer nos interessa, nem nos faz bem. Os algoritmos vão registando o nosso perfil para nos inundarem de publicidade, direcionada aos nossos gostos e interesses, para, enfim, nos fazerem gastar dinheiro.
Shane Claiborne chama a estas plataformas de armas de distracção massiva.

Estas armas, que batalham contra nós, não só nos roubam a atenção mas moldam-na: fazendo-nos apenas capazes de interagir com conteúdo básico e superficial, tornando-nos mais permeáveis a mensagens polarizadas e populistas. Nuance requer atenção, coisa que andamos a perder.

A incapacidade de estarmos atentos é particularmente nociva em qualquer que tente cultivar a sua vida espiritual. Como disse Simone Weil, orar é, no seu mais alto grau estar atento. A leitura devocional, a participação de rituais e a meditação requerem uma mente serena, sem a qual qualquer destes actos não nutrirá devidamente a nossa alma. Viciado em estímulos epidérmicos, as disciplinas espirituais são, para o Homem moderno, uma espécie de tortura.

Byung-Chul Han interage com o pensamento de Weil escrevendo:

A crise atual da religião não se deve simplesmente ao facto de determinados conteúdos de fé terem perdido a sua validade, de já não acreditarmos em Deus ou da Igreja ter deixado de inspirar confiança. Existem, antes, razões estruturais das quais não temos consciência, mas que são responsáveis pela ausência de Deus. Entre elas encontra-se o declínio da atenção. Por conseguinte, a crise da religião é também uma crise de atenção, uma crise da visão e da audição. Não é Deus que está morto, mas sim o o homem a quem Deus se revelou.Byung-Chul Han, Conversas com Deus

O oposto de atenção é distracção.
Se é verdade que todos nós, de vez em quando, precisamos de desligar da realidade em alguma atividade inócua, parece-me que hoje estamos viciados em distrações. Andamos de distracção em distracção esquivos ao nossos desejos e necessidades profundas, esquivos ao estado do mundo e, talvez sobretudo, esquivos ao outro.

É uma situação particularmente lamentável quando se assiste a uma troca de relações reais por conectividade digital. Temos menos amigos e estamos menos tempo com os amigos que temos, no entanto todos terão de admitir que consomem mais séries, filmes e outros conteúdos digitais (alguns deles produzidos por inteligência artificial) do que consumiam noutros tempos.

Não me parece assim tão distópico, a não ser que tomemos medidas sérias a este respeito, que possamos ficar enredados num sem fim de conteúdo altamente aditivo, muito dele produzido por IA e fiquemos cada vez mais longe de nós, dos outros e de Deus.

Read the original on aodeusdesconhecido.substack.com

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