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Emaranhado · Dec 18, 2025

Lucky

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Ana Fiori · Emaranhado

Lucky indo para o cardiologista, ontem. O coração vai mal, mas vai bem.

Por quase dois meses, ele tateou, estudando as intenções e os riscos, recusando a aproximação e a intimidade, suspeitoso da gentileza estranha. Resgate era a palavra humana, a partir de suas próprias percepções de risco e falta. Quem se não ele poderia saber de que haveria de sentir falta? Entre a urgência do presente e as memórias fugidias de um passado, anseios e saudades, desconfiança não faltava. Mas rendeu-se. Foi resgatado. Foi retirado das ruas e submetido aos procedimentos de cuidado e profilaxia, os perigos que seu corpo poderia trazer neutralizados. E posto a esperar por aquilo que ainda faltava, e ele nem sabia.

Na praça central da cidade, à sombra da igreja matriz, minha mãe e minha avó passeavam. Acontecia um brique, uma feirinha com pequenos artesanatos locais, bordados, crochês e tricós, pinturas, guloseimas, brinquedos de madeira e pano. E, próximas à fonte da praça, gaiolas com animais para adoção. Lá, elas o viram. E ele as viu. Batizado de Caramelo, como rege a tradição brasileira dos vira-latas. Mas um caramelo com jeito de raposa, tímido. Caramelo voltou com as duas para casa, para fazer companhia para a jovem pastora alemã, Yarik, e um viralatinha fox, Bobby, já idoso. Em casa, enfim, ganhou seu nome definitivo, Lucky.

Lucky, Bobby e Yarik fofocando no portão, no Natal de 2015.

Bobby partiu há muitos anos. Yarik e minha avó no ano passado. Lucky está completando 13 anos. Ganhou a companhia provisória de Fiapo de Manga durante a pandemia e, definitivamente, em 2023, quando eu vim para o Rio Grande do Sul fazer pós-doutorado. Dois machos caramelos. Um de pelo longo e liso, outro de pelo de arame, fiapento. Com seus companheiros, Lucky viveu muitas aventuras ao longo desses anos no sítio, afugentando quero-queros e andorinhas, caçando lagartos, explorando os arredores, mordendo à traição calcanhares dos rapazes que vinham cortar grama ou fazer alguma manutenção. Uma vida de cão. Bucólica, espaçosa, cheia de carinhos. Lucky continuou arredio, meio assustado, mas aprendeu a gostar de afagos e até a pedir colo, às vezes. Aceitou a liderança impositiva de Yarik e seu ciúme com resignação prudente. Aceitou a energia petulante de Fiapo com maturidade. Sortudo, ele deve ter se considerado. Ganhou na loteria dos cachorros. Vigiou os últimos anos de minha avó vivendo seu próprio envelhecimento. De minha avó, aprendeu a tomar leite de manhã e pão com queijo e geleia a tarde, para apavoro dos veterinários e contrariando nossas reiteradas proibições. “Se eu estou comendo, tenho que dividir com eles” dizia minha avó, passando aos cães o pedacinho de pão ou o bolo escondidos, se precisasse. Cachorros de vó, roliços e contentes.

Em todo seu esplendor caramelo, Lucky, em outubro de 2016.

Ainda tímido, Lucky aprendeu a ser manhoso. Um velho ranheta. Late e chora pedindo coisas, ou simplesmente discursando em uma casa em que os humanos não tem o monopólio da voz. Há alguns anos, descobrimos que Lucky tem sopro no coração. Desde então, é acompanhado com um veterinário cardiologista e toma remédio continuamente. Como bom malandro, ele gospe o remédio se não for vigiado, mesmo quando ele vem envolvido com patezinho. Olha, com ares de desentendido, e espera a próxima porção de patê. Remédios cardíacos exigem cuidados com rins e fígado, é um equilíbrio delicado. Para Lucky, são petiscos meio coagidos, meio adulados. Fiapo ganha petisco junto, aproveitando a carona enquanto a idade não lhe exige medicação.

Há pouco mais de dois anos, Lucky também convive com um câncer no fígado. Emagreceu bastante nos últimos meses, um pouco como minha avó havia emagrecido em seus últimos meses. A veterinária oncologista esta semana disse que Lucky está estável. De fato, ele já ultrapassou a previsão de expectativa de vida que ela havia lhe dado. E está bem, sem dor, alerta e ativo, nos termos da preguiça de um cachorro velho de pança cheia. Eu disse à veterinária que Lucky é corintiano, maloqueiro e sofredor, e que leva na prorrogação até os pênaltis. (Fiapo, como a maioria dos acreanos, é flamenguista. Chato, debochado e acha que o mundo é dele). Lucky fez os últimos exames tremendo de medo, e no carro latiu seus protestos. Leva consigo a coragem dos covardes. E vive bem, nesse que talvez seja seu último verão. Um caramelo esparramado no tapete, sob a árvore de Natal.

Um desenho meu de Yarik, Fiapo e Lucky em guache, no Natal de 2023

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