O topo das torres do condomínio em que moro é habitado por famílias de pombos, que gostam de fazer ninhos nas caixas de ar-condicionado das unidades. Foram instalados espinhos feitos de um material emborrachado para coibir a ocupação aladas, sem muito sucesso. As pombas perambulam pelo estacionamento, projetando sombras bruxuelantes sob o sol escaldante e trazendo a sensação de movimento varanda adentro. De manhã e no final da tarde, o farfalhar de asas sinaliza seu encontro com os cães, shitzus, beagles, yorkshires, vira-latas, guiados por seus donos para um pouco de exercício e alívio fisiológico. Três ou quatro vezes por dia, uma vizinha solta suas duas gatas para passear pelas áreas abertas do condomínio, mas elas são curiosamente indiferentes às pombas e demais pássaros. As crianças e adolescentes também são. Ocupam os brinquedos do play, a quadra ou os bancos e as pombas se afastam para o topo do prédio, de onde podem espiar o interior dos apartamentos. Calangos verdinhos e insetos diversos correm pelo chão, de gramado a gramado, ou pelos bueiros.
Pequenos bem-te-vis, sanhaços, sabiás-laranjeiras e joão-de-barros também tem parada por aqui. Hoje, por duas vezes, um passarinho cinzento entrou no meu quarto. Na primeira vez, eu estava na sala e o vi através do corredor, disparando de volta para fora. Na segunda vez, o danado deteve-se na grade da janela antes de sair. Não sei se queria fazer ninho dentro do quarto ou estava em busca de outra coisa. Passarinho quando entra em casa anuncia visita ou notícia, ou mesmo mudança de vida.
Ultimamente, ando plena de pensamento mágico, como se a racionalidade fosse um fio de contas prestes a romper, espalhando miçangas por todo o plano cartesiano. O pensamento mágico como um recurso afetivo diante de diagnósticos sombrios. Em um ano, prestei três concursos docentes em universidades diferentes. Cada concurso lançou sobre mim uma sombra diferente de minhas próprias insuficiências. No primeiro, estudei em uma disciplina monástica temas distantes dos meus habituais por cerca de um mês, e mesmo assim não passei da prova escrita na primeira fase (não fui marxista o suficiente, acho). No segundo, fiz as provas em meio a um turbilhão de problemas em meu ambiente de trabalho, assolada pela insônia, e o que me derrotou afinal foi não ser o perfil desejado subrepticiamente pela banca (não fui decolonial o suficiente, acho). No terceiro, lutando para me adaptar a uma medicação que me impede de ler e pensar direito, fiz as provas para não perder de W.O., como se houvesse alguma honradez em jogo (não fui erudite o suficiente, acho).
Ainda estou com dificuldade para ler, mesmo tendo trocado a medicação. Creio que preciso fazer uma espécie de fisioterapia de leitura acadêmica, algumas páginas por vez, para que eu consiga lidar com a tontura, o enjoo e a confusão mental. A psiquiatra está preocupada com meu estado emocional, com minha saúde mental, eu estou preocupade com a minha capacidade intelectual e o recurso da leitura como fruição, porque já cansei de maratonar séries de tv no tempo livre. Mas não posso agora interromper os remédios. Em dezembro, fiquei dois dias e meio sem medicação e tive as mais intensas experiências de alteração da consciência da minha vida. Tenho a sensação de que algo do meu ser foi capturado para esta dimensão onírica das substâncias farmacológicas que interferem na captação da serotonina, e o sonhar tornou-se um ciborgue filho bastardo do capitalismo de vigilância.
Enfim, foi possível chamar a polícia para o colega que tem proferido discursos homofóbicos e me feito de alvo de injúrias e difamação. Após uma década de queixas internas que não deram em nada, e alguns boletins de ocorrência registrados na delegacia. Eu disse a uma das pessoas em posição de autoridade na universidade que eu resolveria na macumba o que não pudesse resolver na burocracia acadêmica. O fato é que o próprio colega resolveu demonstrar publicamente seu discurso diante de dezenas de testemunhas e foi levado à delegacia acompanhado de um PM com um enorme fuzil. Saímos em notícias da imprensa local. Nos últimos anos, fiz o possível para manter a discrição nas situações de conflito em que me envolvi. Gente que praticou assédio moral comigo galgou posições que queria na academia. Mas, dessa vez, a publicização era necessária.
Estou estudando os melhores meios de ir embora. Quanto mais tempo passa, parece que mais difícil se torna, parece que minhas insuficiências se ampliam e eu me torno mais e mais irrelevante. Foi isso que me foi perguntado: “mas o que você tem a acrescentar, afinal?” Mais do que tudo o que eu já faço, amigo?? Só mesmo decifrando a semiótica do voo dos passarinhos urbanos de Rio Branco.

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