Uma característica comum em casais que chegam à pergunta “devo ficar ou devo ir?” é a ausência de um mecanismo eficaz de reparação.
Casais mais saudáveis – ainda que de forma imperfeita – sabem se regular mutuamente ou colocar limites. O diálogo tende a ser assim:
“Quando você se fecha, eu me sinto só. Podemos conversar?”
“Você tem viajado muito. Sinto sua falta. Podemos nos reconectar?”
“Seu tom de voz está passando de um limite de respeito para mim. Vamos buscar outro caminho para conversar, por favor?”
Eles escutam, tentam ajustar, experimentam fazer diferente, se permitem errar e ajustam de novo. Aprendem a dizer como querem que seja, em vez de apenas criticar o que não funciona.
Já casais à beira da ruptura entram em ciclos como este:
– Não faça isso, é desconfortável para mim.
– Não me diga o que fazer.
– Estou só pedindo…
– Você está sempre me criticando.
Nada avança. Muita energia se perde nas discussões. Ninguém se move.
Conhece isso?
Eu conheço bem.
Tomar consciência de que eu não tinha letramento para diálogo na relação afetiva por não ter tido isso modelado me ajudou a não me conformar em ser mais uma vítima do que aprendemos como culturalmente aceitável. Decidi ir para a “escolinha” me alfabetizar na arte de conversar – uma arte que começa por aprender a escutar. Vou compartilhar mais sobre isso em breve, pois acabou virando o principal tema dos meus cursos.
Há ainda uma estratégia mais silenciosa – e muitas vezes mais tóxica: a negligência.
“Sim, eu entendo.”
“Ok, podemos fazer assim.”
E depois… nada muda.
Quando a pergunta “fico ou vou?” aparece de forma recorrente, geralmente algo essencial já se perdeu: a confiança de que você tem voz na relação – e de que essa voz será levada a sério. Se essa confiança estivesse viva, talvez a pergunta nem precisasse ser feita.
O que costuma faltar quando a relação chega a esse ponto de desarranjo?
Confiança. Colaboração. Parceria.
Perdeu-se a conexão.
A relação deixa de funcionar como um time e passa a operar em modo de competição, defesa ou sabotagem. O diálogo em que a verdade pode ser dita sem reatividade desaparece.
Antes de falarmos de estratégias de reparação ou de um possível caminho de volta para uma relação mais saudável, precisamos olhar para um padrão específico que Terry Real chama de ambiguidade estável.
É nesse lugar que muitos casais ficam presos: nem ficam de verdade, nem vão com clareza. É um limbo relacional que pode ser bem desconfortável para uns, mas o lugar de conforto para outros. Se você estiver preso nesse padrão, nada do que tentar irá, de fato, ajudar.
É sobre isso que falo na próxima publicação, pois enquanto esse padrão não é reconhecido, a pergunta “fico ou vou?” vai ficar girando sem resposta.
Enquanto isso, deixo uma pergunta para você:
O que, na sua relação, está pedindo escuta agora?
—
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Referência: O conceito de ambiguidade estável vem do trabalho de Terry Real, fundador da Relational Life Therapy (RLT), especialmente do livro Us: Getting Past You & Me to Build a More Loving Relationship. Eu tirei isso das aulas com ele, então não sei citar a página do livro, mas sei que está lá pra quem quiser aprofundar.
A imagem ilustrativa foi criada com o auxílio de inteligência artificial.

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