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In.pulso · Feb 22, 2026

Devo ficar ou devo ir? – PARTE 5

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Ana Lúcia Gonçalves Munzner · In.pulso

Alguns conteúdos a gente lê e segue a vida. Outros nos leem de volta. O trabalho do Terry Real fez isso comigo. Quando vi, tinha 15 páginas escritas entre teoria, experiências pessoais e muitas confusões honestas.

Transformei esse mergulho nesta série de artigos. Depois desta parte ainda há mais uma, mas o assunto não se esgota. De qualquer forma, vou encerrar na Parte 6, a próxima.

Aos assinantes pagos, vou compartilhar também uma ferramenta que é um divisor de águas em momentos de conflito. Quando estou ativada, é um jeito de voltar para mim antes de tentar resolver o outro e recuperar presença antes de reagir.

O tema de hoje é intimidade destemida. Terry dá esse nome à capacidade de dizer a verdade ao parceiro e à relação com uma certa habilidade de comunicação e regulação emocional e sustentar as consequências disso. Quem convive com a gente sabe bem nosso ponto cego, a sombra que a gente não consegue enxergar. Dizer a verdade não é, num momento de conflito e fragilidade, apontar: “Você é isso... você é aquilo...” Mas encontrar uma forma não violenta e generosa de dizer para o outro o que é importante ser visto para a relação funcionar, com a mesma generosidade e abertura de fala e de escuta, porque é justo o outro também te contar o que ele percebe.

Normalmente é mais fácil para quem está de fora ver – e apontar – para aquilo que são nossas sombras, nosso ponto cego, e que dói muito olhar. Ao evitar encarar a dura verdade que está afogando a conexão e destruindo a relação, você pode até se conformar, mas o ressentimento vai crescer silenciosamente. Se a relação importa, é preciso desenvolver a habilidade de dizer as duras verdades – não para ferir, por isso precisa habilidade, mas para se posicionar e transformar.

Quando a verdade deixa de ser dita, a paixão é a primeira vítima. A generosidade seca. A sexualidade seca. A relação toda perde o tônus, desvitaliza.

Falar a verdade com generosidade e compaixão é uma habilidade. Como diz o escritor e professor A. H. Almaas, somente quando há compaixão a pessoa se permite ver a verdade. Não vai ajudar falar o que é verdadeiro sem compaixão, com reatividade, porque a outra pessoa vai só se fechar.

A maioria de nós não aprendeu esta habilidade em nossas famílias de origem ou em nossa cultura. Pelo contrário, aprendemos a demandar, apontar, criticar ou esperar que o outro adivinhe o que nos torna infeliz e insatisfeito. A habilidade de dizer a verdade inclui não somente apontar para o ponto cego, mas pedir, negociar, ensinar o parceiro, colocar limites, sustentar erros e frustrações.

É aqui que entram três movimentos centrais que Terry sugere serem cruciais para vivenciar a intimidade destemida.

Dizer: “Isso não está funcionando para mim.” – sendo específico.
Colocar limites reais, com consequências, sem acusar, sem humilhar.

O objetivo é simples e profundo: nomear o que dói para que essa dor não precise mais atuar sobre a relação.

Para algumas pessoas, isso pode ser assustador, pois põe a relação em risco. Relacionamentos vivos envolvem risco. Sem risco, há acomodação.

Se você não está disposto a colocar o relacionamento em risco, você não tem um relacionamento de verdade. E se você está morando com alguém sem ter um relacionamento de verdade – o que implica em colocar limites – adivinha o que acontece? Um começa a tratar o outro mal, passa dos limites de respeito, o outro começa a se defender adotando as mais diferentes variações agressivas, passivo–agressivas ou de escape total. Começa um ciclo infernal.

Para iniciar o movimento de balançar o barco, será preciso responder à pergunta:

O que você realmente quer, assumir o risco ou ficar estagnado?

Quando me casei, lembro que eu ficava emburrada e falava nas entrelinhas o que me chateava, dando indiretas. Eu tinha um pensamento do mundo encantado da Cinderela: “você deveria saber o que fez pra eu estar chateada”. Mas as pessoas não leem mentes. Pelo menos não a faixa normal de pessoas que não desenvolveu telepatia.

A descoberta ao longo do tempo: pedir de forma clara, específica e sem crítica não é controlar, é colaborar.

Alguns exemplos – eles funcionam, mas não quando estamos em um estado de irritação, cansaço e desregulados:

“Quando você se fecha, eu me sinto só. Preciso que você me sinalize que está me escutando. Podemos combinar um momento de retomar a conversa quando estivermos claros do que queremos comunicar um ao outro?

“Quando você grita comigo, eu me fecho. Por favor, não fale comigo nesse tom. O que funcionaria melhor para mim é pausar a conversa quando um de nós estiver com as emoções à flor da pele. E retornar assim que tivermos condições de falar com respeito.” – Essa aqui eu recebi do meu parceiro algumas vezes. Mas as vezes ele falava em tom calmo comigo, mas estava com raiva suprimida. Nosso sistema nervoso é inteligente e capta as emoções da outra pessoa, então, uma fala calma vinda de um estado desregulado pode causar até mais ativação emocional do que se a pessoa não falasse nada.

E mais alguns exemplos:

“Você tem viajado muito. Sinto sua falta. Podemos nos reconectar tirando um tempo juntos sem as crianças quando você voltar?”

“Quando estivermos em público, não faça piadas das quais eu seja o alvo. Isso aconteceu comigo quando eu era criança. Eu não gosto. Faz eu me sentir pequena. Você poderia fazer isso por mim?”

“Precisamos trabalhar nossa vida sexual. Fazer sexo uma vez a cada 3 meses não é suficiente para mim. O que precisamos? Somos um time e essa é uma questão. Podemos trabalhar juntos nisso? O que você precisa pra gente melhorar aqui?”

Quanto mais específico você for sobre o que quer, maiores serão as chances de receber o que precisa. Se o pedido for verdadeiro e justo – e não for feito só para criticar – a outra pessoa tende a receber bem. Para alguns pedidos, é importante haver espaço tanto para o sim, quanto para o não. Alguns pedidos vão precisar de ajustes, experimentação, erro e, de novo, uma tentativa. Outros pedidos podem entrar no campo do inegociável, o que é diferente de rigidez:

“Se você continuar bebendo e não se tratar, não tenho mais como continuar. Você precisa buscar ajuda. Como posso te apoiar?”

“Posso perdoar uma vez. Mas se você me trair de novo, acabou.”

E se a outra pessoa entender isso como controle ou manipulação e disser: “Eu não quero ser controlado por você” – persista:

“Eu não estou controlando você, querido. Você pode fazer o que quiser. Resolvi experimentar um novo método que aprendi e só estou dizendo o que funciona melhor para mim. O que funcionaria melhor pra você então?”

O que importa aqui é que existe pelo menos uma das partes assumindo responsabilidade e isso convida a outra pessoa a assumir também. A ideia é não reviver o filme da Cinderela: se você não adivinhar o que preciso “o encanto acabou.”

Aqui há um ponto essencial de honestidade: O outro não está falhando por não nos dar aquilo que nunca pedimos.

Quando reagimos com intensidade, como se uma promessa tivesse sido quebrada sem nunca ter sido formulada, já não estamos em diálogo – estamos atuando a partir de uma parte ferida.

E nenhuma relação sobrevive por muito tempo quando a interação acontece entre as partes feridas.

Mudança acontece aos poucos. Se há esforço genuíno do outro lado, reconhecer e incentivar sustenta o processo.

Ao perceber um pouco de avanço, informe à outra pessoa que você está notando, dê parabéns e agradeça por seu esforço. E só então pergunte: Como posso te ajudar a chegar em 20... 30%...?

O risco aqui é recair no velho hábito da crítica: dizer que não é suficiente, que a pessoa está de má vontade, fez, mas tarde demais. Mas mudança de hábito acontece de forma incremental e precisamos encorajar ao invés de criticar.

Confie. Encoraje. Celebre.

Escrever isso foi uma forma de organizar minha própria coragem. Mesmo que um relacionamento termine, a história nunca termina, pois amar de verdade não é sobre chegar a um destino — é uma prática.

Intimidade destemida não garante que a relação vá continuar, mas garante que você não vai se abandonar ou desaparecer para que ela exista.

Talvez este seja também um convite para a sua coragem.

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Read the original on anamunzner.substack.com

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