Há uma pergunta que atravessa silenciosamente todos que se tornam pais e mães:
Quem cuida das feridas da nossa infância enquanto tentamos não ferir nossos filhos?
Ou, dito de outra forma:
quem cuida da infância que não tivemos – enquanto tentamos cuidar dos nossos filhos?
Essa pergunta raramente é formulada em voz alta. Mas ela aparece em nosso corpo, pelas sensações, nas nossas reações, nos conflitos cotidianos da parentalidade.
Ela aparece quando prometemos não repetir – e repetimos.
Quando queremos ser respeitosos – e nos tornamos duros.
Quando amamos profundamente – e ainda assim reagimos com impaciência, controle ou afastamento.
Na experiência da Jornada Raízes, essa pergunta esteve presente desde o primeiro encontro.
Quando as pessoas foram convidadas a compartilhar o que as trouxe até ali, uma frase se repetia, com pequenas variações:
“Quero ser uma mãe melhor.”
“Quero ser um pai melhor.”
“Quero me tornar uma pessoa melhor.”
A palavra melhor ficou ecoando no espaço. Melhor do que quem? Melhor em relação a quê? A própria ideia de querer ser melhor e não aceitar o estado atual do que se é já é uma resposta ao trauma.
À medida que as histórias iam se aprofundando, algo se tornava evidente: para muitas daquelas pessoas, algo havia faltado na própria infância – e essa falta seguia viva no corpo adulto. Ela aparecia como dificuldade de confiar em si. Como intolerância à frustração. Como rigidez, controle, culpa, vergonha. Como reatividade diante do choro, da raiva ou da agressividade das crianças. Não por falta de informação. Não por falta de amor. Mas porque existem aprendizados que não são cognitivos. São corporais, relacionais, nervosos.
Aquilo que recebemos na infância é, muitas vezes, aquilo que repetimos com nossos filhos. E nossos pais, por sua vez, também repetiram o que receberam. Assim, padrões vão sendo transmitidos de forma transgeracional – sem escolha consciente, sem intenção, sem maldade. Reconhecer isso é um caminho para termos compaixão por nossos pais e por quem veio antes, por nós mesmos e por nossos filhos.
Em muitos casos, aquilo que mais faltou é exatamente o que hoje não temos disponível para oferecer.
Quando uma criança tem um ataque de raiva, por exemplo, muitos adultos não conseguem sustentar sua expressão emocional sem punição, ameaça ou invalidação. O comportamento precisa de limite – mas como fazer isso sem reproduzir os padrões agressivos que muitos de nós recebemos?
Não dá para oferecer como experiência algo que nunca foi vivido e modelado. Falta a referência. Esses aprendizados acontecem muito cedo, num nível de cérebro para cérebro, de sistema nervoso para sistema nervoso, mutas vezes ainda na fase pré-verbal.
A criança precisa de um adulto regulado para aprender a se regular. Precisa de presença para construir segurança. Precisa de conexão para confiar em si e no mundo. Quando isso não aconteceu, não se trata de uma escolha consciente.
Trata-se de sobrevivência.
Por isso, quando falamos em trauma na parentalidade, muitas pessoas pensam imediatamente em grandes acontecimentos: violência explícita, abandono, abuso. Mas o trauma que aparece na relação com os filhos, na maioria das vezes, não vem desses eventos extremos. Ele aparece nos momentos cotidianos:
· quando a criança chora e o corpo do adulto endurece;
· quando a raiva da criança ativa uma urgência de controlar;
· quando o pedido por colo, atenção ou presença parece demais.
Trauma, nessa abordagem, não é o que aconteceu. Para Gabor Maté, médico canadense e uma de nossas referências de trabalho, trauma não é definido pelo evento em si, mas pelo que se instala no sistema nervoso e no corpo quando não há suporte para processar a experiência emocional – e isso, segundo ele, influencia como nos relacionamos com nós mesmos e com os outros ao longo da vida.
A boa notícia é que, se trauma é a nossa resposta interna ao que aconteceu quando não houve suporte suficiente, não podemos mudar o que aconteceu, mas podemos buscar o suporte necessário e mudar a nossa resposta interna. Quando falamos que faltou suporte, significa a presença de uma pessoa empática e regulada emocionalmente com quem a criança pode contar para se regular e processar a carga emocional. Quando esse suporte não existiu, e a carga emocional maior do que o sistema nervoso imaturo consegue sustentar ficou armazenada no corpo. E o corpo aprende a se adaptar.
Uma criança pequena não tem escolha. Ela depende do vínculo para sobreviver. Quando suas necessidades emocionais não encontram resposta, o corpo aprende estratégias: suprimir, endurecer, entorpecer, se desconectar, tensionar, se agitar.
Com o tempo, alguns mecanismos se organizam como meios de sobrevivência: agradar, silenciar, racionalizar, controlar, lutar, escapar. Essas estratégias funcionam. Elas permitem pertencer, ter aceitação, aprovação, reconhecimento. Permitem sobreviver.
O problema é que, no longo prazo, elas cobram um preço.
O corpo não esquece a dor da necessidade emocional que nunca foi atendida.
Anos depois, quando essa criança se torna adulta e tem seus próprios filhos, essas mesmas estratégias são reativadas automaticamente – agora diante do choro, da dependência e da vulnerabilidade da criança.
O adulto sabe, racionalmente, que a criança precisa de acolhimento. Mas o corpo entra em alarme. Há uma pane do sistema nervoso. Surgem frases internas como:
“Eu não dou conta.”
“Isso é demais pra mim.”
“Ele precisa parar agora.”
Não se trata de escolha. Trata-se de um sistema nervoso desregulado buscando proteção, ao mesmo tempo em que precisa oferecer proteção a outro ser.
Um exemplo comum que muitas pessoas relatam – e que aparece em estudos sobre trauma e desenvolvimento – é a experiência da noite: a transição para a escuridão e o silêncio pode ativar memórias corporais profundas de medo, solidão ou desamparo. Em termos de sistema nervoso, isso não está ligado à lembrança consciente, mas à regulação do corpo em relação ao perigo percebido – algo que pode persistir quando o sistema nervoso carregou experiências que não foram elaboradas.
A criança, profundamente conectada ao corpo do adulto, sente essa desregulação. Ela acorda mais. Chora mais. Demanda mais. E o adulto, exausto, entra em congelamento ou irritação, sem perceber que não é a criança que está causando isso – é o trauma não elaborado que está sendo ativado.
Quando esse processo começa a ser reconhecido, algo muda. Não porque a criança passe a dormir a noite inteira. Mas porque o adulto começa a se regular por dentro. E quando o adulto encontra mais segurança interna, a criança sente. O vínculo muda. O clima muda.
Segurança, aliás, é outro ponto central da parentalidade.
Uma das maiores confusões é acreditar que segurança pode ser ensinada por meio de palavras, orientações ou boas intenções.
Mas segurança não se ensina.
Segurança se vive. Ela se constrói na experiência repetida de ser visto, sentido e acompanhado. No tom de voz. No ritmo. Na qualidade do olhar. Na capacidade de sustentar sem se afastar, sem se apressar, sem invadir.
Quando o adulto está regulado, o sistema nervoso da criança pode se organizar em torno disso. Quando não está, a criança sente – mesmo que nada seja dito.
Por isso, a parentalidade respeitosa não se sustenta apenas em valores ou métodos.
Ela só acontece quando os pais se curam.
Nunca seremos verdadeiramente respeitosos com nossas crianças enquanto não respeitarmos nossa própria história, enquanto não reconhecermos o que em nós ainda dói, ainda reage, ainda se defende.
Talvez a pergunta central da parentalidade não seja “como ser um pai ou uma mãe melhor”, mas sim:
O que em mim ainda precisa de cuidado para que eu possa verdadeiramente cuidar dos meus filhos com respeito?
Romper padrões não acontece por acaso. Não acontece porque lemos um livro, assistimos a uma palestra ou acumulamos informação. Romper padrões é uma decisão adulta. É o momento em que o adulto percebe que aquilo que carrega não começou com ele – mas pode terminar nele. Não para criar pais perfeitos. Mas para criar adultos mais conscientes, regulados e disponíveis para o vínculo.
Esse trabalho não é rápido. Nem linear. E não acontece sozinho. Quando feito em grupo, algo essencial se revela: não somos casos isolados. Somos parte de uma história coletiva – uma história em que gerações anteriores fizeram o melhor que puderam com os recursos que tinham, e em que a nossa geração tem acesso a linguagem, apoio e consciência que antes não existiam.
Quebrar ciclos de forma consciente é um privilégio desta geração. E também uma responsabilidade.
Porque a cura dos filhos começa nos pais.
E porque alguém, em algum ponto da história, precisa decidir: daqui não passa.
In.pulso é uma publicação com suporte de leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se assinante gratuito ou pago.
Se ao ler este texto algo em você se reconheceu – no corpo, nas reações, nas repetições – talvez seja útil dar um passo a mais em direção à consciência.
Criamos um Checklist: Sintomas de Trauma, que ajuda a identificar de forma simples e cuidadosa o quanto determinadas experiências ainda impactam seu corpo, suas emoções e seus vínculos.
Não é um diagnóstico. É uma ferramenta de reconhecimento.
👉 Você pode acessar o checklist aqui:
Às vezes, reconhecer já é o início de interromper a repetição.
Conheça quem criou a Jornada Raizes – trabalhando o trauma na parentalidade:
Ana Lúcia Gonçalves Münzner é facilitadora de grupos, mentora de liderança e terapeuta psicossomática com atuação focada em trauma relacional e coletivo. Seu trabalho integra abordagens contemporâneas sobre sistema nervoso, trauma e consciência corporal, com foco na interrupção de padrões transgeracionais e na construção de relações de confiança e mais seguras. É co-criadora da Jornada Raízes, um espaço presencial de reflexão e experiência sobre trauma na parentalidade.
Alcione Andrade é facilitadora de grupos e educadora parental, apoiando pais, mães e profissionais no desenvolvimento infantil e na compreensão dos vínculos, da segurança emocional e dos processos de amadurecimento relacional. Na Jornada Raízes, contribui com a abordagem da Educação Positiva, neurociências e a Mandala do Desenvolvimento da Natureza Humana, trazendo uma leitura acessível e profunda sobre como os primeiros anos de vida impactam a formação do sistema nervoso humano, a construção do senso de segurança e as relações do indivíduo para toda a vida.

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