O sistema educativo e profissional atual está construído em forma de funil. Os alunos começam por ser expostos a uma variedade de assuntos e, à medida que progridem, são expostos com cada vez mais profundidade a um cada vez menor número de matérias. Este afunilamento prossegue na licenciatura, no mestrado, nas pós-graduações e no doutoramento e, depois, segue ainda afunilando na atividade profissional, até se chegar, como diz a anedota, a saber tudo sobre nada. Esta é a era dos especialistas.
O problema desta visão é que foi construída não a partir das particularidades de cada indivíduo, mas sim das necessidades do mercado. O mercado privilegia especialistas.
Barbara Sher cunhou o termo scanners para designar pessoas que não se realizam a especializar-se numa só área, mas que sentem o ímpeto constante de explorar diferentes matérias. Esta curiosidade insaciável é um traço natural que não deve ser ignorado, sob pena de se ficar aquém do potencial e se atingir um estado de frustração vocacional.
Outro termo, mais clássico, para designar este tipo de pessoas é o polímata. Porém, este termo é mais apropriadamente aplicado a pessoas que, para lá dos seus interesses, se distinguiram em diversas áreas. Aristóteles, Leonardo da Vinci ou Benjamin Franklin são exemplos de polímatas.
O termo jack of all trades (em português: o homem dos sete ofícios) é um termo pejorativo, suscitando a ideia de que ninguém pode ser bom em muita coisa. O termo inglês geralmente conclui com a expressão: master of none.
No século XVI, Robert Greene chamou, pejorativamente, Johanes fac totum (João faz tudo) ao ator William Shakespeare1, que então procurava tornar-se escritor. Assim, dava a entender que Shakespeare se aventurava para lá da sua área de competência.
Ora o polímata não é um diletante, mas sim um mestre dos diversos interesses que possui. O ênfase desmedido na especialização impede que scanners se transformem em polímatas. E o mundo precisa de polímatas. O polímata tem a capacidade de fazer ligações entre diversas disciplinas e de descortinar soluções para lá dos moldes disciplinares.
A especialização e a segmentação caminham juntas. Para haver especialização, reduz-se o escopo do estudo a um segmento. Mas o Mundo é uno e por isso toda a segmentação é uma abstração. Por exemplo, observar o Homem apenas do ponto de vista da biologia é redutor. Existem outras dimensões do Homem: mentais, espirituais, sociais, culturais e históricas. Um olhar polimático sobre o Homem tem um valor inestimável.
Os polímatas, de facto, ou aspirantes a tal, encontram no mundo moderno um habitat hostil, quais pinguins no deserto. O sistema de ensino e o mercado de trabalho não valorizam a polimatia, sendo que os gatekeepers — as elites das diferentes áreas de especialização — tendem a suspeitar de polímatas.
Os polímatas não são guiados por inputs externos, como expectativas sociais ou recompensas financeiras, mas pela paixão pelo saber e pela convicção de que a exploração desse caminho se tornará um dom oferecido ao mundo.
https://www.phrases.org.uk/meanings/jack-of-all-trades.html

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