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Emaranhado · Sep 3, 2025

Coisas que ando lendo

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Enquanto espirro, tusso, fico sem oxigênio e vejo Bozo ser condenado

Eu até queria dar uma de doide e dizer que meti um atestado pra ficar acompanhando o julgamento do Genocida e seus comparsas, mas de fato estou com mais uma crise alérgica (rinite+sinusite+garganta) que eu estou morrendo de medo que vire mais uma infecção daquelas que vão me enterrar em 10-15 dias de antibiótico. Ontem dei aula espirrando e hoje tirei o time de campo, com ciência de minha coordenadora e com as bençãos do antialérgico, anti-inflamatório e do própolis. Fiquei em casa, resolvendo burocracias acadêmicas e atendendo alunes online. Isso com o julgamento rolando no Youtube e eu ouvindo fragmentos, enquanto assoava o nariz. O Brasil e eu em estado de secretar/excretar aquilo que é ruim.

Luís Fernando Veríssimo, sempre do lado certo da história! ✊🇧🇷 #verissimo  #LuisFernandoVerissimo #bolsonaro

Comentei com um amigo o quanto eu tinha lido Luis Fernando Veríssimo na escola. Ele disse que todo mundo disse isso, que foi o comentário recorrente junto com a saudade de quando as fake news eram os textos que circulavam assinados por ele sem terem sido escritos por ele. A Rádio Novelo Apresenta tem um episódio muito legal sobre um desses textos e sua verdadeira autora. Mas, ao ouvir meu amigo, pensei “sim e não”. Lá no Rio Grande do Sul, onde eu fiz o ensino médio, há um carinho orgulhoso com os Veríssimos, pai e filho. Além das aulas de português em que as crônicas de Veríssimo filho eram lidas (e eu apresentei seminário sobre Incidente em Antares, do Veríssimo pai, Érico, no segundo ano, ainda lembro de fazer os slides), houve um ano em que o grupo de teatro do Colégio Marista encenou várias crônicas. De Comédia da vida privada, Comédias para ler na escola, acho que também As mentiras que os homens contam. Eu fiz teatro por alguns anos na escola, mas acho que no fundo gostava mais de bolar roteiro e cenografia do que de ser atriz. Veríssimo me vem na cabeça em cena, de todo modo, e me bateu uma rara saudade da adolescência ao saber de sua passagem. Ele disse “a morte é uma sacanagem, sou cada vez mais contra”. Espero que dessa contrariedade lhe venham ventos favoráveis e que a travessia lhe seja leve.

Tirinhas on X: "(As Cobras, por Luís Fernando Veríssimo)  https://t.co/03uHxiCLSd" / X
As cobras, criação maravilhosa do Luís Fernando Veríssimo

Eu estou terminando de ler I know ths much is true, que conta a história de Dominick, ex-professor e agora pintor de casas, lidando com o irmão gêmeo Thomas e sua esquizofrenia paranóide, com o relacionamento difícil com o padrasto (abusivo quando os irmãos eram crianças) Ray, com a perda da mãe e da filha recém nascida, com o divórcio e com as memórias escritas de seu avô imigrante siciliano, além da angústia de não saber quem é seu pai biológico. O personagem e sua trajetória têm tendências a ser o sacolão da desgraça, o que me faz ler o livro um pouco vagarosamente. Já estava com umas 50, 60 páginas lidas quando me dei conta que tinha visto esse título em algum lugar, e me toquei que tem uma série no HBO baseada no livro. Fui intercalando a série e o livro, mas a série terminou primeiro. Achei uma boa adaptação, quase ipsis literis em muitas cenas, condensando eventos distintos em outras, estou curiosa para saber se o final é o mesmo. O tema principal é o enorme peso familiar (sobretudo em Dominick) de cuidar de um parente neuroatípico que exige cuidados intensivos, esse caldo de amor, ódio, desespero e culpa. Como Dominick processa acontecimentos e lembranças em suas sessões de terapia com a Dra. Patel, que também acompanha seu irmão internado, a trama me lembrou um pouco O Príncipe das Marés, sem Bárbara Streisand e sem romance entre terapeuta e analisando. Quando eu li O Príncipe das Marés, chorei de sair ranho. I know this much is true não me derrubou tanto, deve ser porque eu fiquei mais cascuda. O Dominick da série, interpretado por Mark Rufallo na idade adulta, é mais afável do que o do livro, entretanto. Tem uma subtrama pequena, mas importante, que envolve outros gêmeos, Ralph e Penny Ann Drinkwater, e que coloca questões como traição, perdão e racismo.

I Know This Much is True,' Starring Mark Ruffalo, Debuts on May 11 on HBO  GO and HBO – Starmometer
O livro e a série

Falando nisso, estou na empreitada de ler Frantz Fanon mais sistematicamente também. Estou terminando o Peles Negras, Máscaras Brancas, do qual eu conhecia apenas alguns trechos. Decerto, fui pega por essa onda de retorno de interesse de Fanon, que eu acho imprescindível, sobretudo para como as discussões sobre colonialismo e suas contraefetuações tem caminhado. Fanon é uma leitura desestabilizante, no bom sentido.

Pele negra, mascaras brancas

Read on anafiori.substack.com

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