Querida eu,
Sei o quanto tem doído. Dói muito perceber que as pessoas que nos deram a vida, às vezes, simplesmente não conseguem enxergar quem nós realmente nos tornamos.
Crescemos querendo dar orgulho a eles. Querendo que o nosso esforço seja visto, que o nosso caminho seja celebrado. Mas chegou um momento em que a conta não fecha mais: para ver o sorriso deles, preciso engolir os meus próprios sonhos e vestir uma vida que simplesmente não me serve.
É um cansaço que não passa dormindo. É essa sensação constante de estar sempre devendo algo, de caminhar pisando em ovos dentro da minha própria casa. O amor dos meus pais deveria ser o lugar onde eu tiro a armadura e descanso o corpo, mas, com o peso de tanta cobrança, o lar virou um campo de batalha silencioso. O que mais me machuca é saber que esse peso não vem do ódio, mas de um tipo de amor que sufoca. Eles criaram uma versão perfeita de mim na cabeça deles e se apaixonaram por essa ilusão. Quando me mostro de verdade ( com as minhas falhas, as minhas vontades e a minha própria voz ) parece que estou traindo tudo o que eles construíram.
Eu só queria que eles entendessem que ter o meu próprio caminho não significa esquecer de onde eu vim. Que divergir das ideias deles não é ingratidão, é só a minha vida acontecendo. No fundo, eu não quero guerra. Só quero a liberdade de poder errar com os meus próprios pés e a certeza de que, mesmo quando o mundo me assustar, ainda vai existir um abraço sincero me esperando — um abraço que acolha quem eu sou de verdade, e não quem eles gostariam que eu fosse.
Não tem sido fácil carregar o peso de uma dívida que eu nunca pedi para contrair. Cresci escutando sobre todos os sacrifícios, sobre tudo o que foi investido, e, sem perceber, o afeto passou a ter um preço. Ficou essa sensação sufocante de que a minha felicidade só tem valor se vier com o carimbo de aprovação deles. E o pior de tudo é o isolamento que isso me traz. É olhar para as pessoas que deveriam me conhecer no avesso e perceber que preciso esconder meus maiores medos e desejos só para manter a paz. Aprendi a sorrir amarelo, a dar respostas evasivas, a engolir o choro no quarto. Aprendi a ser metade de mim mesma só para caber na vida deles.
Eu sei que não quero decepcionar ninguém. Mas, acima de tudo, não posso me esquecer pelo caminho. Estou aprendendo que amadurecer é justamente entender que a vida é minha, e não deles. Dói aceitar que talvez eles nunca entendam as minhas escolhas, e preciso ficar bem com isso. O amor de um pai e de uma mãe é fundamental, mas o respeito pela minha própria essência é o que vai me manter de pé.
Não posso passar uma vida inteira pedindo licença para existir. Preciso ter a coragem de assumir o meu próprio destino, mesmo que o preço seja carregar um pouco de culpa no peito — até que eles percebam, se um dia perceberem, que me criar para o mundo significa me deixar voar com as minhas próprias asas.
Com todo o carinho e acolhimento do mundo, De mim, para mim mesma.

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