Devo ficar ou devo ir embora desta relação?
Essa costumava ser uma pergunta torturante que chegava em ciclos na minha vida. Eu não gostava dela. Desta vez ela veio de um jeito diferente, porque a recebi como uma pergunta profundamente humana.
Em algum momento acho todo mundo se faz essa pergunta, especialmente em relações de longo prazo como a que tenho – tenho 46 anos, destes 23 anos juntos com meu parceiro. Ainda assim, nossa cultura trata essa dúvida como uma anormalidade, um sinal de fracasso ou imaturidade. Percebo em conversas com a minha mãe que o simples fato de questionar já é algo errado. Em dezembro meus pais celebraram 53 anos casados. Muita coisa superada e a agradecer, mas, também, ainda os mesmos padrões que me levavam, quando adolescente, a pensar: “se casamento for pra viver neste pé de guerra, um culpando o outro pelas suas insatisfações, não quero me casar.”
Casei–me.
E, sim, repeti muitos padrões do que aprendi da relação dos meus pais. Mas também busquei formas de endereçar aquilo que era insatisfatório, tóxico e nocivo – tudo que gera desconexão. Dá trabalho se manter numa relação com conexão de verdade. Relacionamentos duradouros e gratificantes dão trabalho.
Para manter um relacionamento afetivo com a chama viva é preciso desenvolver habilidades que normalmente não aprendemos em nossa cultura. Quero compartilhar aqui o que venho aprendendo sobre essas habilidades ao acompanhar, ao longo dos anos, o trabalho de Terry Real, um dos principais nomes da terapia relacional contemporânea e que ficou conhecido por traduzir o amor em responsabilidade emocional e a intimidade em prática concreta.
O que compartilho aqui é a partir da minha própria experiência. Não é uma receita, mas um mapa possível para atravessar as fases de dúvida com mais honestidade e menos autoengano.
Uma boa forma de começar é normalizando a pergunta: Devo ficar ou devo ir? – Fazer essa pergunta não significa, necessariamente, que você está em um relacionamento ruim. Muitas vezes, significa apenas que algo vivo dentro de você está pedindo escuta. Dar atenção a esta pergunta e se comprometer em buscar verdadeiramente a resposta é um ato de coragem e exige maturidade.
Terry diz que todo relacionamento é uma dança interminável de:
harmonia → desarmonia → reparação
Ou, em outra linguagem:
proximidade → desilusão → retorno à proximidade
Casais saudáveis atravessam esse ciclo muitas vezes – às vezes vinte vezes durante um único jantar. E podem atravessá–lo em um nível mais profundo ao longo de muitos anos de relação.
A harmonia costuma ser celebrada. A lua de mel. O encanto. A sensação de ter encontrado a pessoa certa.
A desarmonia, no entanto, não é reconhecida nem ensinada. Não aprendemos o que fazer quando ela aparece – e muito menos como suportá–la sem entrar em pânico. Se você conheceu alguma família que aprendeu a lidar com desarmonias e conflitos de forma saudável, modelando desde a infância, me conte, pois a nossa cultura vai na contramão disso. Então, a gente se distancia emocionalmente do outro por não darmos conta das nossas próprias emoções de raiva, ódio e do desconforto gerado quando essas emoções tomam conta.
Terry Real foi quem cunhou a expressão “ódio conjugal normal”. Ouvir isso pela primeira vez foi libertador para mim, pois ele endereça a raiva como algo natural e até saudável – quando expressado com responsabilidade, sem machucar. Quando a desarmonia se prolonga, é comum que uma parte de nós passe a odiar a outra pessoa. Isso não significa que a relação acabou. Significa que estamos em um relacionamento humano, com expectativas, feridas, frustrações e investimento emocional real.
É importante lembrar: não é a pessoa inteira que odiamos, mas uma parte dela em certos momentos. Assim como partes nossas também podem ser difíceis de amar. Essa diferenciação ajuda a não perder de vista o todo – nem do outro, nem de nós mesmos.
Todos nós ansiamos por perfeição. E, quando nos apaixonamos, acreditamos tê–la encontrado. Projetamos no outro a promessa de cura: alguém que vai nos completar, nos salvar, nos dar o que não recebemos, evitar nossas dores mais antigas.
Mas a realidade costuma ser outra.
Em um relacionamento verdadeiro, mais cedo ou mais tarde, surge o pensamento silencioso – ou nem tão silencioso assim:
“Meu Deus… onde foi que eu me meti?” A pessoa que parecia sua cura agora parece ser o motivo da ferida.
A distância aparece. Às vezes emocional. Às vezes física. Às vezes no silêncio.
E então a pergunta retorna:
Como voltamos a nos aproximar?
Como reparamos o que foi rompido?
Acompanhe os próximos textos desta série.
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