Aqui em Rio Branco, há pouco mais de um ano, foi inaugurado o elevado Beth Bocalom, nomeado em homenagem à então recém finada esposa do atual prefeito, que partiu após um tempo de convalecimento de câncer. O elevado foi erguido com promessas de facilitar o trânsito na Estrada Dias Martins, que corta a cidade, ao custo declarado de mais de R$18 milhões, e foi anunciado como uma espécie de cartão postal da cidade e seu progresso. O elevado foi revestido com o azul Bocalom, iluminado por leds azulados, abrigando também espelhos d’água em seu vão livre. Nas laterais do elevado, artistas pintaram cenas amazônicas, animais, seringueiros, pequenos agricultores e extrativistas, e campos do agronegócio, tornando o elevado um modelo reduzido do desenvolvimentismo evolucionista que mobiliza a política do estado e o desmatamento da Amazônia na região. O prefeito pôde participar da cerimônia de inauguração com a satisfação de ter sido reeleito, de homenagear a falecida enquanto garantia seu próprio sobrenome na obra, pouco antes de viajar para lua de mel com a atual esposa. O elevado tem ganhado alguns apelidos desde então, como Beth Balança e Minhoquinha (esse vindo dos malditos paulistas). Sobe o elevado, descem os buracos por toda a cidade. Bocalom anunciou candidatura ao governo do estado.
Em frente ao elevado, há uma grande loja de móveis e decoração, dessas com a fachada toda de vidro, exibindo salas de estar e cozinhas saídas de revistas e sites, com disposição de móveis que jamais encaixariam em 99% das casas e apartamentos e talvez chocassem os Irmãos à Obra pelo excesso de cores. Contornando o elevado, eu sigo para o trabalho, e vejo há meses pela vitrine da loja uma bela sala cujo ponto focal é uma composição de quadros, nos quais se lê em letras maiúsculas: WE COULD BE HEROES JUST FOR ONE DAY. Imadiatamente eu ouço a voz de David Bowie sobressaindo-se ao piseiro ou louvor gospel tocando na playlist do motorista e sinto uma lufada de oxigênio no meu organismo, que dura quase até a rotatória de entrada da universidade. Ao passar pelo pórtico, sentindo este fôlego renovado me deixar, preparo-me para a lida com uma dose de compartimentalização, e duas doses de dissociação. Na volta, passando por cima do Beth Bocalom, já não vejo os quadros de Heroes, mas há certo alívio pelo sentido do trajeto.
Tem chovido forte no Acre, como em outras áreas do Brasil, e há partes da cidade alagadas, na baixada às margens do Rio Acre, com algumas famílias ocupando abrigos providenciados pela rede de assistência social pública. Minhas turmas se comunicam por whatsapp, perguntando se vai ter aula e declarando que não conseguirão chegar ao campus, sobretudo em razão da demora dos escassos ônibus que provêem o transporte público da cidade. É uma negociação delicada, entre a compreensão dos problemas de mobilidade e segregação urbana em Rio Branco, e a compreensão de que há certa vontade de cancelar aulas por todo e qualquer motivo. Em uma universidade que ao mesmo tempo estabelece como média de aprovação 8,0 e emprega diversos instrumentos de pressão para que não reprovemos estudantes, independente de seu aprendizado, assiduidade ou desempenho; cria-se a mentalidade de que não é preciso muito esforço, estudo ou mesmo presença. Não me vejo com muita motivação para ameaçar ou implorar para as turmas irem às aulas. Nesse semestre 2025.2 que terminará em março, talvez eu esteja mais para o Bowie de Low do que de Heroes. Isso enquanto o advogado que eu contratei acompanha o processo civil e criminal que tive que abrir contra um colega.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.