Na adolescência li É Tudo Mentira, de Fernando Vaz. Não lembro bem da história, tinha a ver com a personagem Sandra lidando com um drama familiar e uma grande mentira é revelada no final. Volta e meia lembro desse livro porque sinto que estou vivendo num mundo repleto de Sandras e suas narrativas performáticas que se apoderam de qualquer assunto em prol de likes e engajamento (Não que a personagem fazia isso, nem tinha redes sociais na época que o livro foi escrito, lembro mais por causa do título do livro).
Hoje, lendo o maravilhoso artigo da Bia sobre como viver uma vida romântica... sem "romantizar" a vida me vi refletindo sobre esse dilema de autocuidado e o luxo do “offline”. Assuntos que estavam estava fermentando na minha cabeça desde que vi o vídeo a mentira do minimalismo: por que a calma virou mercadoria? do Rodrigo de Lorenzi, vulgo o moço do vinho.
Então, sentada na minha linda mesinha branca da marca Oppa, ouvindo minha playlist romântica, decidi escrever algumas reflexões sobre o que vemos, performamos e realmente fazemos dos nossos dias nesse mundo caótico e desequilibrado que, dependendo do seu estado emocional, também pode ser lindo.
I - Somos feitos do que consumimos?
Pra começo de conversa, eu confesso que sou uma pessoa facilmente influenciada pelo que vejo. Minha mesa de trabalho foi escolhida numa época em que estudava design de móveis e trabalhava com interiores — tive várias fases como designer. A marca, a cor, a forma: tudo refletia o que era belo pra mim naquela época.
Já meu gosto musical — e o fato de que crio qualquer coisa com música tocando — pode muito bem ter vindo do repertório de comédias românticas da minha adolescência, onde as personagens não só faziam algo: havia uma trilha sonora perfeita pra emocionar e enfatizar aquele momento. Visão e audição se aguçam pra nos sugar pra dentro da cena.
É que toda boa escritora ou designer tinha seu equipamento ideal. A máquina de escrever nos filmes clássicos, o laptop nos atuais. Meu lindo MacBook Air, comprado em 12x no módulo sabe-Deus-como-vou-pagar, reflete perfeitamente o quanto um equipamento funcional, também compõe uma cena importa pra mim.
Nesse momento você não está me vendo. Não estou me filmando nem pretendo transformar essa meia hora de concentração em conteúdo visual. Só nesse texto mesmo. Escolho não performar nada hoje. Só sentir.
Agora começa Heaven de Bryan Adams. E paro pra cantarolar… Olha só quem está falando de performance.
II - A estética do amor próprio vs. o amor próprio de fato
Quando a Bia escreveu que o que me pega é perceber um padrão que tem muito mais a ver com tornar a vida esteticamente agradável do que realmente amorosa, o que rebaixa a vida romântica a um patamar visual, superficial, adquirível por meio de canecas fofas, flores frescas e vestidos rodados, eu assino embaixo, falou e disse mana!
Eu sempre acreditei que tudo o que o capitalismo toca vira cocô sabe. Então, chegou um momento em que criar conteúdo sobre uma vida leve parece sinônimo de ter um ambiente com coisas e produtos que chegam pra mim por indicação de influenciadores e transformar tudo o que faço em algo construído pra ser lindo em telas.
Só que, ao mesmo tempo, penso na minha culpa por não estar, nesse momento, criando conteúdo sobre meu processo criativo para o Instagram ou YouTube no meu cenário aconchegante que ninguém é obrigado a ter igual, diga-se de passagem. O que me pega é que nos falam que isso precisa ser algo natural para criadores de conteúdo que querem encarar seus projetos como negócio. Mas não é!
Meu sentimento é de dualidade. Nesse mundo onde você precisa está presente online pra ter sucesso, como ficam as pessoas que sempre querem ir ao cinema com as amigas e não lembrar de tirar foto? Ou montar um quebra-cabeça e focar tanto a ponto de esquecer de postar que começou algo novo? Como chegamos ao ponto onde não postar virou culpa pra algumas pessoas?
Lembrando que pra quem não me conhece, sou Anna, designer de interfaces e desenvolvedora front end há mais de 10 anos. Se por acaso você está pensando em criar um site ou aplicativo, vou amar poder te ajudar.
III - Meu plano de fundo
O online também me pegou nos últimos anos porque cresci nas ultimas décadas sem redes sociais, os anos 90/2000. Eu revelei fotos, formei parte do meu gosto musical ouvindo a programação do SBT antes das 6h30, quando tocava músicas naquela tela colorida, escutei os programas de rádio que passavam no final das noites e traduziam essas mesmas músicas simultaneamente, cuidei de um bichinho virtual, dancei as coreografias das Spice Girls, Backstreet Boys e Sandy e Jr. na calçada de casa com minhas amigas, descobri o celular com 16 anos e joguei o joguinho da cobra escondido no fundo da sala nas aulas de história. Deixa eu entregar mais a minha idade: senti o cheiro do álcool do mimeógrafo e brinquei na máquina de escrever da escola onde minha mãe era professora. Vivi muito a última década do offline.
Saber que fui formada assim — acreditando que bastava estudar, me formar e arranjar emprego — e descobrir que nesse mundo, além de tudo isso, preciso me filmar trabalhando, mostrar os bastidores e me virar do avesso pra aprender marketing digital ou colar com quem sabe... essa parte me trava. A parte de performar, nossa.
Agora tá tocando Nights In White Satin (Single Version / Mono Mix) de The Moody Blues Days of Future Passed (Deluxe Edition), já no fim da música volto pra retomar o clima.
IV - As armas do digital vendendo fuga do digital
Voltando ao vídeo do Moço do Vinho. Ele diz algo que não sai da minha cabeça:
“A simplicidade que você vê na tela é fruto de uma complexa técnica. O vídeo vai dizer para você que fuja das telas, proteja a sua atenção, mas nos bastidores ele é editado, tem corte, tem cores — justamente para prender a sua atenção, que já está fragmentada. Ou seja: usamos as armas do digital que roubam o nosso foco para vender uma ideia de estilo de vida que deveria nos proteger desse mesmo digital.”
O que me mexe é saber que as trends de “romantizar” a vida, da “desconexão” e do “autocuidado” surgem como resposta à cultura da alta performance, à distorção social que vivemos ao comparar nossas vidas bagunçadas com as das outras pessoas nas redes, à rolagem infinita que nos hipnotiza.
Pessoas como eu, que assistem vlogs de donas de casa coreanas aos sábados depois da feira e ficam se perguntando como navegar nesse admirável mundo novo — onde como profissional você deve se render à produção de conteúdo pra sobreviver, mas como pessoa precisa fugir das telas igual diabo foge da cruz.
V - E agora, faz o quê?
Eu adoraria estar no nível da Zendaya, que pode perfeitamente separar sua vida pessoal da sua marca. Mas não estou. Minha fase atual é a do vale do silêncio — onde a frustração toma conta quando o que faço não dá resultado. Então penso em fazer mais, buscar mais dicas de marketing digital, mas minha natureza profunda me leva a fazer isso que estou fazendo agora: escrever na minha linda mesinha, sentindo o delicioso barulho do teclado do Mac que ainda estou pagando, num maravilhoso dia nublado, com a velinha que foi lembrança das madrinhas do casamento de uma das minhas melhores amigas acesa, exalando um cheirinho gostoso. Tudo isso, sem me preocupar em filmar nada.
Se você leu até aqui esperando uma resposta — poxa vida… foi mal. Dessa vez vou ficar devendo. Porque continuo nadando no vale do silêncio, toda semana eu crio, crio e crio, mas não seu bem o que estou fazendo certo porque o resultado não vem. Mas ainda não desisti.
O que estou tentando te contar é: se você está tão confusa quanto eu, sem saber como navegar nesse mundo com um monte de gente te dizendo o que fazer, pega aqui na minha mão. Um dos meus professores mais queridos da faculdade me deu um conselho que carrego comigo: “Quando você estiver diante da criação de alguém, não critique — só fale ‘isso não me toca’.” Ou seja: quando ver um conteúdo te dizendo pra viver de um jeito ou de outro, olhe bem dentro de você e se pergunte: isso fala com quem eu sou? Se sim, anote e tente aplicar. Se não, siga a sua vida como se nada tivesse acontecido. Ou fale sobre isso e crie conteúdo… o que estou fazendo no momento :)
Dessa forma, talvez, apenas talvez, possamos encontrar um equilíbrio entre os momentos que trazem mais amor e romantismo pra nossa vida — alimentando nossos verdadeiros eus — e os que trazem clientes e dinheiro, onde precisamos ser pragmáticas mesmo. Quem sabe, no meio do caminho, encontrar uma forma de fazer essa parte ser divertida sem imitar o espaço, as coisas e os produtos que outras pessoas compraram pra fazer você sentir — atenção, apenas sentir — que está fazendo a coisa certa.
Se você puder comprar, ótimo. Se não: ouça a filosofia da minha amiga Grace — “você não é obrigada a nada!” — e o bom e velho Julius: “se não comprar sai mais barato”.
É isso. Obrigada por chegar até aqui.
ps.: Termino de escrever ao som de Stay On These Roads de A-ha. Nossa, acho que arrasei no romantismo dessa vez. O que acha?

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