No começo de agosto participei da XV Reunião de Antropologia do Mercosul, no campus Ondina da UFBA, em Salvador. Apresentei comunicação no Grupo de Trabalho 100: Etnografias em contextos de violência, criminalização e encarceramento, com uma discussão sobre o caso Yara Paulino, uma jovem mulher linchada até a morte após se espalhar uma fake news de que ela teria matado a própria filha bebê. Propus algumas articulações entre feminicídio, infanticídio e linchamento, enquanto modalidades de morte e violência, e uma discussão sobre linchamento e fake news como autoria coletiva e difusa. O texto está disponível no site do evento, e quero fazer algumas alterações nele, a partir das discussões, para submeter para publicação. A princípio, eu nem tinha certeza de que queria publicá-lo, escrevi este trabalho em parte porque me pareceu um caso tão horroroso que era quase uma obrigação não deixá-lo ser esquecido e soterrado com as notícias diárias de novos crimes que se sucedem nos assuntos e na consciência da população. Mas o GT foi muito estimulante, em seu encontro de trabalhos sobre temas distintos selecionados pelas coordenadoras Natália Lago, Vanessa Sander e Roberto Efrem (e eu já tinha participado de GT deles no Encontro Nacional de Antropologia do Direito, e simplesmente ESQUECI, porque gafes são minha especialidade), e sobretudo a discussão da debatedora da minha sessão, ninguém menos que Adriana Vianna, que eu não conhecia pessoalmente e a quem admiro largamente. E que foi extremamente gentil comigo. De resto, ainda me recuperando da virose, participei muito pouco do evento. Vi de relance algumas amizades, troquei abraços saudosos. Aproveitei a semana para passar um tempo com meu irmão e cunhada, que se mudaram há alguns anos para Salvador, e rever amizades do meio nerd.
Em Salvador, Evelling mestrou para nós Eat the Reich, um RPG miojo sobre um grupo de vampiros recrutados pelos aliados para ser lançado numa Paris tomada pelos nazistas com a única finalidade de trucidá-los e secar Hitler. Que. Jogo. Perturbado. Demos muita risada, claro. Com direito a uma performance minha fazendo roleplay com uma galinha de pelúcia.
Logo antes de viajar, havia terminado de assistir a última temporada de O conto da aia. Demorei um tempo depois do lançamento dos episódios para criar coragem e terminar a série, que é talvez uma das mais pesadas que eu já assisti. Mais de uma pessoa com quem eu comentei que estava assistindo me disse que desistiu na primeira ou segunda temporada. Vi entrevistas com a atriz protagonista, Elizabeth Moss, agradecendo a quem resistiu e assistiu até o final, e comentando o modo visceral como a série foi filmada, inclusive fazendo com que a câmera esbarrasse constantemente no corpo dos atores e atrizes, tal a proximidade de alguns enquadramentos. A primeira temporada é a que corresponde mais ao livro. A relação da personagem principal, Offred, com a mãe, que surge como lembranças no livro e é um contraponto reflexivo às atribulações que Offred vive, na série surge em temporadas mais pra frente, e na última temporada mãe e filha se reencontram, o que não acontece no livro (não sabemos bem o que acontece com Offred ao final do livro). Isso é parte da mudança de tom dessa última temporada, menos desesperançosa, organizando a resistência entre avanços e retrocessos, sem um final definitivo para a guerra. Faz sentido considerando a nova eleição de Trump e o avanço vertiginoso da direita nos Estados Unidos, com supressão vasta de direitos de mulheres, imigrantes e outros segmentos minoritários. Manter a série apenas na opressão de Gilead, apenas a distopia, não traria os elementos que a época exige.
Janine, eu te amo
Em entrevista, ouvi Elizabeth Moss dizer que está produzindo a série do livro que sucede O conto de aia, Os testamentos. Li o livro enquanto estava em Salvador. Se o livro O conto de aia é a transcrição da gravação de Offred, narrando em primeira pessoa os acontecimentos pelos quais passou em Gilead, o livro Os testamentos são os depoimentos das filhas de Offred, Hannah e Nicole, e registros de Tia Lydia, uma das grandes antagonistas de O conto de aia (mais ou menos redimida no final da série), e que se torna uma personagem mais complexa em Os testamentos, ao recontar como foi presa no início de Gilead e se tornou peça fundamental no estabelecimento do sistema de aias. É um livro que não faz muito sentido para quem não leu O conto de aia, e foi escrito por Margaret Atwood já com a série no ar, ou seja, repercute essa nova onda de recepção da história quase quarenta anos depois da publicação do livro original. Aparentemente a série vai focar-se apenas em Hannah, porque os acontecimentos das temporadas finais da série são um tanto discrepantes com o livro.
Enquanto estava em Salvador, fui fuçar também os livros do meu irmão e apanhei dois do Philip Dick. O homem do castelo alto é um experimento em história alternativa, na qual o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e dominou o território americano, dividindo-o entre Alemanha e Japão. Os judeus ao redor do mundo foram praticamente exterminados e continuam a ser perseguidos e os estadunidenses tem direitos civis limitados. Um livro de ficção, entretanto, conta a história do que teria acontecido se os Aliados tivessem ganhado a guerra, e mexe com a imaginação e as esperanças de diferentes personagens. Ao mesmo tempo, objetos da história dos Estados Unidos prévia à guerra se tornam itens de colecionador bastante cobiçados, e passam a ser falsificados, enquanto produções estadunidenses contemporâneas são rejeitadas. O que conta como relíquia é uma questão aberta e pode, eventualmente, tornar-se uma arma política. O que é história, verdade, ficção afinal? Questões de todas as histórias de Philip Dick.
O outro livro que eu peguei é uma coletânea de contos de Dick que foram adaptados para o cinema, agrupados no título Realidades Adaptadas. Trouxe o livro para Rio Branco comigo, porque só terminei de ler ontem. Foi bem legal conhecer as histórias originais de Minority Report, O Vingador do Futuro, Screamers, entre outros filmes de ação/sci-fi, histórias obviamente diferentes nos contos. Eu só tinha lido o Do Android Dream of Eletric Sheep?, que deu origem a Blade Runner (e que é muuuito diferente do filme). Valeu a pena conhecer mais o trabalho do Dick. Estou nesse processo de finalmente dar conta dessas leituras e parar de ser poser.
Agora, um cara que eu li muito muito muuuuito na adolescência foi Isaac Azimov. E, enquanto em Salvador, aproveitei que meu irmão tem a Apple TV para assistir a primeira temporada de Fundação, que eu achei belíssima. Talvez o tempo tenha me tornado menos apegada à ortodoxia (continuo detestando os filmes de O Senhor dos Aneis). A trilogia da Fundação eu li e reli várias vezes, mas não pego há muito tempo. A série de TV detém-se bem mais em Trantor do que os livros, construindo um contraponto entre Trantor e Terminus (planeta no qual será erigida a Fundação) e invertendo um pouco a lógica da política planetária, apostando na união entre planetas rivais, e não no fomento à rivalidade. Também, creio eu, um aceno aos tempos de crise do multilateralismo da geopolítica terrena. Mas como eu não terminei de assistir a série ainda, estou só na curiosidade.
Eu li essa edição aqui
Talvez, finalmente, meu artigo sobre as SF do Manifesto Ciborgue saia. Mandei a versão revisada para a revista hoje. Nesse meio tempo, outro filhote finalmente veio ao mundo, também depois de anos de espera. O livro do projeto As Margens da Pandemia: relatos de maternidades está disponível gratuitamente para download. A ilustração da capa é minha e eu estou muito feliz com isso hehehehe
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