Tirando um punhado de atletas e artistas famosos, ninguém enriquece a trabalhar. Não acreditam? Ora façam de conta que tenho aqui uma toalha de papel de restaurante onde vos vou demonstrar, com esta modesta esferográfica, a minha hipótese com umas simples contas.
Para efeitos de simplicidade, vamos dizer que rico é aquele que tiver um mísero milhão de euros no banco, coisa que hoje em dia nem sequer compra um T4 novo no centro de Lisboa. Como estou um mãos-largas, vamos considerar que o nosso trabalhador hipotético tem das profissões mais bem pagas do país e recebe 6000 euros brutos por mês, um pouco mais do que o Primeiro-Ministro. Tirando 2500 euros para pagar o IRS e a Segurança Social, sobram 3500 euros.
Deixem-me ser extravagante e considerar o nosso trabalhador hipotético um tremendo sovina que consegue, milagrosamente, viver com apenas 1000 euros por mês num quarto sem janela na periferia. Pouparia então 2500 euros por mês, este tio patinhas.
Inflações à parte, demoraria 29 anos a obter a quantia de um milhão de euros. Coisa pouca. Digamos que, por ter conseguido este estupendo emprego aos surpreendentes 31 anos, chega a um milhão com 60 anos.
Jeff Bezos, empresário americano e fundador da Amazon, tem uma fortuna avaliada em 230 mil milhões de dólares. Conversões à parte, tem 230 mil vezes mais dinheiro do que o nosso milionário. Não é 230 vezes, leitor distraído, é 230 mil vezes!
Jeff Bezos não enriqueceu a trabalhar.
Como se enriquece então? Vou munir-me novamente de um sujeito fictício. Qualquer semelhança com a realidade, já sabem, é pura coincidência.
Alguém herda um ofício que lhe dá algum dinheiro, um negócio de família. Como vai aumentado o número de clientes, contrata alguém para ajudar no trabalho e decide pagar-lhe um valor que ele próprio não aceitaria para fazer o mesmo trabalho (OK, ele investiu, tem preocupações, teve a ideia original e angariou os clientes — vamos deixar escapar esta). Contrata mais dois ou três trabalhadores nas mesmas condições e, com o lucro que vai obtendo, não distribuindo um cêntimo pelos trabalhadores, decide comprar uma casa de que não precisa, remodela-a e vende-a por um preço mais elevado do que o preço que pagou por esta, o tempo que despendeu e as obras que fez. Depois, faz isto com uma casa maior. Depois, com uma ainda maior. Depois, já nem se dá ao trabalho de fazer obras, só espera que o valor destes imóveis suba, para depois os vender. Começa a diversificar o investimento e investe na bolsa de valores, em grandes empresas, com práticas altamente questionáveis, mas que oferecem um bom retorno com baixo risco. Entra na cripto-lotaria. A dada altura, não tem paciência para todos estes afazeres e paga a alguém para lhe gerir o património. O capital vai crescendo. Louvado seja o juro composto. Viva a meritocracia e que se lixe o mexilhão.
Meus amigos, haja lucidez, não se enriquece a trabalhar.

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