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Comecei a falar disso na publicação anterior, porque a ambiguidade estável é uma armadilha relacional poderosa e nada vai ajudar se você estive preso nela.
Ela acontece quando a pessoa não consegue tolerar ficar sozinha, mas também não consegue se entregar plenamente à relação.
Só de imaginar a solidão, algo interno entra em colapso, algo lembra dor de abandono e parece insuportável. Mesmo se você for embora, vai acabar voltando, ou entrando avidamente em outra relação.
Ao mesmo tempo, a conexão e intimidade real também não são possíveis. Partes feridas, imaturas ou traumatizadas reagem, se defendem, se retraem. Não por falta de vontade – mas por falta de recursos internos.
É como estar “quase” em um relacionamento. É como entrar na casa, mas ficar parado no hall de entrada e nunca entrar de verdade na sala.
Esse padrão pode durar anos.
“Estou aqui pelas crianças.”
“Agora não é o momento.”
“Quando as coisas melhorarem…”
Você já ouviu alguma dessas frases?
E as crianças cresceram, as condições mudaram e a pessoa continuou na relação – algo típico de quem está neste padrão.
A ambiguidade estável também aparece quando existem dilemas estruturais não enfrentados:
desejos incompatíveis (como ter ou não filhos)
relações à distância prolongadas
conflitos de orientação sexual ou acordos não explicitados
envolvimentos paralelos ou segredos
Externamente, a pessoa diz que quer chegar ao fundo da questão, mas internamente não consegue sustentar o movimento necessário para isso.
Aqui vai uma verdade difícil:
Só porque você está infeliz não significa que você esteja desconfortável. Pelo menos, não o suficiente para ir ao fundo da questão que está fazendo a relação desmoronar.
Às vezes, o sofrimento se torna o lugar familiar e conhecido. E o conhecido pode virar zona de conforto.
Se você se reconhece nesse padrão, já passou por duas... três relações ambíguas e está repetindo o mesmo padrão na atual, raramente é possível sair dele sozinho. Não por fraqueza, mas porque se trata de uma organização profunda do sistema nervoso e dos vínculos.1
Há também outros fatores que podem levar à ambiguidade estável. Quando se tem uma condição psiquiátrica não tratada como ansiedade, depressão2, TOC, TDAH ou uma neurodivergência, há um limite para o quanto você consegue estar presente e se conectar com seu parceiro. Se você está decidido a trabalhar no seu relacionamento, é preciso que lide bem com esse quadro procurando um profissional de saúde mental, um grupo de apoio, fazendo terapia, coaching, ou talvez usando medicamentos que ajudem a diminuir ou eliminar o problema. É importante fazer isso não como uma obrigação, mas porque você sente que merece uma vida mais leve e liberta.
Se você não fizer isso por você e sua relação, reconheça que está no padrão de ambiguidade estável, porque se não estiver lidando com seu quadro psiquiátrico ou neurodivergente, não consegue estar realmente no relacionamento. Você só vai conseguir uma relação saudável se lidar com isso verdadeiramente. E tenho certeza que seu parceiro lhe apoiará nessa!
Antes de decidir se fica ou se vai, ou de buscar recursos para resolver a relação, é preciso resolver esse padrão de ambiguidade estável.
Você se reconhece nele?
Se isso não é uma questão para você, acompanhe o próximo artigo da série para esclarecer com coragem, serenidade e discernimento a pergunta: fico ou vou?
––
Notas de rodapé:
Você pode fazer uma pesquisa sobre a teoria do apego de John Bowlby para descobrir como a qualidade do vínculo afetivo entre você bebê e a pessoa que cuidou de você afeta sua capacidade de formar relacionamentos saudáveis ao longo da vida.

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