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e-mails, não enviados. · Jul 27, 2026

#10 O que o albúm Memórias Póstumas do Jão nos ensina? O pop está vivo novamente?

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um texto escrito enquanto choro ouvindo esse albúm pela milésima vez. É muito bom te ter de volta João Vitor.

Se tem uma coisa que a arte faz com maestria é transformar o término em ponto de partida. Quando o Jão anunciou a era Memórias Póstumas, confesso que me peguei pensando: qual versão do luto nós vamos ouvir dessa vez? Porque se existe um artista no pop brasileiro contemporâneo que sabe arquitetar a melancolia com sabor de hino de estádio, esse artista é ele.

Mas Memórias Póstumas vai além de ser apenas mais um disco sobre coração partido. Ele funciona como uma verdadeira lição sobre a finitude dos ciclos e a necessidade de se reinventar sobre os próprios escombros.

O álbum nos ensina que, às vezes, para seguir em frente, a gente precisa enterrar velhas versões de nós mesmos. Sabe aquele sentimento de "quem eu era com aquela pessoa não existe mais"? O disco valida essa dor. Ele mostra que olhar para o passado com nostalgia não precisa ser uma prisão, mas sim o atestado de que a gente viveu intensamente. O Jão canta o fim não com desespero juvenil, mas com a maturidade de quem aceitou a cicatriz.

mas vamos falar sobre alguns trechos específicos que entraram na minha alma e a beijaram por completo?

“Literatura”

“Pode me chamar de dramático / Mas eu prefiro o meu circo ao seu silêncio.”

A revolta poética e o orgulho de sentir demais. Em um mundo onde todo mundo finge que não se importa, onde responder rápido é ‘mico’ e demonstrar afeto virou fraqueza, essa música é um grito de libertação. É um lembrete para a gente não ter vergonha da nossa intensidade.

“Memórias Póstumas” (A Faixa-Título)

“Escrevo a partir da minha própria cova / Para te dizer que, no fim, eu sobrevivi a você.”

A verdadeira transmutação do luto em arte. É a faixa que amarra o conceito machadiano do álbum: o eu lírico assume o papel do “defunto autor”. O término ou a perda foi tão profunda que matou a versão antiga dele. Quando você atinge o fundo do poço emocional e descobre que não morreu de amor, você ganha uma força inabalável. “você me destruiu, mas eu renasci e agora quem conta essa história sou eu”.

“Tudo Me Lembra”

“Ainda guardo a sua jaqueta no fundo do armário / Não porque eu queira você de volta, mas porque fazia frio.”

A maturidade da saudade. Esta é talvez uma das letras mais honestas do disco sobre o processo de cura. Ela fala sobre a diferença crucial entre sentir falta da pessoa e sentir falta do aconchego. Guardar uma memória não significa que você quer retroceder; significa apenas reconhecer que aquilo foi importante e te acolheu quando você mais precisou.

Aurora

“Se o sol não nascer amanhã, a gente inventa a luz / Eu aceito a penumbra, desde que seja com você.”

É a busca por esperança no meio do caos, aquele momento em que o mundo lá fora pode estar caindo aos pedaços, mas estar ao lado da pessoa certa faz o escuro parecer acolhedor. “Aurora” é sobre a transição da noite para o dia, o recomeço. Esse trecho fala sobre cumplicidade absoluta. Não é sobre esperar um futuro perfeito e ensolarado, mas sobre ter alguém tão forte ao seu lado a ponto de vocês criarem a própria luz juntos. É a beleza de encontrar poesia e abrigo mesmo nos dias mais sombrios.

“Por Você”

“Eu rasgaria o meu peito só pra te mostrar a cor da minha saudade / Mas você prefere fingir que não me vê.”

A dor crua e visceral do amor não correspondido (ou da indiferença de quem um dia nos amou). É o desespero de querer provar a profundeza do que se sente para alguém que escolheu ficar cego a isso. “Por Você” é uma das entregas mais desarmadas do disco. Ela retrata aquele sentimento humilhante, mas terrivelmente humano, de estar disposto a ir aos extremos por alguém que nem sequer olha para trás.

Nossa, sério... colocar esse álbum pra tocar de ponta a ponta com o fone no máximo é uma experiência que quase devasta, mas de um jeito bom. Sabe aquela sensação de que o artista entrou na sua cabeça, pegou todas as suas madrugadas em claro, todas as conversas ensaiadas no banho e transformou em música? É exatamente isso.

Ouvir esse disco me faz ter orgulho de sentir as coisas por inteiro. Ele te abraça na bagunça, limpa a sua poeira do chão e te puxa pra dançar mesmo se você ainda estiver meio quebrado. É o tipo de álbum que não te deixa anestesiado; ele te devolve a capacidade de sentir tudo com força total.


O grande motivo por trás da criação de Memórias Póstumas é, antes de tudo, uma necessidade de travessia e encerramento.

Depois de passar anos construindo o tetralogia dos quatro elementos — Lobos (terra), Anti-Herói (ar), Pirata (água) e SUPER (fogo) —, que culminou naquela turnê gigantesca em estádios por todo o Brasil, o Jão se viu em um momento decisivo: para onde ir quando a história planejada desde o início da carreira finalmente chega ao fim?

O flerte conceitual com Machado de Assis não foi por acaso. O Jão criou o álbum sob a premissa do autor que escreve sobre as próprias perdas depois que a dor já não pode mais machucá-lo da mesma forma.

Há também uma inquietação artística com o rumo da música pop no mercado contemporâneo. Memórias Póstumas foi feito para rebater a ideia de que a música pop precisa se render ao efêmero, à superficialidade ou a fórmulas prontas para ter sucesso. Ele foi criado para provar que é possível arrastar multidões oferecendo um trabalho conceitual, denso, lírico e profundamente pessoal.

E afinal: O pop brasileiro está vivo novamente?

A resposta curta? Ele nunca esteve tão vivo. Mas a resposta honesta é: ele mudou de pele.

Por muito tempo, fomos bombardeados pela ideia de que pop no Brasil era sinônimo exclusivo de ritmos acelerados, danças virais de 15 segundos e letras feitas sob medida para algoritmos. Parecia que o gênero tinha perdido a alma em troca de números.

Memórias Póstumas (junto com o movimento de outros grandes nomes da nossa cena) prova que o pop com conceito, narrativa e densidade não só sobreviveu, como reina.

O pop está vivo porque voltou a contar histórias. Voltou a fazer a gente querer ouvir um álbum do início ao fim, na ordem certa, de fone de ouvido no escuro do quarto ou gritando a plenos pulmões em um show lotado.

O impacto do Jão como o maior cantor pop masculino da atualidade, e um homem abertamente bissexual no topo das paradas, vai muito além dos números ou dos estádios lotados. Ele conseguiu furar uma bolha historicamente difícil no Brasil, e a forma como a arte dele atinge todo mundo é justamente o maior trunfo do seu trabalho.

No fim das contas, a existência e o sucesso de um artista como ele provam que a arte mais potente é aquela que nasce do específico, mas abraça o universal. Ele não precisou esconder quem era para chegar ao topo do pop nacional; ele chegou ao topo justamente porque teve a coragem de ser quem é.

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